Aos 50, Masp passa por checkup para ser eterno, e não só moderno

Fundação Getty fomentou revisão do prédio de Lina Bo Bardi, celebrado em seminário na segunda (5)

Masp a partir da av. Nove de Julho; prédio de Lina Bo Bardi completa 50 anos na quarta (7)

Masp a partir da av. Nove de Julho; prédio de Lina Bo Bardi completa 50 anos na quarta (7) Gabriel Cabral/Folhapress

Francesca Angiolillo
São Paulo

Há 50 anos ele está ali, seus quatro pés bem fincados em plena avenida Paulista.

Seu grande vão já reuniu multidões em shows e, com mais frequência nos tempos recentes, manifestações. 

Flutuando sobre a praça, o mais importante acervo de arte europeia do hemisfério Sul, exposto nessa grande caixa suspensa de concreto e vidro.

Concreto e vidro —materiais tão incorporados ao cotidiano de uma cidade que não nos ocorre que envelheçam.

Mas o moderno também envelhece, recorda Silvio Oksman. O arquiteto coordenou a equipe que colocou sob escrutínio o edifício projetado pela italiana Lina Bo Bardi e que, nesta semana, chega ao seu cinquentenário.

O checkup de um ano foi realizado com uma bolsa do Keeping it Modern, programa da Fundação Getty para preservação de prédios modernos, que já beneficiou, entre outros edifícios, a Casa de Vidro, residência de Lina e Pietro Maria Bardi, no Morumbi.

Os US$ 150 mil —cerca de R$ 550 mil hoje— foram todos para o exame da estrutura. Não só por segurança mas porque a estrutura é o Masp.  

Com quatro pilares e quatro vigas em concreto protendido, prodígio do cálculo, ele traduz plasticamente a singularidade de um museu erguido para ser o melhor e o mais ousado da América Latina.

Na pesquisa, baseada somente em documentos, foi possível recuperar cópias de desenhos que se julgavam perdidos desde um incêndio no escritório do engenheiro José Carlos de Figueiredo Ferraz.

Com base no cálculo do engenheiro e no estado atual da estrutura, foi concebido um modelo eletrônico que permitiu estabelecer diretrizes de conservação para a estrutura —que, diz Oksman, se envelhecer bem, pode ser eterna.

O arquiteto ressalta a necessidade de lançar sobre o moderno um olhar contemporâneo, crítico e sem nostalgia —este é o tema de sua fala no seminário que celebra, nesta segunda (5) o cinquentenário da inauguração, ocorrida em 7 de novembro de 1968. 

Isso é necessário, diz ele, para deixar distante a mitificação. A batalha pela preservação não se trava sem a interferência de lendas. A respeito do Masp, há duas histórias que são muito repetidas.

Uma diz que os pilares, que até 1990 luziam seu concreto aparente, sempre deveriam ter sido vermelhos; outra, que o vão livre de 70 metros nasceu da exigência de que se mantivesse a vista aos fundos.

Sobre os pilares, não há disputa. A tinta foi aplicada por uma questão de impermeabilização. O tom rubro, que de fato está num desenho de Lina, pode ter sido “uma licença poética, pode ter sido porque a canetinha que ela tinha era vermelha”, diz a arquiteta Miriam Elwing, gerente de projetos e infraestutura do museu.

Mais controversa é a questão que cerca o vão livre.

A história que circula em livros e em salas de aula é a de que Joaquim Eugênio de Lima, idealizador da Paulista, teria cedido o terreno à prefeitura com a condição de que permanecesse o mirante do antigo Belvedere Trianon.

No entanto um pesquisador italiano, Daniele Pisani, em artigo que circulou em diferentes idiomas, em veículos especializados, questiona a justificativa dada por Lina para a sofisticada estrutura.

Pisani, que terá livro sobre o Masp lançado pela editora 34 no ano que vem, buscou os documentos do terreno e concluiu que não só nunca existiu tal contingência como também o lote não foi doado por Joaquim Eugênio de Lima.

José Borges de Figueiredo, proprietário do terreno, vendeu-o em 1911 à Câmara Municipal e, numa carta, solicitou ao prefeito que o lote se mantivesse como “logradouro público perpétuo”. 

A carta, porém, não teria valor legal de limitar o projeto —outros desenhos, antes do de Lina, ocupavam o térreo. Restaria então como razão o desejo da arquiteta, cuja expressão custou muito mais do que uma estrutura convencional. 

Mas nada, no Masp, é convencional, e suas particularidades vêm sendo resgatadas pela gestão atual, desde os outrora abandonados cavaletes de vidro que, criados por Lina, proporcionam uma fruição incomum das obras — “não áulica”, dizia ela.

Ou o invólucro transparente, que de modo algum oferece as melhores condições para a exposição de obras de arte, como frisa Martin Corullon. 

O arquiteto desde 2015 trabalha para o Masp. Ele traçou um plano de intervenções para os próximos anos —inclusive o projeto do debatido anexo, a ser instalado no edifício Dumont-Adams, atualmente em aprovação junto aos órgãos do patrimônio.

Entre as melhorias ambicionadas para breve, conta, está a automação das persianas que, sempre cerradas, anulam a propalada transparência.

Isso permitirá que, ao entardecer, seja possível repetir todos os dias, se assim se desejar, o espetáculo de ver as obras na pinacoteca flutuarem contra o rush da avenida.

Para o arquiteto João Carmo Simões, “o museu, em suas singularidades, é o ponto de respiro da grande Paulista, a visão para fora, um eixo referencial que separa a avenida em duas partes, o antes e o depois do Masp”. 

O português é autor de algumas das fotos que ilustram esta reportagem e que estão no livro “Civitas”, editado por ele e Daniela Sá, sócios da Monade Books.

“O vão livre do Masp é palco, sala de concerto, feira, circo, pausa de almoço, sala de cinema, espaço de contemplação, espaço de encontro, conversa, abrigo”, enumera Simões, lembrando por que, se as razões para a existência do vão são discutíveis, sua importância na vida da cidade não. 

Na opinião de Oksman, o espaço tem de estar “aberto o tempo todo” —em outros tempos, cogitou-se restringir o acesso. Mas é importante que o uso não traga riscos —é inesquecível o show de Daniela Mercury que, em 1992, fez chão e estrutura tremerem. 

Por isso, um sistema de amortecimento foi previsto —e o vão poderá seguir livre. 

O Masp de Lina - Cinquenta Anos do Edifício na Av. Paulista

  • Quando Seg. (5), das 10h às 18h30
  • Onde Av. Paulista, 1.578
  • Preço Grátis (ingressos duas horas antes na bilheteria do museu).

Cronologia

1890 Inauguração da av. Paulista

1900 Fundação da Pinacoteca do Estado, único museu de arte da cidade antes do Masp

1916 Construção do Belvedere Trianon, espaço de diversão da elite

1947 Com concepção de Pietro Maria Bardi, projeto e expografia de Lina Bo Bardi, contratados por Assis Chateaubriand, o Masp é fundado na rua Sete de Abril, no centro

1951 Belvedere Trianon é demolido para a realização da 1ª Bienal de Arte

1958 Lina Bo Bardi projeta o edifício, com estrutura calculada por José Carlos de Figueiredo Ferraz

1968 Prédio é inaugurado

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