Festival digital ativa os sentidos com instalações imersivas e interativas

File, que chega à 20ª edição com inteligência artificial, robôs e realidade virtual, nasceu no disquete em 2000

Clara Balbi
São Paulo

Quinze iMacs emprestados por um gerente da Apple, dispostos em círculo em uma mesa no MIS (Museu da Imagem e do Som), em São Paulo, formavam a primeira edição do Festival Internacional de Linguagem Eletrônica, o File, em 2000.

Nas telas, experimentos em HTML, linguagem usada para desenvolver sites, e animações em Flash armazenados em disquetes tiveram que ser instalados um a um pelos organizadores do evento —na época, o MIS ainda não tinha internet.

Quase duas décadas depois, a estrutura do festival pouco remete àquela do início do milênio. Neste ano, o File abre sua 20ª edição no dia 26 de junho, no Centro Cultural Fiesp, na avenida Paulista.

Se na época as obras exibidas ficavam restritas à tela do computador, hoje o festival é reconhecido justamente pelas instalações imersivas e interativas —e também por suas enormes filas, que tornaram a mostra a 11ª mais visitada do mundo no ano passado, segundo o The Art Newspaper.

Nas instalações, os visitantes já puderam ser embalados a vácuo, enxergar versões de si mesmos no sexo oposto e ter o corpo massageado por um robô. E, apesar de as obras que usam realidade aumentada e inteligência artificial serem cada vez mais numerosas, Paula Perissinotto, fundadora do festival com Ricardo Barreto, ressalta que a arte eletrônica que embasa o evento não é sinônimo de high-tech.

Ela dá como exemplo uma das obras mais vistosas do File neste ano, "A Sense of Gravity" (uma percepção da gravidade), do holandês Teun Vonk. Uma espécie de cabana suspensa com cerca de 80 m², ela usa recursos mecânicos para simular o movimento de um diafragma humano e, com isso, induzir visitantes a experimentar novas sensações.

Mais dependente do digital, outra que promete virar hit é "Scope", da americana Kristin McWharter, primeira obra de realidade virtual compartilhada a integrar o festival. Nela, dois óculos, posicionados cada um em uma extremidade de uma haste, reproduzem a sensação de estar embaixo da água e fazem com que as ações de um participante impactem os movimentos do outro, e vice-versa.

Enquanto elas giram em torno do tema "inovações", que guia a edição deste ano, outros dois trabalhos entre os cerca de 250 reunidos na programação preferem olhar o passado, prestando homenagem a ícones da história da arte que fizeram aniversário em 2019: a escola de design alemã Bauhaus, que completou um século desde a sua fundação, e Leonardo da Vinci, morto há 500 anos.

O tributo ao segundo é uma animação. De autoria do italiano Rino Stefano Tagliaferro, a obra imagina os movimentos dos apóstolos no afresco "A Última Ceia".

Não é a única obra de arte que ganhou vida nas mãos do diretor. Desde "Beauty", curta viral em que ele animou dezenas de telas, do Barroco ao Renascimento, Tagliaferro vem se especializando em produzir releituras de quadros clássicos. Ele afirma que a estratégia ajuda a popularizar esses trabalhos entre os jovens e as novas gerações.

Mais do que democratizante, Perissinotto vê na interação entre arte e tecnologia um lugar de vanguarda na produção de arte contemporânea. "Por causa de seu caráter experimental, são obras muito ricas criativamente."


File

Centro Cultural Fiesp (av. Paulista, 1.313, Bela Vista). Ter. a sáb., 10h às 22h; dom., 10h às 20h. De 26/6 a 11/8. Grátis

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