Mostras marcam 50 anos de Stonewall e comprovam impacto da revolta na arte

Exposições em Nova York vão além dos artistas LGBT e abrangem parte de movimento dos direitos civis

‘George in the Water’ (1977), fotografia de David Armstrong exposta em Nova York 
‘George in the Water’ (1977), fotografia de David Armstrong exposta em Nova York  - Divulgação
Nova York

Entre as muitas exposições que marcam os 50 anos de Stonewall em Nova York, a maior e de mais repercussão é “Art After Stonewall, 1969-1989”, a arte depois da revolta histórica.

É dividida em duas partes, concentrando as décadas, a primeira no apertado museu Leslie-Lohman, identificado com a produção LGBT, a segunda na Grey, ampla galeria da NYU, universidade bem próxima ao bar Stonewall.

Os anos 1970 trazem a produção mais imediata, engajada —e de enraizamento menor. Já a Grey, que vem ganhando mais atenção, dedica dois andares sobretudo aos anos 1980, com produção não vinculada necessariamente a Stonewall, mas estimulada por seu impacto.

E vai além dos artistas LGBT, para abranger aqueles do que se chamou de cena queer. Toda uma ala da mostra se dedica a acompanhar o surgimento do conceito queer como forma de resistir à categorização dos gêneros.

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'I Am Out Therefore I Am' (1989), de Adam Rolston, na exposição 'Art After Stonewall' - Adam Rolston

De maneira geral, a exposição não se restringe à arte, avançando por fotojornalismo, criação gráfica, televisão, jornais, em suma, mídia. Também algum registro de performance, característica do entorno do Washington Square no período. Na explicação do organizador, Jonathan Weinberg, “práticas cruciais da cultura queer foram criadas fora dos limites das instituições do mundo da arte”, daí a opção.

A narrativa buscada na mostra vai dessa afirmação queer, passa pelo choque aos poucos global da Aids, sobretudo entre artistas, e termina com um início de assimilação das criações e das próprias pessoas pela sociedade americana.

Vendo de fora, porém, o que se tem é um arco dramático com início conflituoso e politicamente agressivo e com seu auge, no fim dos anos 1980, na pandemia da Aids. O corte final em 1989 soa abrupto, como uma história sem fim.

E o fato é que muito da produção mais significativa de então se vincula à luta contra a Aids, cujo terror foi sendo derrotado só nas décadas seguintes —e ainda assombra.

A curadoria de “Art After Stonewall” é a primeira a alertar que a revolta deve ser relativizada, como ponto de partida artístico. Uma outra exposição busca aprofundar a consciência factual sobre o episódio, para além da marca quase turística que ganhou.

O bar é hoje um ponto de convergência para visitantes, muitas famílias, e até para campanha eleitoral. O democrata Joe Biden, criticado por ações supostamente preconceituosas contra mulheres e negros, acaba de passar por lá.

Bandeiras com as cores do arco-íris ocupam a fachada da biblioteca pública de Nova York - Jeenah Moon/Reuters

A exposição de caráter mais histórico é “Love & Resistance: Stonewall 50”, na Public Library, a biblioteca pública de Nova York, que está com a fachada ocupada por bandeiras com as cores do arco-íris.

Seu propósito é mostrar o que veio antes, em grupos já organizados, como Mattachine Society, e em dezenas de fanzines, e a amplitude nacional e por fim global que o movimento alcançou depois.

Por exemplo, em fotos pré-Stonewall, pessoas que se acariciam estão de costas, porque a lei punia a homossexualidade com prisão. Depois, obras de fotógrafos como Diana Davies se enchem de sorrisos.

Pelo olhar da Public Library, Stonewall é um marco, mas também uma parte de um movimento de direitos civis de décadas, paralelo àqueles de negros e mulheres.

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