Descrição de chapéu Artes Cênicas

Os Satyros comemoram 30 anos com nova peça e a reabertura de cinema

Enraizada na praça Roosevelt, companhia marcou a cena teatral de São Paulo

Espetáculo Mississipi, realizado pela Cia Os Satyros.  >>> Foto por AndreStefano.com (11) 95218.7116

O ator Eduardo Chagas em cena da peça ‘Mississipi’, produção de Os Satyros Andre Stefano/Divulgação

São Paulo

Quando encenou "Na Selva das Cidades", no Teatro Oficina, Lina Bo Bardi levou para dentro do teatro os escombros do bairro do Bexiga demolido pela construção do Minhocão.

Da mesma forma, os Satyros, companhia que passou boa parte de seus 30 anos enraizada na praça Roosevelt, no centro paulistano, passou as últimas décadas metabolizando a destruição e a vida marginal de seus arredores em espetáculos contundentes, que marcaram a cena teatral da cidade.

Cena do filme 'A Filosofia na Alcova'
Cena de 'A Filosofia na Alcova' - André Stefano/Divulgação

Agora, eles celebram o aniversário com a estreia de uma nova peça, "Mississipi", e a reabertura do antigo Cine Bijou, sala dedicada à exibição de filmes de arte, na praça onde tudo começou.

Faz alguns meses que o diretor e dramaturgo Rodolfo García Vázquez, diretor do grupo Os Satyros, não vê Mississipi passar pela rua.

Mas quem seria Mississipi, o sujeito desconhecido que acabou dando nome à peça que o grupo estreou no último fim de semana no Sesc Consolação para celebrar os 30 anos da companhia?

Seria um morador de rua que viveu, ou talvez ainda viva, pela praça Roosevelt, no centro de São Paulo, circulando no entorno da sede da trupe.

 

"Não sei dizer onde ele está. Já faz um tempo que não o vemos", diz Vázquez, um dos fundadores do grupo ao lado do ator e diretor Ivam Cabral, que atua no espetáculo.

"A gente achou curioso existir um Mississipi na praça Roosevelt", resume, ao falar sobre essa livre associação entre os nomes de um presidente dos Estados Unidos —Franklin Roosevelt— e um dos 50 estados americanos.

Mississipi, além de ter emprestado o nome à peça, é um dos personagens. Ele narra a história dos últimos 20 anos de atuação dos Satyros, período em que a companhia se instalou naquele endereço depois de surgir em Curitiba.

Este repórter esteve na peça de estreia da sede atual, no ano 2000, quando os Satyros montaram "Retábulo da Avareza, Luxúria e Morte", criando uma relação de cabaré entre palco e plateia, para um público ainda muito pequeno.

Ao longo dos anos, a companhia foi expressando uma forma de atuação mais ampla. A Roosevelt era uma praça abandonada que passou a ser ocupada por performances, pelos frequentadores dos Satyros e por um festival, o Satyrianas, que fazia artistas e plateia virarem noites naquele pedaço da cidade, sem medo da criminalidade, do tráfico e da violência que se via ali.

Foi um movimento espontâneo, com poucos recursos, sem cachês para os atores.

Havia um outro teatro na vizinhança, com algum público, onde hoje está o Teatro Studio Heleny Guariba. Em 2006, Os Satyros ganharam a companhia dos Parlapatões, grupo de comediantes já conhecidos que também abriram um espaço na praça Roosevelt.

Ao atrair movimento, esse conjunto de espaços culturais acabou chamando a atenção do poder público. O então governador José Serra se encantou com os espetáculos dos Satyros e os convidou a participar da criação da SP Escola de Teatro, que ocupa um prédio na mesma praça.

"Mississipi" conta essa trajetória procurando a perspectiva dos moradores de rua, dos marginais, que são interpretados em cena. Há menções a "pedofilia de padres, a suicidas, celebridades que transam com pessoas em situação de rua", conta Vázquez. E, em 2009, ocorreu uma virada, e a revalorização da praça ganha contornos de gentrificação.

A peça passa então a falar dos ataques verbais e virtuais que as companhias de teatro, e também os bares que surgiram ali, começam a receber de um perfil de morador que está lá "há sete, oito anos", segundo o diretor.

Em 2012, a praça foi reinaugurada, com novo projeto. Os skatistas também dominaram a paisagem de cimento e pouco mato, entrando em conflito direto com alguns passantes.

 

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.