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Fechamento do Belas Artes seria 'mais uma tragédia' na cultura, dizem artistas e frequentadores

Caixa Econômica Federal não renovou suporte ao cinema de rua em São Paulo; prefeitura afirma que secretário se coloca à disposição para buscar solução

Reabertura do Cine Belas Artes, em 2014
Reabertura do Cine Belas Artes, em 2014 - Zanone Fraissat/ Folhapress
Guilherme Genestreti Rafael Gregorio
São Paulo

Diretores, artistas e frequentadores assíduos do Cine Belas Artes reagiram com pesar e assombro diante da perspectiva de que o cinema de rua paulistano tenha de fechar as portas em dois meses.

Conforme antecipado pela Folha, a Caixa Econômica Federal notificou o espaço em janeiro solicitando o fim da exibição da marca.

Ex-secretário municipal de Cultura e dono do cinema, André Sturm diz ter acertado com o proprietário do imóvel um prazo de dois meses para achar um novo patrocinador. Ali funcionam as seis salas do cinema, inaugurado com este nome em 1967; o aluguel custa quase R$ 2 milhões ao ano.

Em nota, a prefeitura de São Paulo informou que o secretário municipal de cultura de São Paulo, Alê Youssef, "destaca a importância fundamental e histórica do Cine Belas Artes, lamenta o fim do patrocínio da Caixa e coloca-se à disposição para auxiliar na busca de uma solução para que este importante espaço mantenha-se presente na cultura de São Paulo".

“Se fechar, é mais uma tragédia no cenário cultural”, resume Sérgio Rizzo, 53, jornalista, crítico e professor que frequenta o Belas Artes ao menos uma vez por mês e, naquele local, teve uma espécie de escola.

“Foi a sala em que, durante a adolescência, assisti filmes 'de autor', 'de arte'. Títulos como 'Meu Tio da América', do Alain Resnais; lembro-me de sair na avenida Paulista extasiado. Foram momentos muito ricos."

Rizzo associa as críticas ao uso de dinheiro público para manter um cinema de rua a uma ignorância a respeito dos orçamentos públicos e do potencial econômico do setor cultural.

“Em geral, as pessoas que falam isso têm muito pouco conhecimento da economia da cultura. Não sabem que cultura gera emprego. Os trabalhadores da área sentem isso na pele, alimentam suas famílias com isso.”

Rizzo lamenta ainda o que vê como insignificância do valor do patrocínio frente aos recursos da Caixa Econômica Federal e contextualiza o corte nas promessas de campanha do presidente Jair Bolsonaro.

“De certa forma, era previsível. É um governo obscurantista, e obscurantistas tendem a não gostar de ciência e de cultura. No atual cenário econômico, temo que seja muito difícil arrumar outro patrocinador.”

Janaína Lima, vereadora em São Paulo pelo partido Novo, pondera que "O uso de recursos públicos é limitado e, por isso, precisa ser priorizado" em favor de "problemas severos de infraestrutura, educação, saúde, saneamento básico e segurança".

Embora não seja frequentadora assídua do Belas Artes, a parlamentar diz reconhecer sua importância "como patrimônio cultural da cidade" e torce para que algum representante da iniciativa privada possa assumir o patrocínio do estabelecimento.

"Por outro lado", ela ressalva, "muitas pessoas na periferia não têm acesso à cultura. Quando eu cresci no Capão Redondo não havia nenhum cinema por perto, até hoje muitos bairros continuam sem. Se a Caixa tivesse um real compromisso com a cultura, poderia ter destinado seus recursos públicos para o incentivo a iniciativas nas regiões mais afastadas".

“Não gosto nem de pensar num eventual fechamento do Belas Artes", afirma o empresário Facundo Guerra, 45, um dos sócios do Riviera, em frente ao Belas Artes, outro ponto comercial histórico que viveu anos de abandono e foi resgatado.

"Ele representa um patrimônio simbólico da cidade. Quando se perde algo assim, vai junto um pouco da nossa identidade. É muito importante que a gente encontre alguma solução”, 

Guerra é outro a descrever o cinema como importante para sua formação cultural e humana. “Frequento desde adolescente. O Belas Artes proporcionava entretenimento barato; tinha a promoção 'meia da meia' às quartas-feiras. De certa maneira, contribuiu para a maneira como vejo o mundo.”

O empresário também refuta críticas ao investimento de recursos públicos em um cinema de rua. “Não concordo. Quem vai por esse caminho perde o ponto, porque cultura é uma extensão da educação. Dinheiro público não pode ser usado é para pagar aposentadoria de militar, regalias para burocratas.”

As críticas à destinação de recursos públicos a um cinema também incomodam o arquiteto Roberto Loeb, 77: “Acho paradoxal, porque cinema é educação”.

Ele foi o responsável pelos dois mais recentes projetos arquitetônicos de recuperação do Belas Artes, em 2003 e em 2014, e, antes, vivenciou aquele ponto durante a juventude.

“O Belas Artes é uma espécie de monumento urbano, um dos poucos que restam. Principalmente na época do governo militar, foi um ponto de encontro."

Loeb analisa as dificuldades do estabelecimento no contexto da proliferação de shoppings centers e da absorção, por parte deles, da demanda por filmes, e tem sugestões para desatar o nó.

“O ideal seria manter o cinema aberto, mas com um patrocínio voltado para jovens, estudantes universitários. Uma espécie de escola livre. Também poderia ser constituído um pool de empresas, com cada sala patrocinada por uma instituição, o que daria oportunidade para uso como espaço de palestras.”

Do contrário, ele diz, a cultura sofrerá uma perda de grande dimensão.

“Governo e poder público precisam ficar atentos, pois cada vez mais as pessoas se reúnem em guetos, ficam fechadas em shoppings. O cinema é um lugar neutro. É uma pena perder um patrimônio assim, com um valor e uma história de tantos anos; mais uma coisa posta de lado sem medir consequências."

"Tomei um susto", diz o professor baiano Fabio Ornelas, 38, que frequenta o lugar pelo menos uma vez por mês há dez anos, desde que se mudou para São Paulo. "Achei que a situação estivesse estabilizada e que pudéssemos contar com esse patrocínio por bastante tempo."

Para a sua graduação no curso de comunicação, ele rodou um documentário, "Belas Artes: A Esquina do Cinema", que tratava das manifestações que ocorreram em prol da reabertura do cinema, em 2014. 

Ornelas afirma que pretende participar de novos atos contra o fechamento, se eles ocorrerem. "Quem gosta de cultura não tem como não valorizar aquele espaço", diz. 

O funcionário público Gleison Nascimento, 25, é um dos que já começaram a mobilização, pelo menos nas redes sociais. "Quero incentivar as pessoas a postarem fotos de suas memórias afetivas no lugar", diz. 

O Belas Artes tem um significado especial para ele. Foi ali que foi realizado, um ano atrás, o primeiro encontro do Vamos ao Cinema Juntos, projeto capitaneado por ele que organiza idas em grupo aos cinemas da cidade seguidas por conversas sobre o filme em bares ou cafés. Hoje, diz, até 50 pessoas chegam a participar desses passeios, dependendo do filme.

"É uma notícia horrível", diz Ivam Cabral. Ele e Rodolfo García Vázquez são os fundadores do grupo teatral Os Satyros e diretores do filme "A Filosofia na Alcova", que ficou por mais de 63 semanas em cartaz naquele cinema. "Só o Belas Artes poderia fazer com que filmes como os nossos fossem exibidos."

Cabral diz que não há outro espaço no Brasil em que produtores cinematográficos tenham a mesma acolhida por parte de exibidores. "Mais do que o fechamento de um espaço, isso significaria o fechamento de uma ideia muito particular de exibição."

A cineasta Marina Person faz coro. "É mais um golpe na nossa tão sofrida cultura brasileira", diz. "Poderia ter acontecido num outro momento? Sim, mas agora vejo como uma ação muito certeira em relação à classe cultural como um todo."

O Belas Artes trabalha com duas modalidades de fidelização de seus frequentadores. O pacote chamado Cinéfilo, que custa R$ 800 ao ano, garante vantagens como uma entrada franca por semana; já o Sócio permite descontos em estabelecimentos associados, cadeira personalizada com o nome, entre outros benefícios, sob uma anuidade de R$ 3.000. 

Dono do Belas Artes, Sturm afirma já manter contatos com marcas interessadas que prefere não mencionar. 

Situado na esquina da avenida Paulista com a rua da Consolação, o Belas Artes é celebrado por público e crítica pela curadoria diversificada —na comparação com o cardápio das redes que dominam os shopping centers, modelo de exibição predominante no país, o local exibe mais filmes, por mais tempo e com mais atenção à produção nacional.

O local também é notório por promover séries especiais dedicadas a cineastas e filmes clássicos, como as mostras em homenagem a Cacá Diegues e a Grande Otelo, em 2017 e 2018, e a exposição de longas do diretor russo Andrei Tarkovski, em 2018.

O encerramento do patrocínio da Caixa é um novo capítulo na história recente de resistência do Belas Artes.

O local ficou fechado de 2011 a 2014, quando foi reaberto sob a bandeira da Caixa, após grande mobilização de políticos e sociedade civil, incluindo um Movimento Cine Belas Artes.

O cinema foi escolhido o de melhor atendimento pelo público ouvido pelo Datafolha na mais recente avaliação do Guia Folha.

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