Compradores super-ricos priorizam artistas negros na maior feira dos EUA

Onda de direita desperta fome de colecionadores por obras de minorias na Art Basel Miami Beach

Um visitante da feira de arte Untitled, uma das várias que ocorrem em Miami no início de dezembro

Um visitante da feira de arte Untitled, uma das várias que ocorrem em Miami no início de dezembro AP

Silas Martí
Miami

O tempo em que importavam só as cores das pinturas à venda parece ter ficado para trás. Na maior feira de arte dos Estados Unidos, as perguntas mais ouvidas por galeristas eram sobre a cor da pele de artistas que representam.

“Não querem mais comprar nada de homens brancos. Entram aqui querendo saber se tem algum negro ou mulher”, conta Thiago Gomide, um dos donos da galeria paulistana Bergamin & Gomide. “Essa coisa de coleção só de brancos não é mais sexy, parece que entenderam agora que precisam diversificar.”

E o mercado reagiu à altura. Em tempos de MeToo, tensões raciais à flor da pele e discursos de ódio saídos do armário com a ascensão global de movimentos conservadores, galerias correm para atender a demanda de museus e dos super-ricos por nomes deixados de fora de seus acervos —em geral, artistas negros, mulheres, gays e agora transexuais.

Os corredores da Art Basel Miami Beach, que acaba de fechar as portas no balneário americano, estavam abarrotados de obras feitas por minorias —algumas casas forçaram tanto esse ponto em seus estandes que beiravam certo oportunismo constrangedor.

Maior presença estrangeira na feira, o Brasil estava representado por 14 galerias, muitas delas vendendo suas receitas básicas —cinéticos históricos na Nara Roesler, pintores ultracoloridos na Casa Triângulo e afins—, mas outras aderiram com mais ou menos afinco à nova onda que americanos chamariam de “étnica”.

O exemplo mais marcante foi a Mendes Wood DM, com um estande quase todo de artistas negros. Lá estavam Rubem Valentim e Sonia Gomes, ambos agora alvo de mostras no Masp, Antonio Obá, que deixou o país depois de sofrer ameaças por destruir uma imagem da Virgem numa performance, e Paulo Nazareth, nome já consagrado.

Noutra vertente desse movimento, a Bergamin & Gomide chamava a atenção de colecionadores com trabalhos de Lorenzato, artista naïf mineiro que em breve terá uma individual na David Zwirner, em Londres, uma das galerias mais influentes do mundo.

O descendente de italianos, que teve três de suas obras vendidas na feira para uma coleção sul-coreana, não se encaixaria entre as minorias tradicionais em alta no mercado, mas é um desses nomes esquecidos e relembrados que fazem a cabeça dos colecionadores, em especial quando tem uma história de vida como a dele —era um pintor de parede e agora é exaltado pela crítica mais linha-dura.

Mais um artista em alta no circuito, o carioca Maxwell Alexandre tem ateliê na favela da Rocinha e se tornou celebridade instantânea no mundo da arte com pinturas de personagens negros como ele, uma delas exposta na entrada da aclamadíssima mostra “Histórias Afro-Atlânticas” realizada neste ano no Masp.

Em Miami, suas telas eram vendidas pela Gentil Carioca.

Outras casas, em especial as americanas reagindo à retórica raivosa de Trump, também levaram seleções de artistas que exaltam a negritude, caso das nova-iorquinas Essex Street, que mostrou peças de Cameron Rowland, destaque da última Bienal de São Paulo, e da Jack Shainman, com nomes históricos e atuais, entre eles Barkley Hendricks, El Anatsui e Hank Willis Thomas.

O jornalista viajou a convite da Art Basel Miami Beach.

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