Refugiado que fugiu da guerra na Síria visita escolas para contar sua história

Sírio Abdulbaset Jarour ensina alunos e professores a receber bem o estrangeiro

Flávia Mantovani
São Paulo

“Salaam aleikum”, diz o homem de barba, usando um turbante na cabeça. “Wa-alaikum as-salaam”, respondem as crianças. 

Eles estão se cumprimentando em árabe, mas a cena acontece no Brasil mesmo, em uma escola pública de São Paulo. 

O homem de turbante é Abdulbaset Jarour, 29, mas todo mundo o chama de Abdu, para facilitar. Ele fala árabe porque nasceu na Síria, país localizado no Oriente Médio, mas também fala português porque mora em São Paulo há cinco anos. 

Abdu gostava da Síria, mas teve que sair de lá por causa de uma guerra muito violenta que começou em 2011 e ainda não terminou. Ele é um refugiado, nome dado às pessoas que mudam de país fugindo de um conflito ou de perseguições. Metade da população da Síria teve que sair de casa e mais de 6 milhões estão espalhados pelo mundo. 

Vindo de tão longe e tendo vivido uma guerra, Abdu tem muita história para contar. Em uma roda com os alunos de 11 a 13 anos, ele fala sobre o sofrimento das crianças sírias, sobre sua vida lá e no Brasil e sobre a Copa dos Refugiados, um campeonato de futebol que ele organiza por aqui.

A ideia de chamar Abdu para a visita foi das professoras da Escola Municipal de Ensino Fundamental General Osório, que estão trabalhando o tema do refúgio nas aulas. 

“Essa experiência marca a vida deles para sempre, porque não é só o professor falando. A gente ganha muito com a cultura dos outros povos”, diz a professora de artes Mirela Valverde, 44. 

Abdu já foi a mais de 350 escolas públicas e particulares, mas nunca tinha sido recebido com tanto barulho: o pátio estava lotado de crianças hasteando bandeiras da Síria e gritando seu nome. Os olhos dele se encheram de lágrimas, e alguns alunos também choraram de emoção.

O sírio ressalta com as crianças a importância de receber bem os colegas estrangeiros, que chegam ao Brasil perdidos e sem falar o idioma. 

 
Mapa da Síria

As crianças escutam atentas as histórias dele e fazem perguntas. “Você veio de avião?”;”Como se fala ‘oi’ em árabe?”; “Já sofreu preconceito?” ; “Alguém te ajudou quando chegou no Brasil?” 

Um aluno quer saber se ele teve que se separar de sua mãe. “Fiquei seis anos longe dela”, responde, deixando a turma boquiaberta. Todos também se impressionam quando ele diz que tem ferimentos de bomba no joelho e no ombro. 

“Um dia esses alunos vão ser médicos, advogados, funcionários públicos. Se forem atender um imigrante, poderão se colocar no lugar dele, ter empatia. Ninguém nasce preconceituoso, é a falta de conhecimento que traz o preconceito”, diz.

Abdu não é o único refugiado a ir às escolas de São Paulo. Outras pessoas, vindas de países como Congo e Venezuela, costumam fazer o mesmo. Existe também um projeto chamado Deslocamento Criativo, que treina imigrantes para contar histórias infantis. 

Quando a conversa com Abdu terminou, já tinha passado do horário do fim das aulas. Mesmo assim, os alunos não queriam deixá-lo ir embora. A despedida da turma foi gritando uma palavra em árabe que ele ensinou: “Shukran”. O significado? “Obrigado”.

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