Descrição de chapéu Crítica Cinema

'Minha Fama de Mau' apresenta canções e homenageia Erasmo

Cinebiografia do artista é focada nos anos 1960 e no sucesso da Jovem Guarda

Ivan Finotti

Minha Fama de Mau

  • Quando Estréia nesta quinta (14)
  • Classificação 12 anos
  • Elenco Chay Suede, Gabriel Leone, Malu Rodrigues
  • Produção Brasil, 2019
  • Direção Lui Farias

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A molecada de 1985 não entendeu por que Erasmo Carlos estava escalado para o dia de abertura do Rock in Rio, ao lado de bandas como Whitesnake, Iron Maiden e Queen. A reação foi impiedosa: vestido de couro e com tachinhas, Erasmo foi bastante vaiado pelos metaleiros.

É que a juventude dos anos 1980 não conhecia a história que está contada em “Minha Fama de Mau”, cinebiografia do artista focada nos anos 1960 e no sucesso da Jovem Guarda. Os metaleiros, afinal, iam gostar de saber que o jovem Erasmo escutava Elvis Presley nos intervalos de pequenos golpes criminosos, como furtos de canos em residências abandonadas ou de discos de rock nas lojas da Tijuca, na zona norte do Rio.

Naquela virada dos anos 1950 para os 1960, ele fazia parte de uma turma cujo líder era Tião Maia, que logo ficaria conhecido como Tim. A primeira parte do filme mostra a luta de Erasmo para se inserir no meio musical carioca. Consegue ao se aproximar de Carlos Imperial, radialista e produtor que mandava e desmandava na fábrica de sucessos da época.

Um de seus artistas era Roberto Carlos, que aparece pela primeira vez no filme em um momento curiosos: tocando canções de bossa nova, que renderam alguns compactos e um LP, “Louco Por Você”, lançado em 1961 com sete canções e/ou versões assinadas por Imperial. Esse disco é um mistério para os fãs: nunca foi relançado comercialmente.

O encontro entre os dois é o início da Jovem Guarda como movimento. A versão de Erasmo Carlos para “Splish Splash”, de Bobby Darin, e a criação, com Roberto, de “Parei na Contramão” estão no segundo LP de Roberto Carlos, de 1963. Elas inauguram a carreira do rei como a conhecemos hoje e da dupla de compositores mais famosa do país.

Erasmo lançou depois a música título do filme, o que o credenciou para a televisão ao lado de Wanderléa e Roberto no programa “Jovem Guarda”. Tudo isso está contado na primeira parte do filme. A dupla de atores Chay Suede e Gabriel Leone, egressa de telenovelas da Globo, cumpre bem o seu papel, assim como a Wanderléa feita por Malu Rodrigues.

O diretor Lui Farias, de “Com Licença, Eu Vou à Luta” (1985), é filho de Roberto Farias, que nos anos 1960 dirigiu três filmes com Roberto Carlos, sendo dois deles com Erasmo: “O Diamante Cor-de-Rosa” (1970) e “A 300 Quilômetros por Hora” (1971).

Aqui, ele opta por um ritmo leve, em sintonia com o movimento que retrata, e pela metalinguagem. Em diversos momentos, a cena vira uma história em quadrinhos, por exemplo. Em outras, o ator fala diretamente para a câmera/espectador, enquanto a vida se desenrola normalmente atrás dele.

Na segunda parte do filme, Erasmo é um sucesso nacional, perseguido por cocotas e criticado por puristas da MPB. O momento dramático acontece quando Erasmo é apontado como o único verdadeiro compositor das canções da dupla, e Roberto se sente passado para trás.

Esse caso realmente aconteceu e, nos discos de 1966 e 1967, Roberto lançou sucessos compostos apenas por ele, como “Querem Acabar Comigo”, “Namoradinha de um Amigo Meu”, “Por Isso Corro Demais” e “Quando”.

A dupla logo reatou e seria feliz para sempre, mas aqui o filme comete uma licença histórica e mostra Roberto se desculpando ao presentear Erasmo com uma canção: “Você, meu amigo de fé, meu irmão camarada...”

Essa canção, na verdade, foi composta dez anos mais tarde e está no disco de Roberto de 1977. Funciona bem, entretanto, como o momento de reconciliação no filme.

No mais, “Minha Fama de Mau” tem um mérito precioso: o de apresentar canções de Erasmo. Além da música título, o artista emplacou diversos hits nos anos 1960, como “Festa de Arromba” e “A Pescaria” e depois encontraria sua própria voz em canções mais profundas, como “Sentado à Beira do Caminho” (1969).

Infelizmente, a delicada e altamente desconhecida produção de Erasmo nos anos 1970 é ignorada no filme. Assim como suas pazes com o sucesso ao lançar canções mais pop nos 1980. Seja como for, a homenagem é justa.

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