Mostra em Nova York reúne obras de mulheres sobre papéis femininos

Em Women Now lugares sociais são evidenciados e colocados à prova em obras de americanas e austríacas

Danielle Brant
Nova York

Não que as coisas estejam muito melhores para as mulheres atualmente, mas, comparado a cem anos atrás, o panorama era bem mais sombrio. 

Nos Estados Unidos, a independência em 1776 deu direito a voto a homens brancos com mais de 21 anos e donos de um pedaço de terra. A elas, só foi permitido votar a partir de 1920 —144 anos depois.

 

Na Áustria, dá para dizer que demorou menos, considerando que o país só começou a existir com o final da Primeira Guerra Mundial. As mulheres ganharam direito a voto em 1918 —exceto as prostitutas, que tiveram que esperar até 1923.

Esses marcos históricos sobre igualdade de direitos levaram o Austrian Cultural Forum de Nova York a montar a mostra “Women Now”, de 17 artistas contemporâneas baseadas na Áustria e nos EUA sobre hierarquia de gênero e estruturas sociais. A exposição vai até 18 de fevereiro.

A curadoria é de Sabine Fellner, que mora e trabalha em Viena. O tema não é novo para ela, que já organizou uma exposição com imagens desde 1900 da maternidade no museu de arte Lentos, em Linz.

“Eu estava procurando por artistas que lidassem com a visão predominante do papel da mulher na sociedade. As posições delas são caracterizadas por uma preocupação com questões fundamentais de existência, possibilidade de autodesenvolvimento, posição social, solidariedade feminina ou competição e relações de gênero”, afirma.
 

Fellner também procurou abordar a ditadura da beleza e as críticas de estruturas exploratórias, assim como hierarquias de gênero e classe.

Todas essas questões são encontradas nas obras presentes. A búlgara Sevda Chkoutova se dedica a explorar o desejo feminino e seu sentido com as atribuições sociais e normas. Na mostra, um mural que ocupa dois andares traz, no canto inferior direito, uma mulher nua, deitada numa cama se masturbando. De sensual, a peça nada tem, porque o olhar da personagem traz temor e não luxúria.

Na parte superior, vários desenhos em vermelho de mulheres em poses sensuais ou tendo performances sexuais. De novo, em vez de despertar desejo, a violência das imagens se sobressai no quadro.

O papel da mulher mais velha é o mote dos trabalhos da americana Joan Semmel e da austríaca Claudia Schumann. Essa última recorre a um autorretrato sob a forma de um tríptico. É uma forma de confrontar as expectativas com seu papel na sociedade e as normas de beleza da época: ela se “passa” com um ferro, crítica à necessidade da mulher de se moldar.

Para a curadora, as obras são importantes para tocar na desigualdade de gênero em museus, mostras e no mercado da arte como um todo. “As conquistas da geração de vanguarda feminista formada em 1968 ainda precisam ser reforçadas e cimentadas em uma base diária”, diz.

Betty Tompkins, no trabalho “Women’s Words” (2016), quer saber quem são essas mulheres. Que termos as pessoas associam à palavra mulher. Ela levou o questionamento ao público pela primeira vez em 2002, e depois em 2013. As respostas que recebeu foram as mais variadas. Teve “vagabunda”, “amor”, “pétala” e “covarde”, entre outras.

Se as palavras não são suficientes para definir, a holandesa Margot Pilz decidiu compilar, em um vídeo, a história da humanidade e de seus ídolos sob a vanguarda feminina dos anos 1960 e 1970.

O nome do trabalho é “36.000 Anos de Deusas e Ídolos” e estão lá Madonna, Madre Teresa de Calcutá, Marilyn Monroe, ao lado de esculturas antigas de mulheres, de deusas indianas e da famosa Vênus de Milo.

A austríaca Uli Aigner exibe 49 vasilhas de porcelana com nomes de mulheres, vivas ou mortas, gravados com uma data. Cada item recebe uma numeração, num projeto iniciado em 2014 e que se chama “Un Million” —ela quer produzir um milhão desses vasos antes de morrer. A artista vende ou dá de presente os objetos. A numeração permite que eles sejam localizados no Google Maps, criando uma rede global de todos os proprietários dos objetos.

A instalação da austríaca Ines Doujak traz estampas de chamas em roupas, além de um vídeo e de uma escultura que atacam a indústria da moda. Sobra crítica tanto para a alta costura como para o “fast fashion”, qualificados de exploratórios e discriminatórios. Em uma das roupas lê-se “não somos máquinas”.

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