Leonilson revela faceta desconhecida em exposição com inéditos

Mostra com trabalhos quase nunca vistos destaca experimentação do artista e reforça a sua veia autobiográfica

‘Rua certa; Dia Certo’, obra de 1990 de Leonilson

‘Rua certa; Dia Certo’, obra de 1990 de Leonilson Romulo Fialdini/Divulgação

Silas Martí
São Paulo

​Um painel de placas de cobre costuradas com arame é o pano de fundo da imagem de uma ponte na chuva. Os contornos dela, da mesma forma que a representação da água que corre por baixo e dos pingos caídos do céu, são traços pretos de fita isolante.

Leonilson, nesse trabalho exposto uma única vez até agora, faz da paisagem um curto-circuito —cobre, arame e fita lembram as entranhas de um chuveiro elétrico a forjar a realidade como o campo de alta voltagem que ele retratou ao longo dos anos.

Seu trabalho, nesse sentido, espelha a tempestade que engolfou sua vida desde que o vírus da Aids foi ceifando gente ao seu redor até provocar a sua própria morte precoce, aos 36 anos, em 1993.

Mais conhecido por suas telas coloridas da década de 1980 e depois pelos desenhos e bordados delicados da fase final de sua vida, o artista deixa ver nesse trabalho uma estratégia incomum para ele, com certa influência da arte povera, vanguarda italiana marcada pelo uso de materiais banais, os refugos do dia a dia.

Uma das peças consideradas inéditas na retrospectiva do artista aberta agora no Centro Cultural Fiesp, sua "Ponte Sob Chuva" veio pouco depois de um trabalho em que pintou uma navalha suja de sangue sobre páginas de jornal noticiando "a doença mortal que assusta o mundo", mais uma peça que estreia diante do grande público.

Outros símbolos recorrentes na obra do artista —vulcões, pontes, rios e ruas— aparecem ao longo da mostra, mas os inéditos dão ar de estranha novidade a um artista que construiu uma trágica autobiografia com a sua obra.

"O Inconformado", tela antes tida como perdida e encontrada agora numa coleção particular, dá a dimensão desse desajuste, retratando um homem que não cabe dentro de um carro, a cabeça, os braços e as pernas saltando para fora.

Leonilson, de fato, viveu amores quebrados, tanto reais quanto idealizados, que se tornaram na superfície de suas pinturas e nas linhas de seus bordados um dos retratos mais contundentes da solidão e da dor. E essa melancolia se torna asfixiante com o avanço da doença, fazendo o trabalho se tornar cada vez mais frágil, sintético, rarefeito.

Foi um processo radical de depuração formal. Na exposição, a ordem cronológica das telas, embora pouco inventiva do ponto de vista museológico, deixa isso nítido --os intensos campos cromáticos do auge de seu trabalho oitentista vão cedendo espaço aos bordados, as peças mais minimalistas criadas por ele.

Na mesma pegada, ele pintou um estômago branco sobre fundo verde no dia em que se descobriu soropositivo, um órgão flutuando solto na imensidão da tela, que evocava ainda nervos e coragem.

Mais simples de todos os autorretratos, um quadro transparente em que ele bordou "José", seu primeiro nome, encerra a mostra. É a superfície em que espelhamos nossos dramas como cúmplices dele.

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