Com 'Ciranda da Terra Redonda' e 'Só uma Picadinha', compositor combate fake news

Danilo Dunas espera que as crianças toquem suas canções e os pais acabem ouvindo

São Paulo

Em vez da clássica imagem da criança chorando diante da injeção, o compositor Danilo Dunas escreveu uma canção na qual quem se apavora com a agulha são os pais do menino. E por que será que eles estão com medo? “Porque não sabem que a vacina faz bem”, explica Dunas.

E foi para falar de assuntos que, como ele diz, os pequenos precisam ensinar para os adultos, que ele lançou duas músicas: “Só uma Picadinha”, que fala justamente da vacinação, e “Ciranda da Terra Redonda”, que tem como missão relembrar o formato real do planeta.

Danilo olha para a câmera e sorri com a boca aberta
O compositor infantil Danilo Dunas - Paulo Rapoport/Divulgação

“Nunca gostei dessa imagem da música infantil como algo necessariamente educativo, porque acho que acaba desbancando para algo panfletário e chato. Mas, diante desse contexto político em que escolas são acusadas de difundir ideologia de gênero, por exemplo, percebi que falar o óbvio ganha uma conotação política”, avalia.

“Ensinar que a Terra é redonda se torna algo subversivo. Não estou ensinando comunismo para as crianças. Sei que as crianças gostam de ouvir uma mesma música milhares de vezes, e os pais são obrigados a ouvir junto, então assim eu empodero todos para difundir algo óbvio”.

Dunas considera esta sua produção uma “alfinetada muito sutil” em um público que “vai contra o conhecimento científico”. “As pessoas estão caindo em fake news tão absurdas que nem uma criança cairia. É pior que acreditar em Papai Noel. Se as crianças estão mais lúcidas que os adultos, eles precisam voltar para a sala de aula”.

Tanto “Ciranda da Terra Redonda” quanto “Só uma Picadinha” foram lançadas em outubro. Com a segunda, Dunas conta ter recebido comentários críticos de ouvintes “de dentro da bolha, inclusive”.

“Teve gente que me chamou de autoritário, outros dizendo que eu sofri lobby da indústria farmacêutica. Acho que o artista não tem que se acovardar”, defende. “Tive a preocupação de não fazer música panfletária, e sim algo leve, para que fosse mais fácil dialogar e fazer pontes”.

“Não podemos ignorar que nem todas as pessoas de direita são terraplanistas, ou que nem todos os esquerdistas são antivacina. Eu me considero um otimista, não um ingênuo. Quem sabe o pai repensa o que leu no grupo de WhatsApp?. Assim como o Gonzaguinha dizia que acredita na rapaziada, eu por mim acredito na criançada”, diz.

Com mais de uma década de carreira, o paulista de 34 anos entrou para a música via piano erudito ainda na infância, mas, na juventude, migrou para a sanfona e começou a se interessar por outro estilo.
“Tudo aquilo que é considerado brega e de mau gosto eu via como algo subversivo”, relembra.

Passou a tocar forró e sertanejo até, como conta, “assumir o lado compositor”. Em 2016, lançou seu primeiro disco autoral com a ajuda de uma campanha de financiamento coletivo.
Ele explica que, já ali, trabalhava com letras de duplo sentido e irônicas. “O elemento em comum era o universo da dor de cotovelo e do deboche, do humor”.

Dali para as marchinhas de carnaval foi um pulo. Dunas passou inclusive a participar de festivais do gênero em São Paulo e em São Luis do Paraitinga. Gravou mais dois discos, sendo o último deles com versões em espanhol das suas próprias músicas.

“Falei para os meus amigos que estava lançando aquilo em uma hora política bastante tensa no Brasil, e que aquela seria uma alternativa. Se eu precisasse ir para Cuba, já tinha um disco todo gravado em espanhol”, brinca.

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