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Não queríamos um filme sobre lésbicas, afirma diretor de 'A Favorita'

Ideia era mostrar pessoas apaixonadas, diz Yorgos Lanthimos, que dirige Emma Stone, Rachel Weizs e Olivia Colman

Rachel Weisz, Olivia Colman e Emma Stone posam diante de painel em que estão como lady Sarah, rainha Anne e Abigail - Peter Nicholls/Reuters
Danielle Brant
Nova York

A monarquia britânica retratada em "A Favorita", novo filme de Yorgos Lanthimos, é caricata, corrompida e marcada por uma constante luta por sobrevivência que levou duas de suas personagens principais —a duquesa Sarah Churchill e Abigail Hill— a disputarem a afeição da rainha Anne.

Uma relação que, embora na biografia das três mulheres não fique clara, o roteiro de Deborah Davis e Tony McNamara explora em todas as cenas.

O triângulo amoroso lésbico ajuda a explicar a necessidade de segurança —o que ser protegida pela rainha garantiria.

São os primeiros anos do século 18 e a rainha Anne (Olivia Colman), ao menos oficialmente, manda e desmanda na Inglaterra, na Escócia e na Irlanda. A história de Abigail, vivida por Emma Stone, de "La La Land", alpinista social típica daqueles tempos, tem como pano de fundo uma guerra pela sucessão espanhola e um iminente conflito com a França.

O distanciamento em relação a uma rainha pouco conhecida, que governou a maior potência do século 18 por 12 anos e que foi a última da Casa Stuart, ajudou o diretor a compor sua visão sobre esse capítulo da história britânica.

"Eu nunca soube nada da rainha Anne. Mas, assim que li o roteiro, achei que era uma história rara e interessante sobre três mulheres, o que é difícil de se ver no cinema", afirma o grego, que dirige seu primeiro filme de época, a esta repórter. "É uma história sobre como esses relacionamentos íntimos afetam um mundo maior, um país e o destino de uma guerra."

Assim, as relações íntimas das mulheres ficam em segundo plano. "Nós não queríamos que fosse um filme sobre lésbicas e homossexualidade, e sim sobre seres humanos apaixonados", diz Lanthimos.

"Nenhum dos personagens diz que é uma relação homossexual. É um não assunto. O assunto é caráter, pessoas, comportamento, e como isso afeta mais pessoas."

Ainda que os meandros políticos acabem também virando acessórios, eles estão lá, bem como os conflitos entre liberais e conservadores sobre como financiar a batalha com a França —os últimos ganharam a queda de braço e conseguiram bloquear o aumento de impostos para a população.

Nesse filme, o cineasta testou ângulos novos, lentes mais abertas e tomadas longas para representar o mundo de então. O salão de baile é quase uma extensão do quarto da rainha, por exemplo.

Abigail, uma simples criada pobre, é prima de Sarah (Rachel Weisz, de "O Jardineiro Fiel"), uma lady. Ao longo das pouco mais de duas horas de filme, ela mostra que, aparentemente, a capacidade de manipulação pode ser genética. Sarah é a inspiração de Abigail, que, por sua vez, depois de mexer seus pauzinhos, vira uma espécie de discípula de Sarah, conselheira política da rainha.

Os trajes de Abigail vão ficando mais luxuosos ao longo do filme, refletindo sua ascensão social.

A personagem ganha maquiagem tradicional da época e cabelo semelhante ao de sua grande inspiração, Sarah.

Os homens do filme abusam da maquiagem, dos saltos e das perucas, em especial Nicholas Hoult ("Um Grande Garoto"), que interpreta Robert Harley, líder da oposição conservadora, e Joe Alwyn, que faz Samuel Masham, par de Abigail.

É a segunda vez que Weisz trabalha com Lanthimos, que a dirigiu em "O Lagosta", de 2015. A atriz afirma que, quando leu o roteiro, escreveu "desesperada" para o grego para pegar o papel. A questão política subjacente ao relacionamento conturbado da conselheira com a rainha foi um dos fatores que atraiu a atriz para a produção.

"Eu acho que ela ama a rainha e ama a Inglaterra. Então é muito bom que a rainha seja a Inglaterra e que a Inglaterra seja a rainha", diz."A rainha, sempre vulnerável, necessitava da proteção. Acho que a Sarah pensa que, sem ela, a rainha e o país iriam desmoronar."

As motivações de Abigail, porém, são menos políticas. Ela só quer sobreviver na inóspita Inglaterra de 300 anos atrás. "Eu adorei tudo sobre ela. Eu não precisava fazer charme, a não ser que tivesse um motivo. Há razões para toda a loucura dela", diz Emma Stone. "Eu adorava entrar em sua jornada de tentar conseguir mais poder, porque ela é uma sobrevivente que só quer mais segurança e estabilidade em sua vida."

A rainha Anne de Olivia Colman (que vai viver outra rainha, Elizabeth 2ª, na nova temporada de "The Crown") é infantil, insegura, manipulável, tem saúde frágil e uma espécie de depressão profunda depois de perder todos os 17 filhos, alguns por abortos espontâneos.

Em uma história que era para ter a monarca em segundo plano, é a atriz, mesmo com o menor número de cenas, que brilha. Ela vem acumulando prêmios de melhor atriz como o Globo de Ouro e o Copa Volpi do Festival de Veneza, largando, ela sim, como a favorita a um Oscar.

A Favorita (The Favourite)

  • Quando Estreia na quinta (24)
  • Classificação 14 anos
  • Elenco Elenco: Olivia Colman, Rachel Weisz, Emma Stone
  • Produção Reino Unido, Irlanda, EUA, 2018
  • Direção Direção: Yorgos Lanthimos
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