Prisão do DJ Rennan da Penha reabre debate sobre atrito entre funk e polícia

Funkeiro é um dos criadores do Baile da Gaiola, um dos mais populares do Rio de Janeiro

Anna Virginia Balloussier Júlia Barbon
Rio de Janeiro

​Funk, crime e preconceito são palavras que se embaralham mais uma vez no debate que se formou depois que a Justiça do Rio de Janeiro mandou prender o DJ Rennan da Penha, 25, um dos criadores do Baile da Gaiola, que leva milhares de fãs a uma favela da zona norte carioca.

Acusado de ser olheiro do tráfico e de fazer festas que exaltam o crime, o funkeiro foi inocentado pela primeira instância há três anos, quando ainda despontava das vielas do complexo da Penha. Concluíram à época que as provas eram insuficientes.

O veredito foi revertido pela segunda instância no ano passado e, no último dia 15, saiu a determinação da prisão do funkeiro que, a essa altura, já acumula parcerias com gente graúda do meio, como Ludmilla e Nego do Borel. Com MC Livinho, fez o hit “Hoje Eu Vou Parar na Gaiola”.

A condenação se sustenta em uma testemunha que disse que ele “é conhecido como DJ dos bandidos” e em outra que cita mensagens de Rennan do tipo “o Caveirão está subindo pela rua X”. Também usa uma imagem em baixa qualidade dele empunhando uma arma —que a defesa diz ser de madeira, em um Carnaval.

Os argumentos (ou a suposta falta deles) foram vistos por muitos como criminalização do funk, das favelas e dos negros. Fãs chegaram a marcar um ato cultural com mais de 16 mil interessados nesta quinta no Circo Voador, famosa casa de shows do Rio de Janeiro.

"Vejo como uma prisão política. É fácil criminalizar um baile, uma pessoa, e não investir na cultura da favela. O baile gira toda a economia daquele lugar, e ninguém fala disso. Hoje a principal política pública que chega ali é pensada pela secretaria de Segurança", critica Raull Santiago, ativista e amigo de Rennan.

A Ordem dos Advogados do Brasil divulgou nota de repúdio: "Nos idos do século 20", a repressão ao samba, ao Carnaval e aos “batuques de candomblé e pernadas de capoeira” foram substituídos pelo funk no terreno das manifestações culturais marginais, ao lado do rap, diz o órgão.

Antes dos funkeiros veio o Planet Hemp, que teve seus membros presos em 1997, e Bezerra da Silva, que cantava “vou apertar, mas não vou acender agora”. Muitos, a certa altura, enquadrados por exaltar o uso das drogas.

A história do funk coleciona casos como esses. Um deles é o do MC Frank, mais de uma vez na reta da Justiça sob acusação de apologia do crime. “Se Chico Buarque pode, por que não eu?”, já chegou a questionar a defesa do cantor.

Em 2005 a encrenca foi com sua música “Bonde do 157”, de versos como “o Bonde do Boréu só quer carro importado/ Audi, Civic e Honda, Citroën e o Corolla/ se tu tentar fugir, pá pum/ tirão na mola”. A polícia indiciou Frank e outros 12 funkeiros do “proibidão”.

O 157 vem do artigo do Código Penal que trata de roubo. Também batizou Rogério Avelino da Silva, o Rogério 157, condenado a 32 anos de prisão e pivô da guerra que estourou na Rocinha em 2017.

Foi por causa dele que o irmão de Frank, o MC Tikão, também rodou naquele ano, acusado de ajudar o traficante a fugir da Rocinha durante uma batida policial. Acharam Tikão numa casa de dois andares com piscina não muito longe da favela.

Os irmãos protagonizaram outro choque entre cultura do funk, mundo do crime e autoridades há nove anos, quando foram detidos por apologia do tráfico e associação para o tráfico. Na cadeia, fizeram rimas sobre a própria situação —“acordei bem cedo/ tava um lindo dia/ e quem bateu na minha porta/ foi a corregedoria”.

Disse Frank na delegacia: “Tem pessoas que nascem na Barra [da Tijuca, bairro abastado], falam de surfe, da praia. A gente é do complexo do Alemão. O que vemos dentro da comunidade é a criminalidade”. Ou seja, um funkeiro apenas relata sua realidade, por mais feia que ela seja.

Segundo a delegada do caso, Helen Sardenberg, não era disso que se tratava. “Cantar a realidade é dizer que existem traficantes. Outra coisa é ao final do show estar com aqueles traficantes”, diz. “Eles iam ao baile para arrecadar um montante para o tráfico e enaltecer tal chefe. Além das letras, tínhamos interceptações que mostravam isso.”

Outro preso por suspeita de ligação com uma facção criminosa foi o MC Colibri, em 2006. Na peça de acusação, policiais usaram uma comunidade no Orkut, finada rede social, que exaltava o Terceiro Comando Puro e também o MC. A página era cria de um jovem de 16 anos.

O cantor ficou famoso por “Quer Bolete?” (“pequena não parava de chorar/ me pedindo a chupetinha pra você chupar”). Mas a polícia usou um funk em que ele ameaçava um traficante traidor que, se “não sai por bem, sai na bala”. Da prisão Colibri só saiu em 2009.

No caso de Rennan da Penha houve “uma estratégia mais perversa”, diz Tiago Prado, vulgo Caneta de Ouro, compositor descrito por asseclas do funk como “enciclopédia da causa”. Em vez de fazer apologia, a polícia sustenta que ele tem associação com o tráfico.

Nessa narrativa, o Baile da Gaiola seria um shopping de drogas, e Rennan tem responsabilidade por isso. Quem vai lá relata que é comum ver homens com fuzis circulando. Há um ano, tiros (não se sabe de onde) provocaram um corre-corre que deixou mais de 70 feridos.

A festa começa na noite de sábado e só termina no domingo. Uma edição chegou atrair 20 mil pessoas —e também a fúria de moradores— justamente no aniversário de Rennan, coqueluche de jogadores de futebol como Adriano Imperador, que na Gaiola bebia uísque com guaraná.

O evento está suspenso, porém, desde que uma operação da polícia para acabar com a farra deixou quatro moradores baleados, incluindo dois idosos, em fevereiro. No ano passado, a polícia começou a investigar se o baile servia de ponto de encontro para líderes do tráfico.

Em São Paulo, o então prefeito João Doria, três anos atrás, definiu os pancadões como “um cancro que 
destrói a sociedade”
, sob a guarda do PCC. Em 2017, um projeto de lei tentou descrever o gênero como “um crime de saúde pública contra crianças, adolescentes e a família”, mas a ideia foi rejeitada por comissão.

Até agora, Rennan da Penha não foi detido, porque a ordem de prisão ainda não foi expedida. Ele vai tentar mais um recurso ao Supremo Tribunal Federal antes de se apresentar, segundo um de seus três empresários, Bili Barreto. As primeiras tentativas foram negadas, já que o DJ foi condenado em segunda instância.

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