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Entenda como a Suíça faz super-ricos pagarem até R$ 3,5 mi em um relógio

Peças de manufatura feitas nas montanhas do Vale do Jura têm complicações e movimentos únicos

Artesão monta relógio de manufatura, mecânico e todo feito à mão, na oficina Minerva. A marca, propriedade do grupo Richemont, é uma das mais antigas da Suíça

Artesão monta relógio de manufatura, mecânico e todo feito à mão, na oficina Minerva. A marca, propriedade do grupo Richemont, é uma das mais antigas da Suíça Divulgação

Pedro Diniz
Genebra e Villeret (Suíça)

Desde que o relógio perdeu para o smartphone a função de ser um mostrador de horas, nunca houve tanta gente disposta a pagar mais caro por ele. Espécie de alta-costura para homens poderosos, a indústria relojoeira suíça atravessa um momento dourado no qual um único relógio pode valer R$ 3,5 milhões. Sem taxas.

Numa edição recorde com mais de 23 mil visitantes, o Salão Internacional de Alta-Relojoaria, que ocorre todo janeiro, em Genebra, é o ápice da esbórnia criativa dos ateliês espalhados no meio das montanhas cobertas de neve que circundam o norte suíço.

Cronógrafos, os cronômetros embutidos no relógio, calendários perpétuos, fases da lua, equações de tempo solar. Quanto mais detalhes —ou complicações, no jargão relojoeiro—, mais sedutora a peça fica aos olhos dos colecionadores, muitos do Brasil, aliás.

Nesse mundo paralelo, números precisos estão só nos ponteiros. Mas é sabido que a loja da Montblanc no Rio de Janeiro foi a segunda que mais vendeu relógios exclusivos no mundo todo no ano passado. 

E tendo em vista a expansão brasileira maciça de Jaeger Le-Coultre, Panerai, Piaget e outras grifes centenárias a partir da segunda década do século, o país ainda é a joia latino-americana do consumo para elas.

Para entender porque mais de 95% dos relógios que custam mais de R$ 4.000 saem desse país europeu, vale uma breve explicação. Não se trata de relógios de quartzo, movidos a bateria, mas mecânicos automáticos, que funcionam com uma engrenagem chamada movimento, ou calibre. 

Ele é composto por centenas de pequenas peças feitas à mão —alguns relógios têm mais de 700— que formam um mecanismo a partir do turbilhão, uma estrutura com mola que é a sua força motriz. Turbilhões aparentes na face do relógio, assim como os mostradores “esqueleto”, com engrenagem aparente, são uma das tendências mais em voga.

Rubis costumam selar essa parafernália microscópica que a Montblanc monta na oficina Minerva, um dos maiores centros dessa arte no alto das montanhas de Villeret, cidade na fronteira com a França. 

Fundado em 1858, o ateliê resistiu ao tempo. Os cronômetros Minerva eram conhecidos pela precisão e foram usados nas corridas de carro. Até hoje, as placas de aço, bronze e ouro são montadas ali por artesãos, a maioria jovens que aprenderam com os pais a paciência de monge e o movimento milimétrico dos dedos.

Uma pequena seta com extremidades arredondadas dentro da caixa do relógio estrutura a engrenagem, que pode levar até um ano para ser feita. De lá sai, por exemplo, o novo Star Legacy Exo-Turbillon da Montblanc, vendido a R$ 405 mil. O “exo” é o termo que define os turbilhões no mostrador.

Um outro modelo no mesmo padrão, da Jaeger Le-Coultre, foi avaliado em € 800 mil, ou quase R$ 3,5 milhões. A pulseira de couro de crocodilo, o acabamento em ouro branco, o calendário perpétuo e a mecânica que minimiza o efeito da gravidade sob a engrenagem são detalhes que explicam o preço de três Ferraris.

Para garantir que o investimento não se perca facilmente, os relógios da Montblanc, por exemplo, passam por testes de exaustão em Le Locle, a 26 km dali. Máquinas viram e reviram a peça para que a engrenagem não atrase, medem a capacidade de choque e a resistência a líquidos e gases, de uma chuva a uma bomba.

Mas, assim como carros, relógios deixaram de ser só máquinas potentes para se tornarem objetos de design que interpretam o tempo. No caso dos novos modelos, seguindo diretrizes da moda, uma era de volta às origens, quase vintage, desconectado da tecnologia, um meio termo entre o onírico e a realidade.

O militarismo, em especial o universo da aviação e a exploração náutica, é a base das cartelas de cores, que privilegiam os tons de verde —como a linha 1858 da Montblanc e o IWC Pilot— e marinhos —como o Submersible Chrono da Panerai—, sucessos de vendas.

De todo o salão, o novo Hermès L’Heure de La Lune talvez tenha sido o mais inovador do ponto de vista do design e arrancou elogios do público. Dois mostradores flutuantes giram 360 graus a cada 59 dias cobrindo e descobrindo duas luas feitas de madrepérola ao fundo para mostrar as fases lunares além das horas.

Mas apesar do sonhado relógio de manufatura, a maioria das marcas trabalha com diferentes linhas para atender as particularidades de cada mercado. O diretor da divisão de relógios da Montblanc, Davide Cerrato, explica que, diferentemente da Ásia, o Brasil é muito mais orientado pelo aspecto e o design do relógio.

“Latino-americanos e principalmente brasileiras se permitem novas experimentações. Como têm um gosto particular pela prática esportiva, é mais casual do que outros países”, diz Cerrato.

Mas um sentimento une os aficionados por relógios, o de que, independentemente de quantas tecnologias sejam criadas, serão elas que ficarão obsoletas, não a arte relojoeira.

“Há nove anos vimos o fim do ciclo dos relógios de design louco, vendidos como futuristas. Hoje, passamos a oferecer atemporalidade. Por isso os ‘smartwatches’ [iWatch e afins] não nos atingem. Bem, você sabe, nem relógios eles são.”

O jornalista viajou a convite do Grupo Richemont

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