Pequim promete controle muito mais rígido da Covid nos Jogos de Inverno

China, que vai receber Olimpíadas daqui a seis meses, investe em mecanismos de controle

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Keith Bradsher Tariq Panja
Pequim | The New York Times

Seguranças em trajes protetores contra contaminação, prontos para impedir que qualquer pessoa deixe o local. Atletas concedendo entrevistas por trás de paredes de plástico. Termômetros fixados às axilas o dia inteiro, com pequenos transmissores para acionar o alarma caso alguém desenvolva uma febre.

As Olimpíadas de Inverno de Pequim estão a apenas seis meses de distância, e as autoridades chinesas planejam precauções elaboradas contra a Covid-19. As medidas devem ir muito além das adotadas nos Jogos Olímpicos de Tóquio, que se encerraram no domingo com mais de 400 contágios reportados.

A China deixou claro que conter o vírus será sua maior prioridade. Em 30 de julho, enquanto subia o número de casos em Tóquio, os organizadores da Olimpíada de Inverno de Pequim anunciaram planos para reformas nos 39 locais em que as competições ocorrerão. Há operários trabalhando para instalar divisórias em corredores e para construir novos banheiros e outras instalações.

Terminados os Jogos Olímpicos de Verão, em Tóquio, os chineses se preparam para receber os Jogos Olímpicos de Inverno, em Pequim - Tingshu Wang - 30.mar.21/Reuters

​As mudanças de projeto têm por objetivo assegurar que os atletas tenham contato quase zero com árbitros, espectadores e jornalistas, e esses três outros grupos de participantes também serão mantidos separados uns dos outros. O objetivo é minimizar os contágios cruzados.

“Essas medidas suplementares de prevenção de contágio não são muito trabalhosas em termos de escala da construção requerida nem difíceis em termos de complicações na construção”, disse Liu Yumin, representante do comitê organizador dos Jogos de Pequim. “Todos os locais de competição estarão prontos a tempo.”

A China decidiu adotar uma abordagem de tolerância zero quanto ao coronavírus desde que o país o deixou relativamente sob controle, no ano passado. As fronteiras chinesas estão quase completamente seladas.

O governo do país vem esmagando os surtos esporádicos da doença por meio de medidas de lockdown que cobrem cidades inteiras. Há mobilização de grande número de pessoas para conduzir exames de possíveis infectados e rastrear contágios. Surtos esparsos da variante delta nos últimos dias causaram preocupações mais sérias do que as usuais entre as autoridades.

Em Tóquio, as autoridades proibiram a presença de espectadores em quase todas as competições olímpicas. Instruíram os participantes internacionais a se alojar em hotéis especialmente designados e a usar ônibus especiais em seu deslocamento de e para os eventos.

Mas a aplicação dessas medidas foi pouco rigorosa, e veículos de imprensa presenciaram numerosas violações. Participantes que residem no Japão e foram autorizados a ir de suas casas para locais dentro da “bolha” olímpica responderam por cerca de dois terços dos contágios reportados durante os Jogos.

A China planeja adotar uma abordagem mais severa. Para as Olimpíadas de Inverno, que ocorrerão de 4 a 20 de fevereiro, as autoridades pretendem isolar o 1,4 bilhão de chineses de todos os atletas, árbitros, jurados, motoristas, guias, jornalistas e outras pessoas associadas aos eventos.

Quando os Jogos terminarem, praticamente todos os participantes terão de deixar a China rapidamente. A alternativa é se submeter a semanas de isolamento total em centros de quarentena operados pelo governo, nos quais passarão por numerosos exames médicos.

Entre essas pessoas estarão milhares de trabalhadores chineses, que terão de viver na bolha durante toda a duração dos Jogos e depois “reingressar” no restante da China só depois de passar por uma quarentena prolongada. Não foi anunciada nenhuma decisão sobre vacinação obrigatória ou sobre quarentenas mais curtas para pessoas chegadas do exterior.

A China vai considerar os Jogos um sucesso caso eles unifiquem o país e fortaleçam sua imagem internacional sem causar novos surtos da doença, especialmente fora da bolha, disseram pessoas informadas sobre o planejamento, que insistiram em que seus nomes não fossem mencionados porque não estavam autorizadas a discutir o assunto publicamente. Elas afirmaram que ameaças à saúde ou à segurança do país não seriam toleradas.

Os organizadores não revelaram a dimensão total das medidas preventivas, que ainda devem evoluir nos próximos meses. O comitê organizador de Pequim respondeu a perguntas encaminhadas por email listando declarações oficiais anteriores.

Mas alguns detalhes foram anunciados. Os jornalistas terão de entrevistar os atletas separados deles por paredes plásticas espessas. Os microfones estarão cobertos por capas esponjosas de proteção, que serão substituídas depois de cada entrevista. Como em Tóquio, Pequim planeja limitar severamente o número de pessoas autorizadas a participar das cerimônias de abertura e encerramento das Olimpíadas.

Liu Yumin, do comitê organizador de Pequim-2022, afirma que todas as precauções estão sendo tomadas para que os Jogos sejam bastante seguros - Tingshu Wang - 30.jul.21/Reuters

O Japão proibiu o ingresso de espectadores estrangeiros, mas permitiu a entrada de mais de 42 mil participantes credenciados dos Jogos no país. Pequim já informou que menos de 30 mil pessoas, entre as quais os participantes credenciados, serão autorizadas a entrar em seu território no período dos Jogos de Inverno, mas decisões quanto a espectadores estrangeiros ainda não foram anunciadas.

“Uma edição mais simples e enxuta se tornou obrigatória, por causa das preocupações de segurança”, disse Zhong Bingshu, funcionário da prefeitura municipal de Pequim.

Não foram divulgadas informações sobre as instalações de quarentena olímpicas. Mas, em termos gerais, os principais especialistas médicos da China concluíram que os hotéis do país, embora confortáveis, não oferecem controle suficiente de contágios.

Por isso, novas abordagens foram estabelecidas. Por exemplo, quase 2.000 contêineres de metais pré-fabricados e empilháveis para quarentenas individuais foram montados durante um surto ocorrido neste ano na cidade de Shijiazhuang, cerca de uma hora de carro ao sul de Pequim.

O COI (Comitê Olímpico Internacional) vem em geral evitando discussões sobre os protocolos para a Covid-19 nas Olimpíadas de Inverno de Pequim. Em entrevista coletiva na última quinta-feira, em Tóquio, o porta-voz do comitê, Mark Adams, deu a entender que pouca coisa estava decidida.

“É muito difícil falar sobre os Jogos de fevereiro”, afirmou. “Tudo o que posso afirmar é que faremos todo o possível a fim de garantir que encontremos as melhores condições possíveis para todos os participantes dentro da estrutura necessária para lidar com uma pandemia continuada, que, infelizmente, quase com certeza, continuará a ter forte efeito em fevereiro do ano que vem.”

Atleta compete em evento-teste para os Jogos de Pequim - Tinshu Wang - 7.abr.21/Reuters

Durante as Olimpíadas de Tóquio, dirigentes de diversos comitês olímpicos nacionais trocaram informações, enquanto crescia a ansiedade sobre as medidas que a China pode impor nos Jogos de Pequim. A maioria deles parecia acreditar que as restrições vistas em Tóquio seriam quase nada na comparação.

Alguns atletas precisavam urgentemente saber o que esperar. Esportes de deslizamento como luge, bobsled e skeleton, por exemplo, precisam se familiarizar com as pistas que os atletas percorrerão em velocidade perigosa e sob vento forte.

Pouco antes das Olimpíadas de Inverno de Vancouver, em 2010, Nodar Kumaritashvili, um atleta georgiano de 21 anos, que buscava classificação para a prova de luge, morreu ao perder o controle de seu trenó em uma descida de teste; ele voou para fora da pista e atingiu de cabeça uma estrutura de apoio.

O Reino Unido planeja enviar um grupo de atletas dessas categorias a Pequim já em outubro. Eles foram informados de que devem se preparar para passar mais de um mês lá, sob condições descritas como “lockdown severo”.

Os organizadores dos Jogos de Pequim forneceram vídeos, filmados por “drones”, que mostram detalhadamente as pistas para as equipes que não puderem ir mais cedo ao país a fim de treinar. Há quem antecipe que os atletas chineses venham a se sair melhor nos esportes de deslizamento do que poderia ser o caso, tendo em vista os desafios que seus competidores terão de enfrentar.

Muita gente no Japão criticou a decisão de realizar as Olimpíadas apesar de tudo, por temer que os visitantes viessem a causar mais contágio. Embora tenha havido pouca discussão sobre as Olimpíadas de Inverno na internet chinesa, que opera sob censura, o governo está atento a sinais de descontentamento popular e tem todos os motivos para tentar garantir ao povo que não haverá novos riscos.

A China vem alardeando seu uso da tecnologia no combate ao vírus. Na sexta-feira, o Diário do Povo, um jornal estatal chinês, divulgou uma invenção que está em uso em Wuhan, a cidade em que o vírus emergiu pela primeira vez: um robô que obtém amostras para exames de Covid-19, usando um bastão que extrai material da garganta do examinado.

A publicação não falou sobre o uso desse robô nas Olimpíadas, e o comitê organizador de Pequim não respondeu a perguntas sobre isso. Mas a China conduziu um teste de uma tecnologia que será usada nos Jogos: termômetros de axila afixados com adesivos, que transmitem a temperatura do usuário.

Mais de 600 pessoas foram equipadas com o termômetro adesivo durante um experimento em um estádio de Pequim no segundo trimestre, e uma delas desenvolveu uma febre, rapidamente detectada.

“As autoridades locais logo ativaram o mecanismo de resgate e prevenção de epidemias, e executaram uma revisão epidêmica, até que um resultado negativo foi obtido em um exame de ácido nucleico”, anunciou o governo posteriormente.

Tradução de Paulo Migliacci

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