O que Rennan da Penha conquistou em sua escalada funkeira até a ordem de prisão

Condenado por associação para o tráfico, DJ recebe apoio de artistas e amigos que acompanham sua trajetória cheia de reviravoltas

Anna Virginia Balloussier
Rio de Janeiro

"Aaaah, nem mudei muito, só cortei o cabelo e enchi o pescoço de cordão", escreveu Renan da Silva Santos, 25, embaixo de uma montagem com duas fotos: ele em 2009, cabeludo, uma camisa onde se lê "freedom" (liberdade), e ele dez anos depois, cabeça raspada, boné para trás e grossas correntes de ouro.

Mais retratos em suas redes sociais dão a medida do sucesso do jovem que virou de cambalhota o mundo do funk. Isso até mês passado, quando a Justiça o condenou a seis anos e oito meses de prisão por associação para o tráfico. Aí os confetes virtuais cederam espaço a desagravos ao DJ Rennan da Penha, como ele é conhecido na noite carioca.

Rennan saiu da Vila Cruzeiro, uma das favelas da Penha, para férias instagramáveis em Israel (amou o mar Morto), Egito (curtiu os camelos), Chile (a neve deixou seu "nariz geladão"). Posou com o primeiro escalão do funk: Ludmilla, Nego do Borel, MC Livinho, todos amigos.

Nas redes pululam registros no Baile da Gaiola, festa na comunidade onde cresceu e que já atraiu numa única noite 25 mil pessoas. Virou sua vitrine por excelência, e também point dos camaradas famosos. Em 2018, Rennan se gabou ao jornal O Dia da amizade com jogadores, com destaque para uma ex-estrela do Flamengo, seu time: "O Adriano Imperador volta e meia está nos meus bailes tomando um uísque com guaraná".

Dinheiro e fama vieram a reboque de seu pioneirismo no estilo 150BPM, sigla para batidas por minuto, que determinarão quão ligeira uma música é. Antes de sua geração, o funk costumava girar no 130BPM. Na boca do povo, o compasso de Rennan ganhou codinomes como "ritmo louco" e "putaria acelerada".

Hoje a Gaiola acabou, a luz apagou, o povo sumiu. A festa está suspensa após uma operação deixar quatro moradores baleados (dois idosos entre eles), em fevereiro. Desde 2018, a polícia investiga se o baile é ponto de encontro para traficantes.

"Me solta, porra", como diz o hit de Nego do Borel que Rennan produziu, virou um mantra involuntário nesta etapa da vida do DJ. A Ordem dos Advogados do Brasil lançou nota em sua defesa, e o meio artístico fechou com ele. Uma declaração de MC Carol resume o clamor da galera: "Sabe qual é nosso crime? Ganhar dinheiro falando sobre a realidade da favela, sendo preto".

O embate com a Justiça começou com uma denúncia apresentada pelo promotor Sauvei Lai em 28 de outubro de 2015. O funkeiro era só o antepenúltimo numa lista de 37 nomes, a maioria ladeada pelos respectivos apelidos, do Peladinho ao MK da Rajada.

Alguns eram apontados como traficantes. Ao "35º denunciado" sobrou a acusação de servir ao crime "organizando bailes clandestinos nas comunidades e produzindo músicas ('funks') enaltecendo o tráfico de drogas".

Segundo Billi Barreto, um dos seus três empresários, o DJ chegou a ficar seis meses detido, pulando de prisão em prisão, inclusive no complexo de Bangu e sem ter ideia do que estava fazendo ali. "Ele só soube da acusação no dia da audiência, quando a juíza o absolveu."

Isso em 2016, quando um tribunal de primeira instância decidiu que ele era inocente. O Ministério Público do Rio de Janiero recorreu da decisão, e no dia 15 de março a segunda instância concordou que Rennan era parceiro de criminosos.

Na apelação, a Promotoria encorpou o caso contra Rennan com uma foto que ele mesmo publicou na internet, com uma arma na mão (de brinquedo, feita de madeira e fita isolante para o Carnaval, segundo a defesa), e testemunhas que o associam ao comércio de drogas.

Uma delas diz que o jovem era olheiro de traficantes, usando redes sociais para alertá-los sobre "movimentação policial" na área. Outras afirmaram que ele "divulgava músicas para o tráfico local".

Há uma semana, o "Fantástico" exibiu um vídeo que integra investigação de ilicitudes na Gaiola. Nele, o DJ troca uma ideia com traficantes armados e chega a beijar a mão de um deles.

Amigo de Rennan e ativista do complexo do Alemão, onde edita o jornal A Voz das Comunidades, Rene Silva endossou a campanha #DJNãoÉBandido após a veiculação da reportagem na Globo. Sobre postagens antigas do artista falando de batidas policiais: "Todo mundo na favela, que só quer se proteger, saber se dá pra subir a rua, voltar pra casa do trabalho, virou olheiro por falar quando tem operação?".

Outro chapa dele e ativista respeitado, Raull Santiago conta que seu depoimento foi essencial para inocentar Rennan em seu primeiro julgamento.

Claro que muitos dos garotos com quem o DJ cresceu "se enveredaram por esse caminho [do tráfico]", e se "passassem na rua, o Rennan ia dar um salve, sabe quem são todos", diz o empresário Billi. "Mas o relacionamento é zero."

Por ora ele está solto, já que a ordem para sua prisão ainda não foi expedida. Seus advogados pediram um habeas corpus que ainda precisa ser analisado pelo Supremo Tribunal Federal, a maior das cortes do país. Sem feedback positivo, ele vai preso assim que o mandado para encarcerá-lo sair.

Billi diz que ele está "muito abalado psicologicamente, porque estava no momento de maior ascensão, depois de sofrer tanto no movimento, dez anos só levando pau".

O 150BPM nem sempre encontrou portas abertas no funk, e Rennan, com 11 anos de carreira, passou anos tocando por cachês de R$ 50 (0,25% do passe atual: R$ 20 mil) e ouvindo da velha escola do funk que sua geração seria "assassina do tamborzão".

"Hoje Eu Vou Parar na Gaiola", parceria com MC Livinho que fala sobre pôr "só putaria pra essas menina dançar", avizinha as 200 milhões de visualizações no YouTube.

Em 2017, já em trajetória ascendente, Rennan disse ao portal da produtora de funk KondZilla que o problema do Rio é ter talento de sobra e investimento de menos. "Tem MC carioca estourado que não tem um videoclipe. Porra, isso não existe. Além de que, tem empresário aqui que suga o MC e gasta todo o dinheiro na gandaia, sobe o morro e torra tudo em bebida e piranha."

Pai de Bryan, 3, e Rennan Felipe, 2 (de mães diferentes), desde 2018 o artista mora com a namorada, Lorena, 18. Dividem uma casa bacana na Penha que, segundo seu empresário Billi, "não é na favela, é na pista, no asfalto".

Desceu para a pista, subiu na vida. Agora Rennan tem um Honda Civic branco (de R$ 90 mil para cima no mercado) e só toma uísque escocês, o Buchanan's (uma edição 18 anos pode sair a R$ 1.000). Contratou até um amigo cuja função é calibrar a dose com Red Bull e água de coco: o Leo Degustador. Na folha de pagamento há ainda 24 profissionais, dos seguranças à equipe de dançarinos, com quatro meninas e dois anões.

Com o revés judicial, Rennan cancelou cerca de 15 shows. Ainda não suspendeu as turnês marcadas no meio do ano para Europa e Estados Unidos. Seus advogados esperam até lá convencer o Supremo que #DJNãoÉBandido.

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