Ernesto Neto tenta contato com mundo espiritual em exposição na Pinacoteca

Famoso por obras que ativam os cinco sentidos, ele apresentará quatro ações-rituais na mostra

Vista de 'Cura Bra Cura Té', instalação inédita de Ernesto Neto em sua retrospectiva na Pinacoteca

Vista de 'Cura Bra Cura Té', instalação inédita de Ernesto Neto em sua retrospectiva na Pinacoteca Adriano Vizoni/Folhapress

Clara Balbi
São Paulo

Uma árvore de crochê domina todo o pátio central do prédio da Pinacoteca, no centro paulistano. Da copa, tingida em tons de verde e amarelo, pende uma flor vermelha, também de crochê.

O tronco de madeira, apoiado no chão, abriga punhados dos principais produtos de exportação da economia brasileira ao longo dos séculos —açúcar, café, ouro, soja.

Inédita, a obra monumental integra a retrospectiva de Ernesto Neto no museu, que começa neste fim de semana, às vésperas da avalanche de artes plásticas que toma a cidade em torno da feira SP-Arte. É sob a fronde dessa planta que acontecerão quatro ações de cura e meditação do artista.

 

Organizada pelo diretor da instituição, Jochen Volz, e a curadora-chefe, Valéria Piccoli, a retrospectiva reúne cerca de 60 obras do artista carioca pinçadas de sua produção das últimas três décadas.

Neto afirma que as ações pensadas para o espaço terão representantes dos movimentos negro e indígena. Este último, cada vez mais presente em sua produção a partir de uma viagem à tribo dos huni kuin, no Acre, há seis anos.

“Sempre acreditei na alegria. E, de repente, cheguei a uma terra onde tudo era sagrado, e a alegria era a cura”, ele diz. 

Desde então, sua obra plástica, conhecida pelas instalações e esculturas imersivas —que, construídas em materiais têxteis, como poliamida e o próprio crochê, evocam formas orgânicas, vivas— tem ganhado um caráter mais e mais ritualístico.

Mas a preocupação com o corpo coletivo, social, vem desde o começo de sua trajetória, na década de 1980.

“Copulônia” (1989), remontada para a exposição, é considerada seminal nesse sentido.

A instalação, formada por meias femininas recheadas com chumbo de caça (o elemento masculino do trabalho), apresenta uma espécie de colônia de seres disformes que pendem do teto e se espalham pelo chão.

Ela marca o momento em que o trabalho do artista, até então voltado para questões do universo da escultura, como equilíbrio, resistência e natureza dos materiais, passam a se alastrar pelo ambiente.

A colonização do espaço, desta vez pelo cheiro, continua com as esculturas “Piff, Poff, Puff, Paff…”, de 1997, que deixam vazar temperos como cúrcuma e cravo pelo chão.

Na exposição, o elemento aparece em obras como “Enquanto Nada Acontece” (2008), espécie de gigantesco cogumelo pendurado. De seu chapéu caem meias com porções de açafrão-da-terra, cravo, cominho.

“Quando o cheiro se esgota, basta balançar que ele se liberta de novo”, explica Neto. “Esse trabalho tem 
essa questão da transpiração, do que exalamos de dentro de nós mesmos.”

O maior passo em direção à construção de um obra gregária, que discute a convivência com o outro a partir dos cinco sentidos, vem, no entanto, com as suas “Naves”, dos anos 1990.

Como jiboias etéreas, as estruturas suspensas, construídas com o mesmo tecido de meia-calça, mudam de forma de acordo com quem —ou o quê— as adentra.

“As naves são um local-corpo uterino, maternal”, diz Neto. “Trabalha-se o estado de estar.”

Se há quem associe a série com o trabalho dos neoconcretistas Lygia Clark e Hélio Oiticica, Valéria Piccoli considera redutor falar do trabalho de Neto nesses termos.

“Ele obviamente tem uma relação inicial com o movimento mas, com o tempo, extrapola essa herança, ao se distanciar do indivíduo para pensar a humanidade de modo mais geral”, afirma.

De fato, a partir dos anos 2000, a produção de Neto parece querer envolver mais e mais pessoas por meio de trabalhos monumentais.

Datam do período as megainstalações “Bicho!”, apresentada na 49ª Bienal de Veneza, em 2001; “Leviathan Thot”, no Panteão de Paris, em 2006 ; e “Anthropodino”, no Park Avenue Armory, Nova York, em 2009.

O crochê, que ele aprendeu a tecer com a tia-avó em 1994, ajudou nesse movimento. É com essa técnica que ele fez a grande árvore da mostra atual, assim como uma espécie de mãe dela, “Gaia Mother Tree”, apresentada no ano passado numa estação de trem de Zurique, ou “O Bicho SusPenso na PaisaGen”, exposta no Faena Arts Center, em Buenos Aires, há oito anos.

Visão, tato, olfato. O aspecto sinestésico da obra de Neto se completa com o som. Mas este, em peças como “Circleprototemple…!” (2010), uma cabana no formato de um coração com um tambor no centro, fica muitas vezes a cargo do público.

O som também aparece nos rituais recentes do artista, sob a forma de canto e música. E terá lugar durante as ações no pátio central da Pinacoteca.

Nela, a cada ritual, o tronco da árvore terá um de seus segmentos subtraído, alegoricamente abocanhado pela flor vermelha de crochê. Esta representa a energia feminina da terra que, para Neto, está dotada de poder de cura.

“Essa planta está curando o trauma que é a estrutura social brasileira hoje. Precisamos trazer o feminino para a nossa sociedade”, diz o artista.

A primeira ação acontece já no dia da abertura, e inclui meditação, banho e música.

“A gente é branco, europeu, mas também é índio e africano. Um tambor, um maracá toca dentro da gente”, diz Neto. “As duas heranças são negadas, silenciadas, mas elas têm uma sabedoria profunda.”


CALENDÁRIO DAS AÇÕES-RITUAIS

Ciclo 1: 13/4
  Ciclo 2: 4/5
Ciclo 3: 1/6
  Ciclo 4: 13/7

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