Exposições analisam a obra ainda polêmica do arquiteto Ruy Ohtake

Criador de prédios coloridos que lembram melancias e carambolas é tema de mostras em São Paulo

Fachada do Instituto Tomie Ohtake, na zona oeste de São Paulo Silvia Zamboni/Folhapress

Francesca Angiolillo
São Paulo

Uma melancia. Uma carambola. Queijos. A obra de Ruy Ohtake não teme a associação com formas do mundo externo à santíssima trindade pilar-viga-laje.

Esse destemor tem um preço que vai além dos apelidos do hotel Unique, do pilar da torre do Instituto Tomie Ohtake, dos conjuntos habitacionais redondos de Heliópolis. Ele causa um silêncio crítico. 

Mas é uma reflexão sobre sua trajetória o que propõem agora uma exposição, em cartaz no Museu da Casa Brasileira, e um livro, a sair pela editora Romano Guerra neste mês.

Seu passado é inconteste —foi um filho da escola paulista de Vilanova Artigas e Paulo Mendes da Rocha, o que se manifesta em obras como as casas que fez para Nadir Zacarias e para a mãe, a artista Tomie Ohtake; ambas estão entre as seis residências criadas por ele hoje tombadas em São Paulo e aparecem na mostra “A Produção do Espaço”.

Mas a leitura límpida da estrutura como forma, a verdade dos materiais, preceitos lapidares expressos nas residências dos anos 1960 e 1970, foram deixados de lado há muitos anos por esse arquiteto.

Isso se evidencia nos cerca de 40 projetos na mostra, de casas a parques, passando pelos prédios comerciais que pululam, com suas cores e espelhos, no skyline de São Paulo. 

Durante a montagem, Ohtake explica seu gosto por curvas, nascido da impressão que, numa viagem a Minas Gerais, lhe causou o barroco de Aleijadinho —origem também atribuída às formas não retilíneas de Oscar Niemeyer.

Uma reta, diz ele, não prende a atenção. “A diferença entre olhar uma reta e uma curva é de um segundo; mas é um segundo importantíssimo para a sensibilidade da gente.”

Agnaldo Farias, um dos poucos que analisaram criticamente a obra de Ohtake, organiza a mostra —que se completa com outra, “O Design da Forma”, com 25 peças, de estantes e mesas a pias, escolhidas por Fábio Magalhães, Marili Brandão e Priscyla Gomes, no Instituto Tomie Ohtake.

Farias diz que “a nossa produção, especialmente a paulista, é muito ortodoxa, presa a preceitos, tímida, acanhada”. “Escolas admiráveis são cheias de restrição, de pode e não pode”, afirma. “Uma hora, o Ruy parou de se preocupar, foi fazendo o que deu na telha.”

Ele vê o arquiteto como um dos poucos que levam preocupação plástica aos projetos. Outros, como Isay Weinfeld e Marcio Kogan, diz ele, também são “meio rechaçados”.

O crítico de arte e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, aliás, diz ter estado “sempre atento ao que Ruy estava fazendo”, atitude que não vê entre seus pares, nos quais identifica “um preconceito muito forte”.

Farias cita o hotel Unique para exemplificar o virtuosismo de Ohtake no uso do concreto, no rigor do cálculo, uma das qualidades que destaca.

Visitando a obra com Ohtake, Farias comentou o engenho do triplo encontro entre os pilares, a curva e a viga no topo do edifício. Com “uma risadinha envaidecida”, o arquiteto disse: “Na mosca. Foi o que deu mais trabalho”. “Aí dizem que ele fez uma melancia; é tão primário”, diz Farias.

O editor Abílio Guerra concorda que “há um problema na aceitação do trabalho do Ruy”, que ele espera ajudar a sanar com o livro por sair. A obra terá três ensaios críticos e três fotográficos, além de croquis e desenhos de projetos nunca antes publicados. 

“Tudo passa quando a gente olha a obra”, diz Guerra. “São poucos os arquitetos que marcam uma situação urbana.”

O que parece certo, como diz Fernando Serapião, é que “ninguém fica indiferente a uma obra dele”. Editor da revista Monolito, ele define Ohtake como “um arquiteto que arrisca e que não se sente confortável com manter a tradição”. Mesmo se “correr riscos pode ser positivo ou negativo”. 

O próprio Ohtake define sua trajetória em termos semelhantes. “Não olho para trás. A história é importante para a formação. Ponto. A partir daí, é a sensibilidade do arquiteto.”

A sensibilidade dele pede, além de curvas, cores. “No interior, no Nordeste, ainda tem casinhas coloridas. E não é azulzinho claro. É vermelho, amarelo-gema.” A cidade, conclui, “tem que magnetizar com a forma e vibrar com a cor”.

Essa busca por uma arquitetura pop é parte do que é malvisto. Leandro Medrano,  professor da USP, vê na controversa obra de Ohtake “os entraves próprios da disciplina arquitetônica no século 20”.

Segundo ele, o alinhamento “com a cultura pós-moderna dos anos 1980 e 1990” fez de Ohtake um alvo das mesmas críticas dirigidas a arquitetos, de qualquer país, que seguiram o mesmo caminho,  visto como corajoso pelo professor.

A maior parte da crítica, porém, escapa da frontalidade, num quadro em que palavras são gastas só para o elogio. Nos últimos 20 anos, por exemplo, a USP teve 13 trabalhos, entre mestrados e doutorados, sobre Paulo Mendes da Rocha, enquanto Ruy Ohtake foi alvo de uma única dissertação, sete anos atrás.

Mônica Junqueira é uma das que abordam a obra de Ohtake na universidade. Como os demais, ela destaca o caráter precioso das casas da fase inicial do arquiteto. “São joias.”

Já na fase atual, das experimentações que chama de pós-modernas, Junqueira vê uma obra que quer ter “impacto na paisagem”, mas que não tem “uma inserção na paisagem”.

Ela lembra a sede do Instituto Tomie Ohtake, que poderia propor “um espaço de encontro, o térreo aberto”, mas “carece de visão urbanística”, como outros prédios dele.

Junqueira prefere ressaltar a fase brutalista do arquiteto, sua “real contribuição à arquitetura” —tão grande contribuição que, explica ela, “esperava-se que continuasse”. 

​Não se trata de negar o formalismo, ela argumenta.

“Niemeyer era bem formalista e não é por acaso que está em todos os manuais da arquitetura do século 20, mas por mostrar que o concreto poderia ter qualquer forma.” 

O carioca, diz, “trouxe uma nova visão para a arquitetura”. “Não consigo pensar a arquitetura diferente do que penso a partir das formas do Ruy.”

 

Ruy Ohtake, 81

Nascido em São Paulo, é autor de mais de 300 projetos no país. Admirador de Niemeyer, deixou os princípios brutalistas e inseriu curvas e cores em seu trabalho, que inclui obras como os hotéis Renaissance e Unique, em São Paulo, e o Aquário do Pantanal, em construção em Campo Grande.

 

A Produção do Espaço

  • Quando De ter. a dom., das 10h às 18h. Até 19/5.
  • Onde MCB - Av. Brig. Faria Lima, 2.705.
  • Preço R$ 10

O Design da Forma

  • Quando De ter. a dom., das 11h às 20h. Até 14/4.
  • Onde Instituto Tomie Ohtake. R. Coropés, 88.
  • Preço Grátis
Erramos: o texto foi alterado

Versão anterior grafava o sobrenome de Nadir Zacarias como ​​Zacharias. O texto foi alterado.

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