Arata Isozaki vence o Pritzker, principal prêmio da arquitetura

O arquiteto 'vai além da estrutura da arquitetura e levanta questões que transcendem eras e fronteiras'

O arquiteto japonês Arata Isozaki
O arquiteto japonês Arata Isozaki - Giuseppe Cacace/AFP
Francesca Angiolillo
São Paulo

​Um desejo que vem preencher uma ausência. Assim se poderia explicar a inclinação pela arquitetura nascida no jovem Arata, aos 14, diante dos destroços do Japão derrotado na Segunda Guerra.
A profissão que Arata Isozaki, 87, abraçou há 65 anos reconheceu-o nesta terça-feira (5) com sua maior honraria, o Prêmio  Pritzker.

“Quando eu comecei a ter idade para entender o mundo, minha cidade foi incendiada”, disse Isozaki, em texto divulgado no site da premiação. 

No lado oposto do mar, estava Hiroshima; tudo era ruína. 

“Não havia arquitetura, não havia prédios e nem mesmo uma cidade. Só quartéis e abrigos me cercavam. Então, minha primeira experiência arquitetônica foi o vazio da arquitetura, e comecei a pensar em como as pessoas poderiam reconstruir seus lares e suas cidades”, explicou Isozaki.

É o oitavo japonês a receber o prêmio apelidado de Nobel da arquitetura, outorgado desde 1979 a profissionais vivos pelo conjunto de sua obra.

A carreira de Isozaki começou sob os auspícios de seu professor Kenzo Tange —que participou da reconstrução de Hiroshima e colocou o Japão no mapa do modernismo arquitetônico, tornando-se ele o primeiro em seu país a receber o Pritzker, em 1987. 

Desde 1963, Isozaki tinha seu próprio escritório; entre suas primeiras obras de destaque está a biblioteca —hoje chamada Praça de Artes— de Oita, sua cidade natal.

O edifício de feições brutalistas —que lhe valeu o prêmio anual dado pelo Instituto de Arquitetos do Japão em 1967— denota o domínio estrutural por parte desse profissional formado no departamento de arquitetura da Faculdade de Engenharia da Universidade de Tóquio.

Em sua justificativa, o Pritzker diz que Isozaki “vai além da estrutura da arquitetura e levanta questões que transcendem eras e fronteiras”. 

A frase resume tanto a notável internacionalização da obra do arquiteto quanto seu desapego dos cânones que marcaram sua formação.

Não havia uma resposta única aos desafios da reconstrução, que incluíam a entrada forçada da cultura estrangeira pela ocupação. Mudar para encontrar soluções, disse ele, era uma constante. “Paradoxalmente”, completa, “a mudança se tornaria meu estilo.”

Talvez tenha sido também a experiência de crescer num país derrotado o que fez com que Isozaki mirasse o mundo de forma mais ampla, tornando-se um arquiteto internacional a partir dos anos 1980. 

“Queria ver o mundo com meus olhos, então cruzei o globo ao menos dez vezes antes dos 30 anos”, recorda o arquiteto, em texto divulgado pelo Pritzker. “Perseguia as oportunidades de fazer isso e, assim, continuava me perguntando ‘o que é arquitetura?’.” 

Seu primeiro projeto no exterior foi o Moca, Museu de Arte Contemporânea de Los Angeles, construído entre 1981 e 1986. O edifício alaranjado com claraboias piramidais mostra um Isozaki já em sintonia com o pós-moderno. 

Participou também do grande celeiro de ideias que foi a preparação de Barcelona para receber os Jogos Olímpicos de 1992, projetando o ginásio de Montjuic, o Palau Sant Jordi.

Hoje, tem obras em mais de dez países, tão diversas quanto o Palácio do Centenário de Nara, construção oblonga que no revestimento evoca uma técnica tradicional de telhados japoneses, ou o hi-tech Centro de Convenções de Doha, com gigantescos pilares arbóreos feitos de metal. 

São mostras de que Isozaki percorreu sem temor as possibilidades da arquitetura em seu tempo. Ou que, parafraseando o próprio autor, tentou se livrar de qualquer consciência estética que o prendesse.

Curiosamente, Isozaki fez um projeto para o edifício do MAC (Museu de Arte Contemporânea) de São Paulo, mas o concurso, feito em 2001, preferiu o trabalho do suíço Bernard Tschumi

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