Documentário 'Ilustrada, 60' foi feito em apenas 60 dias

Cortamos boas histórias e devaneios, mas deixamos as melhores histórias e alguns devaneios

Isabella Faria
São Paulo

Por mais que estejamos acostumados à luz azul das telas, a saída mais prática foi analógica e pouco ecológica: dezenas de folhas de papel impressas com as transcrições das 29 entrevistas para começar a montagem.

 

Sulfites em mãos, era necessário encontrar as melhores falas para construir cada pedaço do filme. Uma frase boa rendia uma marcação de caneta na página e alguns segundos de gravação. 

Redação da Folha por volta dos anos 1970, quando as pastilhas coloridas que cobriam o piso, as paredes e o teto dominavam o ambiente
Redação da Folha por volta dos anos 1970, quando as pastilhas coloridas que cobriam o piso, as paredes e o teto dominavam o ambiente - Reprodução

Relatos jornalísticos se misturaram a histórias pessoais. Ex-editores relembraram suas capas favoritas e o fato de serem movidos a Coca-Cola e cigarro. 

Outros resgataram grandes coberturas que fizeram cercados pelas pastilhas “feias e chatas” que cobriam as paredes nos anos 1970.

Já esta montadora sobreviveu à base de granola e ar-condicionado regulado a 19º para que os computadores não esquentassem. O que não é nada comparado aos equipamentos usados nos anos 1990 —quando travavam, a mensagem que aparecia era “no anda bien”.

O tom usado pelos entrevistados beirava o tragicômico. “Bem quando entrei de férias, o Tom Jobim morreu”, “eu só podia fazer pipi depois que fechava a coluna”, “na correria do fechamento, a foto saiu sem legenda”.

Matinas Suzuki foi um dos entrevistados para o documentário que contou a história da Ilustrada
Matinas Suzuki foi um dos entrevistados para o documentário que contou a história da Ilustrada - Reprodução

O saldo final foi 29 entrevistados por uma equipe de oito pessoas, dois meses de muito trabalho e um dia inteiro gravando a correria da editoria.

Não é pra menos. A jovem senhora Ilustrada já teve mais de 21 mil edições publicadas, dezenas de editores e incontáveis colaboradores em seus 60 anos de vida

Também exercemos a dura função pela qual os editores, sejam os de vídeo, sejam os de texto, são conhecidos e criticados: cortamos.

Cortamos boas histórias, devaneios e arrependimentos, e deixamos as melhores histórias, alguns devaneios e outros arrependimentos. Cortamos, mas sem tesoura. As folhas de sulfite estão intactas e guardadas para a posteridade.

 

Isabella Faria é roteirista e montadora do documentário ‘Ilustrada, 60’

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