Trap se estabelece na cena hip-hop brasileira com influências de emo e anime

Estilo musical americano é fortemente ligado ao uso de codeína em shows e festas

 
Lucas Brêda
São Paulo

​"Óculos do Kurt Cobain, 'double cup', Sprite, 'codein'" —o refrão do maior hit do rapper Raffa Moreira, "Bro", é um aglomerado de palavras que pouco deve significar para o ouvinte desavisado.

Mas, dentro da subcultura da qual ele faz parte, o trap, cada expressão representa um pouco de um estilo de vida cada vez mais conhecido pelo público brasileiro.

Os óculos arredondados e de aro grosso, famosos por terem sido usados pelo vocalista do Nirvana, por exemplo, são moda entre os trappers. O "double cup" é uma referência ao "lean", a bebida roxa feita com codeína, refrigerante e gelo que é a droga mais identificada com o trap.

"Bro", lançada no fim do ano passado, abriu as portas para Raffa Moreira. O clipe foi o primeiro dele a bater 1 milhão de visualizações no YouTube (hoje está próximo de 14 milhões) e seu título lhe rendeu até mesmo uma tatuagem no rosto, comum entre trappers.

"De 2012 pra cá consegui ter mais tempo para produzir, ter meu próprio nome e estética", conta Raffa. Antes disso, ele havia tocado em grupos de hardcore e de pagode.

Lançando singles, clipes e mixtapes, Raffa passou a ser assunto na cena do hip-hop há dois anos, quando participou do segundo volume da famosa série "Poetas no Topo" no YouTube, desafio musical em que vários rappers rimam em sequência por cima de uma mesma batida, sem um refrão.

Logo depois, virou uma espécie de meme, tanto pelas brigas e comentários hilários no Twitter quanto pela excentricidade musical.

Usavam "Raffa, pare irmão" para responder a seus comentários nas redes, como quando criticou a escalação do Haikaiss (grupo de rappers brancos) no Lollapalooza, ou xingou a marca de roupas Pineapple Supply por não terem pagado por sua participação na competição online.

Só em 2018, o músico lançou mais de 25 faixas. "Como artista underground, eu estava apostando mais nos clipes e singles", explica. "Mas agora, sendo mais reconhecido, posso lançar um álbum, ter bons números e fazer dinheiro. Pelo menos 50% de todas as músicas que lancei este ano já passaram de 1 milhão de plays."

De muitas maneiras, a trajetória do trap no Brasil se confunde com a de Raffa. Quando o trio Migos (hoje um dos nomes mais populares da música americana) estourou com "Versace", no começo da década, ele já estava começando.

Hoje, com o trap chegando ao mainstream do pop mundial —com Drake e Cardi B, entre outros—, é Raffa quem desponta como o nosso mais autêntico trapstar.

Apesar do sucesso recente, a sonoridade característica do trap já era desenvolvida desde os primeiros anos deste século nos Estados Unidos. O disco considerado fundador do subgênero é "Trap Muzik", lançado por T.I. em 2003.

Nele, o rapper desenvolveu a temática do trap —tráfico, dinheiro, festas, drogas e sexo. Mais especificamente, dando uma abordagem menos inconformada —e mais celebratória— da vida nos subúrbios de Atlanta.

A cidade é, aliás, até hoje a capital mundial do trap, celeiro dos maiores astros do estilo, de 21 Savage a Gucci Mane, de Future a Young Thug.

No Brasil, as batidas esparsas e eletrônicas e o uso irrestrito do AutoTune já são constantes. Influenciam desde os Racionais (no disco "Cores & Valores", de 2014) até os nomes mais pops do rap no momento (como o cearense Matuê).

Além de Raffa, há uma variedade de trappers despontando, desde nomes solo como Denov e Delatorvi até o coletivo paulista Recayd Mob.

O grupo reúne mais de uma dezena de integrantes, com MCs bem sucedidos em carreiras solo (entre eles Dfideliz, Derek, Jé Santiago), além de artistas visuais, estilistas, videomakers e beatmakers.

O MC Igu, nascido no Japão e morador de Itapetininga, no interior paulista, é um dos nomes fortes da Recayd. Ele entrou para o grupo quando conheceu outro pioneiro de Guarulhos, o Klyn, em 2016. Assim como Raffa, Igu esteve em banda de rock antes.

Hoje com 21 anos, ele incorpora algumas particularidades da cena brasileira. Musicalmente, tem mais afinidade com o funk do que com o rap, e até fez um trap meio tango ("Buenos Aires"). Além disso, trata do universo dos animes, os desenhos japoneses.

Só em títulos ou capas de singles, Igu já citou "Bob Esponja", "Samurai Jack", "Sakura Card Captors", "Hello Kitty" e o celebrado "Dragon Ball Z".

"Estamos fazendo do nosso jeito, sem tentar copiar. Aí acaba rolando uma nova identidade para o trap no Brasil", diz.

Tanto Igu quanto Raffa, e boa parte do trap nacional, têm influências do emo. "Ouvi durante muito tempo, várias melodias ficam na cabeça", admite Raffa. Igu lembra de ser fã de bandas como o My Chemical Romance anos atrás.

O estilo de vida do trap também já está na nossa cultura. Nos clipes, rappers exibem armas e ostentam carros e dinheiro; já os shows são sempre excessivamente animados (com bate-cabeça e rodas de pogo como nos shows de punk) e toda a experiência passa por porres de lean.

"Você fica bem lento, depois dá um sono", diz Raffa sobre a bebida, que tem como principal ingrediente, a codeína, um analgésico opioide obtido só com receita médica. É uma influência direta sobre o caráter viajado das músicas, com andamentos desacelerados e vocais meio robóticos.

"Não sei se faria trap se não bebesse lean e fumasse maconha. Mas, bro, é uma droga. Não indico", diz o músico.

Enquanto ganha novos espaços, o trap tenta evoluir sem perder a sua originalidade. "Foi ele quem ajudou a levantar o trap aqui, o trap real mesmo, de Atlanta", diz Igu sobre Raffa Moreira. "Não vou falar que sou companheiro do PCC, mas os meus parceiros traficam até hoje, eu moro em favela. Temos ligações com gangues reais."

Mesmo que não tenha um discurso sobre luta de classes, uma tradição do rap, o trap é uma expressão das periferias e também dos negros. "Sempre me promovi de uma forma que as pessoas olhassem para mim como algo que traga entretenimento", diz Raffa. "Esse é o sentido. Não sei se devo desculpas ao rap, mas se alguém está se sentindo ofendido, só estamos sendo nós mesmos. Somos reais."

Em um dos seus hits deste ano, "10K", Raffa se gaba de ter faturado R$ 10 mil reais pelo trabalho como artista. Poucos meses depois, a exceção virou regra. "Consigo fazer mais que isso em um mês, mas deixa isso quieto", ele desconversa, citando a rotina de cerca de dez shows mensais. Na verdade, até mesmo MC Igu já trata o feito como normal. "Faço todo mês. Este foi o melhor ano para o trap —e 2019 vai ser ainda melhor."

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