Autores comentam os livros de Monteiro Lobato de que mais gostam

Hoje, dia 18, completam-se 138 anos do nascimento do escritor de Reinações de Narizinho e de outros clássicos da literatura infantil

São Paulo

Você já ouviu falar no Sítio do Picapau Amarelo? Aquele com a boneca Emília, Narizinho, Dona Benta e Tia Nastácia?

Pois um sítio igualzinho a esse existiu de verdade, muitos anos atrás, quando o criador de todos estes personagens era criança como você. Foi lá que o escritor Monteiro Lobato (1882-1948) cresceu, em uma cidade paulista chamada Taubaté.

Neste sábado (18), completam-se 138 anos do nascimento dele. E mesmo tendo vivido há tanto tempo, os livros que escreveu continuam fazendo parte da história de muitas famílias, que leem hoje para os filhos aquilo que leram quando ainda eram pequenos.

Ilustração que  mostra um sapo e uma formiga se cumprimentando na ponta do nariz de uma menina
Ilustração do livro "Reinações de Narizinho", de Monteiro Lobato - J. U. Campos

Monteiro Lobato foi um paulista baixinho, irônico e com grossas sobrancelhas. Nasceu em Taubaté, mas sua vida transcorreu entre diferentes lugares: São Paulo, Rio de Janeiro, Nova York, Buenos Aires”, diz Marisa Lajolo, autora de “Reinações de Monteiro Lobato, uma Biografia”, junto com Lilia Schwarcz.

“Ele estudou direito, mas quase não trabalhou como advogado. Foi fazendeiro por um tempo, mas o que foi mesmo foi editor e escritor. Modernizou o modo de produção de livros no Brasil e modernizou maravilhosamente o jeito de escrever para crianças”.

Em seus 66 anos de vida, Lobato escreveu mais de 30 livros infantis, traduziu e adaptou histórias para crianças. Também produziu mais de 20 obras para adultos.

A convite da Folhinha, Lajolo e cinco autores comentam os livro de Lobato de que mais gostam.

Ruth Rocha

O Monteiro Lobato me transformou em escritora. Tenho certeza de que a leitura dele foi básica para minha formação. Adoro os livros dele, gosto muito de quase todos. E leio até hoje, ainda.

O primeiro que eu conheci, quando eu tinha uns quatro ou cinco anos e minha mãe leu para mim, foi “Reinações de Narizinho”. Ainda ponho este entre os livros de que mais gostei na vida.

O personagem do Lobato que mais me encantou foi a Emília. Ela era um acontecimento na vida da gente. Estávamos acostumados com tudo certinho e aparece, de repente, uma personagem malcomportada, inteligente, divertida.

Pedro Bandeira

Monteiro Lobato é autor de uma das maiores criações infantis da humanidade.

Os autores europeus que contavam histórias antes dele nunca punham a própria criança leitora como protagonista. Daí ele cria uma menina de sete anos igual ao que uma menina de sete anos é. Ela brinca sozinha com sua boneca, fala com ela, e a boneca fala com a menina.

Meu livro favorito é “Reinações de Narizinho”. É genial que uma boneca aprenda a falar, mas não aprenda a ser gente. Ela não desenvolve o superego, então fala o que pensa, e não é por maldade. Isso é muito genial.

Todos os meus personagens não têm cabeça de velho porque aprendi com ele. Ele foi meu grande professor. Li esse livro há 71 anos, aos sete anos, e há 71 anos eu continuo lendo.

Ana Maria Machado

Meus livros favoritos são “O Minotauro”, raiz da minha descoberta da mitologia grega, revelação de um mundo, e “Reinações de Narizinho”, sempre, que devo ter lido com uns seis anos, logo depois de ter ganho de aniversário.

A passagem favorita —minha e de meus três filhos, em cada vez que li para eles à medida que achava que era hora (ainda antes de se alfabetizarem)— é a cena em que Emília começa a falar e, pela primeira vez, abre sua “torneirinha de asneiras”.

Sempre demos boas gargalhas e a lembrança da risadinha de cada um deles nessa hora até hoje é música em minha memória

Antonio Prata

Tenho dois livros favoritos, “A Chave do Tamanho” e “Caçadas de Pedrinho”. Li os dois com uns oito anos.

No “Caçadas”, tem uma parte em que o sítio é invadido por onças e eles fazem pernas de pau com árvores, preparam bombas de abelhas com colmeias e passam cera em volta para jogar nas onças. Achei aquilo incrível.

“A Chave” é genial. As crianças entram numa sala onde tem todas as chaves, tipo uma caixa de fusíveis do universo. É meio o filme “Querida, Encolhi as Crianças”. É muito legal a maneira como ele descreve esses personagens em miniatura.

Só que tenho bastante dificuldade de ler Lobato para os meus filhos porque a questão do racismo é muito presente. Limar as passagens é esquisito, um higienismo do passado, mas acho complicado, em 2020, passar por cima dessa questão.

Ilan Brenman

Descobri o Lobato quando, antes de as minhas filhas nascerem, comprei a coleção inteira de um sebo, com lindas capas verdes. Comecei a ler para elas à noite. Elas amavam, e a gente se divertia.

Na época, “Reinações de Narizinho” chamou mais a minha atenção e a delas. Mas hoje minha obra favorita é “Fábulas”. Fui convidado pela editora Globinho para fazer o prefácio, aí peguei minha coleção verde maravilhosa, devorei e li três vezes.

Como adulto, sempre falo que, quando uma obra tem qualidade, ela não tem idade, então dei muita risada, gostei demais. É impressionante a potência das fábulas, elas são milenares, e o Lobato as reconta. Tem fábula para para falar de tudo, e até fábulas que valem para a tensão em casa nesse momento de isolamento. Os pais que lerem vão ficar encantados, vão rir muito com filhos.

Marisa Lajolo

Para gente mais crescidinha eu recomendo “A Chave do Tamanho”. A história é divertida e, ao mesmo tempo, muito séria. Muito mesmo. Misto de fantasia e de ficção científica, o leitor acompanha formas de a humanidade se adaptar a condições de vida completamente diferentes das habituais. Tema atualíssimo!

Para os mais novinhos, penso em “O Saci”. A estrutura do livro permite uma leitura fragmentada, talvez mais adequada para quem não tem ainda muito fôlego para uma leitura longa.

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