Descrição de chapéu Crítica cinema Oscar

Com ares de 'moneychanchada', filme faz piada com Brasil em crise econômica

"Os Farofeiros" é divertido, mas derrapa ao repetir mitos nacionais como o da cordialidade

Andrea Ormond
São Paulo

Os Farofeiros

  • Quando estreia nesta quinta (8)
  • Elenco Maurício Manfrini, Cacau Protásio e Danielle Winits
  • Produção Brasil, 2017, 12 anos
  • Direção Roberto Santucci

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O público brasileiro já se acostumou aos filmes de Roberto Santucci. Foi ele quem dirigiu algumas das maiores bilheterias nacionais dos últimos anos, como “De Pernas pro Ar” (1 e 2) e “Até que a Sorte nos Separe” (1, 2 e 3).

É por isso que “Os Farofeiros” chega para ser o recordista do verão. O janota Alexandre mete-se em uma encrenca e vai passar o Réveillon com colegas da firma —mais pobres do que ele. A esposa histérica e os filhos vão no pacote. Acabam se hospedando em uma casa caindo aos pedaços.

Era para ser a repetição de tudo o que vimos antes. Ou seja, mais uma “moneychanchada”: universo no qual Santucci se tornou especialista e que teve rebentos, como “Tô Ryca!” (2016), de Pedro Antônio.

Cena do filme "Os Farofeiros", de Roberto Santucci
Cena do filme "Os Farofeiros", de Roberto Santucci - Divulgação

Nas “moneychanchadas” o culto ao dinheiro substitui o culto ao sexo. Ao invés de nos apaixonarmos por ícones como David Cardoso ou Helena Ramos, amamos a ascensão social.

No entanto, leitores, surgem novidades. “Os Farofeiros” faz uma transição. Os filmes anteriores de Santucci falavam do Brasil forte economicamente, repleto de promessas. “Os Farofeiros” é do país da ressaca, o país da crise. Os colegas de repartição estão ameaçados de perder o emprego. 

Existe, ainda, uma diferença desconcertante entre a família de Alexandre e as dos demais. Alexandre incorpora a classe média, no eterno céu e inferno das escolhas. Viajar para um resort em Búzios ou para onde couber o orçamento?

Enquanto isso, os mais pobres adaptam-se às circunstâncias. Búzios fica em outra galáxia, aceitemos o casebre tosco. Esse embate é o coração da história.

O roteiro de Odete Carmico e Paulo Cursino, apesar de afiado, leva a uma visão muito idealizada da sociedade carioca em que os personagens estão inseridos: a de que, acima de qualquer diferença de classes ou de posições, existirá sempre um denominador comum possível entre todos. 

Cria-se uma “brodagem” para adocicar as diferenças. Alexandre canta no pagode, as mulheres ricas ou pobres estranham-se para depois rirem juntas e de si mesmas.

Já passou a hora de o cinema esquecer os mitos antigos da cordialidade brasileira, escancarando, através do humor, o país complexo e partido em que vivemos.

Citações a “Minha Mãe É uma Peça” e deboches a granel —​vide a sequência do monstro na piscina verde— agradam bastante e deixam um bom panorama. Conseguem provar que, sim, o cinema ainda pode ser a maior diversão.

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