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Salman Rushdie tenta traçar panorâmica de Nova York e dos EUA da última década

Em 'A Casa Dourada', o escritor anglo-indiano apresenta bufão cartunesco inspirado em Trump

‘Jump Trump’, pula-pula que estampa o rosto do presidente americano, criado pelos artistas Thomas Mailaender e Erik Kessels, em Guecho, Espanha  - Ander Gillenea - 7.set.18/AFP
Sylvia Colombo
Buenos Aires

Um misterioso e excêntrico bilionário estrangeiro, vindo de um país que tarda a ser revelado, chega a Nova York com seus três filhos e se instala numa mansão no bairro de Greenwich Village, despertando a curiosidade de vizinhos e, especialmente, a de um jovem aspirante a cineasta, René Unterlinden, que é o narrador de “A Casa Dourada”, novo livro do escritor anglo-indiano Salman Rushdie.

A obra se passa durante a gestão Barack Obama nos Estados Unidos, a partir de 2009, e vai até a corrida eleitoral de 2016, na qual surge um personagem bufão e cartunesco chamado no livro de “The Joker”, mas que claramente representa o atual presidente, Donald Trump.

Por sua vez, o bilionário enigmático também guarda traços do líder do governo —é muito rico, tem uma linda mulher russa muito mais jovem do que ele e uma fortuna construída no mundo do mercado de imóveis luxuosos.

Em seu 11º romance, Rushdie, nascido na Índia e vencedor do Booker Prize em 1981, retorna a alguns temas-chave em sua obra, como a construção da identidade no exílio, algo que viveu em carne própria.

Em 1988, após lançar “Os Versos Satânicos”, Rushdie recebeu ameaças de morte e um chamado por seu assassinato pelo então líder iraniano aiatolá Khomeini, por ser considerada ofensiva aos muçulmanos. O caso o obrigou a se radicar no Reino Unido, onde andou com proteção policial por vários anos.

Hoje, Rushdie vive e trabalha em Nova York.

Atualmente, em conversa por email, ele conta que está escrevendo um novo romance, mas que dele nada diria ainda, “exceto que deve muito a Cervantes”. Acrescentou, também, que que está lendo “com imenso prazer” as obras completas de Clarice Lispector.

Rushdie esteve no Brasil em diversas oportunidades, entre elas na Festa Literária de Paraty, a Flip, em 2010, no evento Fronteiras do Pensamento, em Porto Alegre, e, já livre das ameaças de morte, foi a um 
jogo no Maracanã

 

“A Casa Dourada” foi chamado pela crítica nos EUA de uma “resposta literária à era Trump”. O sr. está de acordo com essa classificação?

O romance trata de uma família trágica, em que o patriarca, Nero Golden, é um homem corrupto que, ainda assim, nos gera compaixão. Um homem que foge de seu passado, que por sua vez vem atrás dele e de seus três filhos. 

Essa história, que tem raízes tanto na Índia como nas tragédias de um mundo antigo, é o coração do livro.
Ao redor disso, eu tentei criar uma novela social panorâmica sobre Nova York e os EUA da última década, o retrato de uma nação em crise, dividida ao meio, que é o que vejo hoje. E, sim, surge uma figura que é ficcional, mas baseada em Trump, uma figura cartunesca e má.

Outro dos temas principais é a ideia de criar ou recriar a identidade de uma pessoa que vem de outra cultura, outro país. Como o sr. vê esse assunto?

Em todas as grandes cidades do mundo, hoje, podemos encontrar, todos os dias, pessoas de todos os lugares que estão, com sucesso, construindo novas vidas para si mesmas e novas casas. Na vida real, vejo isso suceder em geral com muito êxito. Já na ficção, não é tão fácil escapar do passado.

É também um livro sobre ser um estrangeiro ou um refugiado, alguém que foi levado a abandonar seu país, algo que também ocorreu em sua vida nos anos 1980. Seria um questionamento sobre o que constitui uma identidade nacional e pessoal também?

É verdade que, com a exceção do narrador, René, que é nascido e criado em Nova York, os principais personagens do livro são todos imigrantes. Isso foi deliberado, porque se trata de uma cidade e de um país, os EUA, que foram criados por imigrantes, e que por sua vez recriam os novos imigrantes que vão chegando.

Vivemos numa grande “Idade da Migração”. Nos últimos cem anos, mais pessoas se mudaram de país em todo o mundo, deixando seus lugares de origem, do que em toda a história da humanidade antes disso. Isso redesenhou nossas culturas, nossos idiomas, nossas cidades, e nosso senso do que é ser um ser humano. E, como um migrante eu mesmo, está naturalmente no coração dos meus livros como escritor.

O sr. retrata Nova York como uma cidade que é aberta e cosmopolita num sentido, mas também composta por muita gente que vive numa espécie de bolha de luxo, e com opiniões muito estreitas sobre tudo. O que há de diferente com relação a Londres ou a outras grandes cidades do mundo que o sr. conheceu ou habitou?

Creio que as diferenças eram maiores antes e que agora estão sumindo. Hoje todas as grandes cidades são bastante parecidas e a parte do livro que trata dessa bolha entra para opor René a seus pais, que são liberais.

Como esses pais liberais, eu creio que os que vivem nessa bolha são intolerantes de direita e mal-informados, pois negam a mudança climática, negam vacinas a crianças, creem que existe uma supremacia branca e vivem num universo de inverdades, tanto políticas como científicas. Isso é o que uma bolha pode criar, e o livro aponta para esse problema.

O sr. já refletiu muito sobre o 11 de Setembro, e recentemente tivemos mais um aniversário da tragédia das Torres Gêmeas. Como o sr. vê o tema em perspectiva?

De algum modo Trump surge como uma resposta a uma cultura que se criou depois do atentado de 11 de Setembro? Este é um momento definitivo para os EUA, no qual sua pior essência está sendo desafiada pela sua melhor essência. Agora, a pior essência está em ascensão, está ganhando, mas eu não acredito que isso vá durar muito tempo. E creio que toda a história recente do mundo, no geral, é de certa forma uma resposta ao ataque às Torres Gêmeas.

O livro é cheio de referências cinematográficas. O sr. pensa que o cinema está refletindo a realidade de forma diferente da literatura? Como ambos têm se complementado?

Eu adoro cinema. Acabo de chegar do festival de Telluride, no Colorado, onde assisti a essa obra fantástica que é “Roma”, de Alfonso Cuarón. Creio que os filmes nos dão um vocabulário que pode ser compartilhado do mesmo modo que, no passado, os clássicos da Grécia e de Roma o foram.

É uma pena que esse circuito de filmes que são uma grande forma artística esteja se limitando cada vez mais aos festivais. Enquanto isso, no circuito comercial, o que temos cada vez mais são adaptações de quadrinhos ou outro tipo de cinema mais ligeiro, menos reflexivo.

Nesse sentido, creio que a literatura ainda está carregando a bandeira de refletir a atual realidade mais a fundo.

A Casa Dourada
Autor: Salman Rushdie. Tradução: José Rubens Siqueira. Ed. Companhia das Letras. R$ 74,90 (456 págs.)


 

O escritor anglo-indiano Salman Rushdie. - Joel Saget/AFP

Salman Rushdie, 71

Nascido na Índia, formou-se em história no King’s College, em Cambridge, no Reino Unido; teve uma breve carreira como ator antes de passar a se dedicar à literatura, a partir de 1971; é autor de ‘Os Versos Satânicos’ e ‘Os Filhos da Meia-Noite’, pelo qual venceu o Man Booker Prize em 1981

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