Em Cannes, Cacá Diegues defende volta ao barroco

O diretor falou à Folha em exibição de 'O Grande Circo Místico'

Guilherme Genestreti
Cannes (França)

Exibido no Festival de Cannes, “O Grande Circo Místico”, de Cacá Diegues, é um objeto alienígena se comparado à típica produção brasileira que corre as mostras estrangeiras de cinema. 

É uma obra de época, musical e carregada de atmosfera onírica, felliniana. A história acompanha cinco gerações à frente do circo que dá título ao filme. Inspirado em poema de Jorge de Lima, toma também emprestadas as canções que Chico Buarque e Edu Lobo compuseram para a adaptação teatral do mesmo texto. 

“Eu queria voltar ao barroco brasileiro, que estava esquecido e que é uma das bases da nossa cultura”, diz o diretor à Folha, sobre o tom do longa. “Os filmes brasileiros hoje estão fixados no realismo-naturalismo, em fatos concretos. Acho importante, mas eu queria outra coisa.” 

Cena do filme 'O Grande Circo Místico', de Cacá Diegues, em exibição no Festival de Cannes 2018
Cena do filme 'O Grande Circo Místico', de Cacá Diegues, em exibição no Festival de Cannes 2018 - Divulgação

​​Diegues, que não lançava um longa de ficção desde 2006, havia concluído as filmagens de “O Grande Circo Místico” em 2015. Sua produção foi tumultuada: para poder rodar com os animais circenses sem ferir leis brasileiras, o diretor teve que ir para Portugal.

“Dirigir leão é barra pesada”, brinca, sobre as filmagens tumultuadas. “Mas o duro mesmo foi a finalização. Não esperava encontrar os problemas técnicos e financeiros para leva-la adiante.” 

“Circo Místico” é uma coprodução com Portugal e França. As dificuldades de finalização se devem ao fato de que foi necessário incluir efeitos especiais –como a de uma dança de trapezistas no ar, que acontece à certa altura. 

A trama tem início no começo do século 20, quando Fred (Rafael Lozano), filho de uma família aristocrática brasileira que, no começo do século 20, compra um circo. Ele é apaixonado pela atriz e dançarina Beatriz (Bruna Linzmeyer). 

Vincent Cassel, Mariana Ximenes e Juliano Cazarré fazem parte de outras das gerações que acompanham a trajetória do picadeiro, que corre paralela à história do Brasil. Quem tece o fio de todas é Celavi, mestre de cerimônias que nunca envelhece, interpretado por Jesuíta Barbosa. 

O filme não destoa só da típica produção contemporânea. Vai também na contramão do cinema novo, movimento do qual o próprio diretor fez parte nos anos 1960 e que se consagrou neste mesmo festival.

 Em 1964, com a escalação em Cannes de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha, “Vidas Secas”, de Nelson Pereira dos Santos, e “Ganga Zumba”, de Diegues, a onda estética brasileira ganhou projeção internacional. 

“Cannes foi um dos nossos principais difusores. Estando aqui, me sinto acompanhado de Glauber, Nelson e todas essas pessoas que já foram”, diz o diretor de 77 anos. 

Já em 2018, Diegues retorna a um festival tomado pelas demandas de movimentos feministas como o MeToo e o Time’s Up

“Não faço isso conscientemente, mas descobri que meus filmes são sobre mulheres”, diz Diegues. “Tenho a esperança de que as mulheres tirem a gente desse mundo de merda de hoje.”

O jornalista se hospeda a convite do Festival 

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.