Theatro São Pedro abre temporada com ópera de Mozart

'La Clemenza di Tito', que estreia nesta sexta (26) e fica em cartaz até 5 de maio, é 1º título da programação ainda incerta

Sidney Molina
São Paulo

​Em 2018, duas produções da temporada de óperas do Theatro São Pedro ficaram entre as três finalistas do Prêmio Concerto de Música Clássica, e "Sonho de Uma Noite de Verão", de Benjamin Britten, foi a grande vencedora da categoria.

Apesar do orçamento enxuto, da orquestra pequena (integrada por jovens) e da ausência de um coro fixo na casa, o teatro da Barra Funda tem se mostrado criativo na escolha dos títulos, o que aponta uma proposta curatorial realista, diversificada e com personalidade.

A ameaça de cortes orçamentários drásticos na Cultura estadual paulista atinge diretamente a sobrevivência de um organismo como o Theatro São Pedro, cuja tradição operística está bem inserida na cidade, contando com grande afluxo de público.

Se a indecisão sobre o futuro ainda não permite ao São Pedro anunciar a temporada completa (o que é bastante embaraçoso para qualquer planejamento artístico profissional), foi possível, entretanto, confirmar a realização de seu primeiro título, a saber, a ópera "La Clemenza di Tito" (a clemência de Tito), de Mozart (1756-1791).

A obra estreia nesta sexta-feira (26) e fica em cartaz até 5 de maio. Desde que Monteverdi apresentou em Veneza "A Coroação de Popeia", em 1643, o drama musical cantado passou a incorporar temas históricos.

É o caso de "La Clemenza di Tito", escrita por Mozart em seu último —e superprodutivo— ano de vida. A ópera estreou em 6 de setembro de 1791 em Praga; no dia 30 do mesmo mês, "A Flauta Mágica" estrearia em Viena; poucos meses depois, em 5 de dezembro, o compositor morreria (tinha 35 anos de idade).

A ação —que terá direção de Caetano Vilela na montagem paulista— se passa na Roma governada pelo imperador Tito Vespasiano, no ano 79 da nossa era. Uma das características da montagem de Vilela será o uso cênico de andaimes e outras estruturas que frequentemente amparam os monumentos históricos antigos nos dias de hoje.

Na história, Vitelia (que será interpretada pela soprano Gabriella Pace) deseja casar com o imperador Tito (o tenor Caio Duran), mas ao se sentir menosprezada trama a morte do soberano, encarregando para tal Sesto (personagem masculina que será interpretada pela mezzo soprano Luisa Francesconi).

Sesto (que ama Vitelia) tem uma irmã, Servilia (a soprano Marly Montoni), que, inicialmente escolhida por Tito para ser sua imperatriz, confessa estar apaixonada por Annio (outra personagem masculina vivida por uma cantora, a mezzo Luciana Bueno).

A trama de assassinato falha, Sesto é descoberto e condenado (momento em que entra em cena Publio, a cargo do baixo-barítono Saulo Javan) e Vitelia passa a viver com culpa e medo de ser descoberta —ainda mais porque, enfim, Tito a escolhe para esposa. Não seria o caso de contar o final se o próprio título não configurasse, em si, o spoiler.

Mas, muito mais importante do que a história, é o modo de contá-la, e esse modo é a música (dirigida pelo maestro alemão Felix Krieger).

Mozart não apenas escreve belas árias (como "Parto, Parto", cantada por Sesto em diálogo com um virtuosístico clarinete, ou "Non Più di Fiori", de Vitelia), mas também duetos e trios. Ele invariavelmente aproveita a ocasião para que o desenvolvimento musical possa adicionar e complementar sentidos.

Diferentemente de "A Flauta Mágica", cantada em alemão, "La Clemenza" segue a tradição das "óperas sérias" com texto em italiano (uma informação importante para quem nunca se aventurou a assistir a uma ópera ao vivo é que sempre há legendas).

Se no ano passado as óperas contemporâneas foram mais bem-sucedidas do que as incursões barroco-clássicas do Theatro São Pedro, o título de estreia deste ano parece estar bem amarrado, tanto em concepção como na escolha do elenco. E nada como ter o próprio Mozart como antídoto para ajudar a defender a cultura em tempos de crise.

Teatro

La Clemenza di Tito

Ópera
até R$80

A ópera, uma das últimas criações de Mozart, abre a temporada do Theatro São Pedro. Na trama, dividida em dois atos e ambientada na Roma de 79 d.C., uma mulher preterida como esposa do imperador Vespasiano começa a conspirar contra ele. A direção musical é de Felix Krieger.

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