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'Que fase incrível, e que quase desastre foi aquilo', diz Elton John sobre o passado

Fase de transformação do músico britânico é mostrada no filme 'Rocketman'

Melena Ryzik
Nova York | The New York Times

​Elton John não é saudosista. Tampouco Bernie Taupin, seu colaborador musical há mais de 50 anos, autor das letras que inspiram as melodias de Elton. “Acho que uma das coisas que nos motiva há tantos anos é o fato de que nunca olhamos para trás”, disse Taupin.

Mas agora o mundo pode assistir à história deles, graças a “Rocketman”, a fantasia musical que acompanha a transformação de Elton, do menino-prodígio no piano Reginald Dwight, nascido num vilarejo nos arredores de Londres, a showman bombástico (representado por Taron Egerton) com todo um repertório de sucessos mundiais.

Elton conheceu Taupin (encarnado por Jamie Bell no filme) por acaso, quando os dois responderam a um anúncio publicado por uma revista musical britânica.

Bernie Taupin e Elton John na estreia de 'Rocketman' no Festival de Cannes, em maio - Loic Venance/AFP

Dirigido por Dexter Fletcher e coproduzido por David Furnish, o marido de Elton, o filme não esconde a realidade da ascensão de Elton, seus traumas infantis e suas posteriores dependências químicas. “Nunca fui uma pessoa de meias medidas”, diz Elton, “e como vocês podem ver, isso me levou a ter muitos problemas.” Elton está sóbrio desde 1990.

Pelo fato de mostrar sua vida como homem gay, o filme foi censurado na Rússia e em Samoa, algo que Elton lamenta. Mas ele explicou: “Eu não queria deixar nenhuma das cenas de sexo de fora, porque elas são muito importantes. Foi por isso que optamos por um filme proibido para menores de 17 anos. ‘Rocketman’ não é ‘Bohemian Rhapsody’”, também dirigido em parte por Fletcher. “Minha vida não é uma vida própria para menores.”

Aos 72 anos, Elton ainda é artisticamente engajado. Está no meio de uma turnê de despedida e ainda está compondo para o cinema e o teatro (o remake de “Rei Leão”, uma versão musical de “O Diabo Veste Prada”). Ele divide seu tempo entre várias casas, com David Furnish e os dois filhos do casal, de 8 e 6 anos. O mais velho é louco por futebol, o menor quer ser cantor: “Ele já conhece toda a letra de ‘Old Town Road’ –as duas remixagens”.

Em entrevistas telefônicas separadas —Taupin, 69, estava em sua casa na Califórnia, enquanto Elton John estava em Copenhague, numa escala de sua turnê—, os dois falaram de como foi transpor suas vidas para o cinema. Seguem extratos pinçados das duas conversas.

É difícil para você assistir ao filme?
Elton John - A primeira vez que assisti ao filme foi em janeiro ou fevereiro, uma cópia ainda não acabada, e foi dessa primeira vez que me emocionei mais, porque eu não sabia o que esperar. O filme teve um impacto enorme sobre mim, especialmente as partes sobre minha família e sobre Bernie. Ele me deixa feliz e me deixa triste. Acho que em última análise o filme trata de redenção e de como qualquer pessoa pode se redimir, se tentar.

Quando você primeiro soube do projeto?
Bernie Taupin - Acho que seria preciso voltar atrás pelo menos cinco anos, mas já que o tempo e o espaço não são meus amigos de verdade é um pouco difícil definir. Enviaram-me um roteiro inicial e, para falar a verdade, não gostei muito. Havia alguns palavrões que me deixaram incomodado –eu não sou uma pessoa que usa linguagem chula. Eles se mostraram muito abertos às minhas sugestões. Eu queria que meu personagem fosse o mais fiel à realidade quanto possível. Fiquei um pouco incomodado com a ordem (não cronológica) das canções. Não senti 100% de certeza do que eles estavam fazendo. A palavra “fantasia” era mencionada a todo momento.

Quando foi que você concordou com a visão deles?
Taupin - Quando vi o produto final.

Elton, você passou o início de sua carreira escondendo sua identidade e seus demônios. Foi uma catarse ver tudo isso dramatizado tão abertamente?
Elton - Claro que sim. É difícil assistir às coisas pelas quais você passou e que você fez a si mesmo, mas acho catártico. Desde que fiquei sóbrio, sempre tentei ser o mais honesto possível. Não vejo sentido em suavizar nada. Foi isso o que aconteceu, foi assim que eu me comportei. Esta é uma história realmente triste de um cara que estava tentando confrontar seu passado, mas era muito famoso. Eu me sentia em casa sobre o palco; fora do palco, não.

O filme poderia ter começado com sua autoinvenção como artista. Para que incluir as partes mais dolorosas de sua infância?
Elton - Minha infância realmente moldou o que eu me tornei como artista. Eu estava determinado a mostrar a meu pai o que eu era capaz de fazer, mostrar que eu poderia fazer sucesso e poderia chegar a isso da minha maneira. Isso me moldou e me tornou o artista que sou. Eu não precisava provar nada para mim mesmo –só queria provar alguma coisa a ele.

Cresci em um ambiente de enorme hostilidade entre meus pais. Tive anos para refletir sobre isso e concluí que, basicamente, eles não deveriam ter se casado. Eles não se davam bem, eram muito infelizes juntos, e o resultado é que eu sofri com isso, porque eles discutiam sobre mim. Era a década de 1950. O divórcio era visto como um escândalo, e assim eu estava ali, preso no meio de duas pessoas muito infelizes. Hoje, olhando para trás, eu não culpo nenhum dos dois. Afinal, eles tiveram um casamento sem amor. O bom é que, quando se casaram de novo, tiveram matrimônios muito felizes. E fico muito feliz por eles.

John Reid, o primeiro empresário e namorado de Elton, é representado (por Richard Madden) como um manipulador astuto. Bernie, você confiou nele desde o início?
Taupin Eu não tinha razão para não confiar. John era malandro. Eu não tinha antipatia por ele; não sentia muita amizade por ele, mas, com o passar dos anos, fui sentindo certa repulsa pelo modo como ele agia com as pessoas. Ele era uma espécie de oposto absoluto do que Elton precisava, na minha opinião. No começo ele pode ter feito algumas coisas boas para Elton. Com o tempo, o diabinho pousado sobre seu ombro sussurra em seu ouvido: “Você poderia ter mais do que isso se quisesse”, e acho que foi isso o que aconteceu. Quando seu empresário está vivendo melhor que você, você percebe que há algo de podre no reino da Dinamarca. [Em 1998 Elton John processou John Reid, alegando que este lhe roubara dezenas de milhões de libras. Mais tarde Reid fechou um acordo judicial com Elton e lhe pagou vários milhões de libras.]

John Reid já assistiu ao filme?
Elton Acho que sim. Não sei o que ele pensou. O filme é bastante contundente, mas foi como nosso relacionamento acabou ficando.

Você acabou ficando amigo de Taron. Você participou da escolha de Matthew Illesley e Kit Connor, que representaram você como criança e adolescente?
Elton Não participei de nada na escolha do elenco. Os dois Reggies menores foram fantásticos —o pequeno Matthew, além disso, se parece comigo. Quando vejo Kit com cabelo tipo Elvis Presley, penso: "Ah, se eu pudesse ter feito isso! Mas jamais teriam me deixado." A primeira vez que vi [uma foto de] Elvis Presley, pensei que ele era do espaço sideral. E ele mudou minha vida para sempre. Eu queria sapatos Winklepicker (de bico fino e pontudo), queria uma calça skinny. Mas, infelizmente, não ganhei nada disso.

Onde estão seus figurinos agora?
Elton Estão num armazém em Londres. Alguns eu vendi ou doei a museus, mas a maioria ainda está armazenada em um arquivo, incluindo o figurino de Pato Donald (usado numa apresentação de 1980 no Central Park).

Você vai lá de vez em quando?
Elton De jeito nenhum [ri]. Eu não poderia imaginar algo pior para fazer. Meu Deus, não mesmo.
É muito estranho, porque eu raramente penso na minha vida passada, mas tive que fazer isso para este filme, é claro. Olho para trás e penso, meu Deus, que vida eu tive ali, por 20 anos da minha vida –só 20 anos da minha vida!—, que fase incrível, e que quase desastre foi aquilo. E agora não preciso mais fazer aquilo. Não preciso viver aquela vida. E eu sobrevivi a ela.

Você acha que é possível ser um grande artista sem ter sofrido ou superado traumas na infância?
Taupin Eu teria tido que ter feito isso para saber. Para falar a verdade, nós dois passamos por traumas tremendos na vida. Não consigo pensar em nenhum artista realmente importante que não passou. Também tive minhas dependências químicas – eu não fui nenhum príncipe de conto de fadas. Lamentavelmente, alguns de nós não conseguimos sair dessa inteiros. Elton teve sorte incrível por ter conseguido cortar com aquilo na hora certa.

Elton Minha carreira cresceu tão rapidamente de 1973 em diante –eu fazia dois álbuns por ano, singles diferentes, lados B, fazia turnês, cantava no rádio. Eu estava numa viagem, mas não era uma viagem de drogas –eu era movido a adrenalina. Quando você faz isso, cedo ou tarde você desaba ao chão e se queima, e infelizmente as drogas ajudaram a me derrubar. Dois dias antes de cantar no Dodger Stadium [em 1975, em concertos com lotação esgotada], eu estava fazendo lavagem estomacal.

Como você conseguiu continuar subindo ao palco e indo para o estúdio em sua fase de dependência de drogas? Como conseguiu continuar criativo?
Elton Foi justamente isso que me conservou vivo. Durante os momentos mais difíceis, eu continuei a trabalhar. Eu não me fechei e fiquei apenas usando drogas, que é algo que muitas pessoas fazem –elas somem por dois ou três anos. Eu poderia dizer que inicialmente foi a música que me salvou –a parte mais incrível de minha infância foi a música. Mais tarde, quando cheguei à parte difícil da minha fama, ainda foi a música que me salvou, porque continuei a trabalhar e a fazer discos. Se não tivesse continuado, eu não estaria aqui agora, conversando com você.

Bernie, quando Elton foi para uma clínica de recuperação, em 1990, você achou que ia funcionar?
Taupin Achei que sim, realmente, porque com Elton é tudo ou nada, o tempo todo. Quando ele se decide a fazer alguma coisa, nada consegue impedir aquela transformação. Aquela cena no filme em que eu o visito [na clínica de reabilitação] e ele está passando pano no chão —eu me lembro de como ele curtia lavar sua própria roupa, passar pano no chão, limpar a privada. A partir do momento em que ele estava naquela situação, ele aderiu 100% a ela, a abraçou totalmente. É uma prova do caráter dele.

Que tipo de anotações vocês fizeram para que o relacionamento entre Elton e Bernie fosse transmitido fielmente na tela?
Elton Acho que o jeito como é mostrado é bem fiel. [Depois de fazer sucesso] vivemos nossas vidas separadamente, e acho que foi isso que nos manteve juntos. Porque ele era o caubói tipo Brando e eu era o sujeito que curtia comprar objetos de porcelana. O que realmente me emocionou no filme é que —meu Deus, eu o adoro, e que história é a nossa, que história absurda, de destino, de acaso feliz. De todos os envelopes [com trabalhos de letristas] que poderiam ter me dado, me deram o dele. É muito estranho e maravilhoso, e o jeito como escrevemos canções também é estranho. Não ficamos na mesma sala. Eu não tenho uma melodia para começar –me inspiro nele. Eu nunca quis mudar isso. E encaro isso como uma dádiva, de Deus ou seja quem for.

Taupin Eu não sinto necessidade de tentar entender por que funciona. Nunca questionamos isso. Simplesmente continuamos a fazer.

Tradução de Clara Allain

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