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Diretor de 'Como Treinar o seu Dragão 3' quer arrancar choro do público

Último filme da trilogia estreia como ápice de uma receita bilionária da DreamWorks

Divulgação

Guilherme Genestreti
São Paulo

Há pouco mais de dez anos, recém-contratado pelo estúdio de animação DreamWorks, o diretor Dean DeBlois ficou na dúvida se poderia fazer os personagens de seu novo filme empunharem machados. Na Disney, onde ele trabalhara até então, aquilo teria sido impossível. 

“Iriam ter medo de receber cartas de pais reclamando”, diz. Mas no novo emprego os machados foram liberados. E nas mãos dos vikings de “Como Treinar o seu Dragão” ajudaram a franquia a se tornar uma das maiores ameaças ao primado da Disney no gênero.

A saga animada chega ao fim nesta quinta (17), com a estreia do terceiro filme de uma trilogia que começou há nove anos, foi acolhida pela crítica, recebeu três indicações ao Oscar, originou série de TV, videogame e uma receita de US$ 1 bilhão (R$ 3,7 bilhões).

Por trás dela está DeBlois, sujeito corpulento como um ursinho, que depositou na trama memórias de ser uma criança fora dos padrões. Soluço, o jovem desengonçado que protagoniza os três filmes da franquia, compartilha desse senso de inadequação. 

“Os personagens mais memoráveis são aqueles que refletem nossas falhas. O triunfo para eles significa ainda mais”, diz o diretor e criador de “Como Treinar o seu Dragão”. 

“A graça é que Soluço sempre vai tentar vencer, mas o público sabe que ele vai falhar muito até conseguir algum êxito.”

A fórmula é o que dá mote aos três filmes da saga, a começar pelo primeiro. No longa de 2010, o público tem contato com o vilarejo viking em que se passa a trama. Ali, o povo está em guerra permanente com dragões e treina seus jovens para se tornarem  matadores dessas pragas aladas.

Mas o magrelo Soluço não leva o jeito para a coisa e se afeiçoa a um espécime dessas criaturas inimigas, Banguela. A inusitada ligação entre os dois move essa trilogia que se tornou um dos carros-chefe da DreamWorks, que faz frente à dupla Disney-Pixar.

Do catálogo do estúdio, só os filmes protagonizados pelo ogro Shrek superam a bilheteria de “Como Treinar seu Dragão”. Mesmo outros sucessos como “Madagascar” e “Kung Fu Panda” foram incinerados pela criação de DeBlois, que deixou a Disney após o bem-sucedido “Lilo & Stitch. 

Ele achou na série de 12 livros infantojuvenis da britânica Cressida Cowell o insumo para a amizade entre Soluço e Banguela.   

“Como Treinar seu Dragão 3” traz o desfecho desse elo. “A ideia é arrancar algumas lágrimas, mas sem que os espectadores nos odeiem”, explica DeBlois. “Sempre acho que falhei quando deixam de chorar nos meus filmes.”

Na trama do novo longa, Soluço está mais velho, mas continua tendo seus pontos fracos. O de agora tem a ver com a sua dependência de Banguela. “Se o bicho for embora, ele volta a ser um ‘loser’ ou terá capacidade para ser líder?”, indaga o diretor. 

Já o dragão de estimação tem suas próprias questões. O misterioso surgimento de uma fêmea de sua raça e a ameaça vinda de um caçador botarão a união dos personagens à prova e os levarão até o chamado Mundo Escondido, recanto utópico em que os bichos vivem em paz. 

O novo universo, repleto de rochas brilhantes, é o pretexto para que a equipe de animação esbanje o esmero tecnológico do longa.

“Quando fizemos o primeiro filme, nem tudo era possível criar em animação”, conta DeBlois. “Nuvens, água e grama eram coisas que evitávamos. Os personagens só podiam andar em rochas. Mas agora chegou um momento em que tudo que alguém pode imaginar se tornou factível.”

A produção não deixou de fora as batalhas aéreas que marcam a franquia e parecem recriar aquelas cenas de filmes de Segunda Guerra —mas com dragões cuspindo fogo no lugar de aviões despejando bombas. 

Não ficou de fora tampouco a mensagem sobre a união das espécies, recado que tanto pode ser dirigido ao mundo de muros dos tempos contemporâneos ou não.

“Não quero usar o filme para ser didático”, afirma o diretor. “Mas há, sim, um subtexto sobre como o medo nos condiciona e sobre como somos treinados a demonizar o outro.”

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