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Artes Cênicas

Rebelião do musical 'As Cangaceiras' derruba e castra o cangaço idealizado

Canções originais são interpretadas por praticamente todo o elenco de 13 atores do espetáculo

Nelson de Sá

teatro As Cangaceiras

  • Quando Qui. a sáb.: 20h. Dom.: 19h. Até 4/8
  • Onde Teatro Sesi - av. Paulista, 1.313, tel. (11) 3322-0050
  • Preço Grátis

Desde logo, o que mais chama a atenção no musical "As Cangaceiras" é o texto de Newton Moreno. O espetáculo é de certa maneira uma extensão de seu trabalho na companhia Os Fofos Encenam, também ao lado da atriz Carol Badra.

O dramaturgo reproduz o que fazia no teatro de grupo, com risco e inteligência. O apelo popular também se mantém, bem como a inspiração na origem pernambucana.

E Badra é essencial, novamente, para o andamento cômico e para que o tema do espetáculo, afinal dramático, não se perca em dramalhão.

Atriz versátil e com domínio de ritmo e plateia, ela faz a Vesga sem o ser, distorcendo o olhar uma ou outra vez para efeito cômico, quase em aparte. Com o público desarmado, ela introduz alguns dos tópicos femininos mais sérios na cena, do feminicídio à repressão à homossexualidade.

Moreno, em mais de duas décadas, nunca se mostrou autor de se restringir à superfície. As cangaceiras do título transportam para o sertão temas urgentes hoje, quase um #MeToo no cangaço —sem soar anacrônico, partindo de pesquisa histórica e literária.

As mulheres da peça passam pelo horror e resistem, reagem. Não faltam (antes mesmo das revelações desta semana) questionamentos diretos da Justiça brasileira, por servir a poucos, contra muitos.

A encenação de Sérgio Módena é simples, nada exuberante, mas muito bem realizada, com figurinos do cangaço e alguns jardins móveis. O resultado no palco é funcional, nas marcações, na concentração da atenção nas atuações.

Carrega talvez demais na caricatura dos homens, dos cangaceiros ridículos, num alívio cômico algo plautiano que remete a Ariano Suassuna —embora o autor, Moreno, tenha bem mais de Nelson Rodrigues que de Suassuna.

Além de Badra, outras atrizes e suas personagens impressionam, da jovem Rebeca Jamir, que faz a Mocinha mesclando graça e firmeza, até Amanda Acosta, Serena, a trágica líder das cangaceiras, passando pela Viúva, que reage à violência com violência, e por uma Vera Zimmermann engraçada, respondendo por algumas das melhores tiradas.

As canções originais, com letras do autor e música de Fernanda Maia, também responsável pela rigorosa direção musical, são diversificadas e se integram bem à narrativa.

A estreia da dupla Maia-Moreno é promissora para o gênero no país. Como trilha original, no teatro musical brasileiro recente, é uma das que mais ecoam no espectador.

As canções são interpretadas por praticamente todo o elenco de 13 atores, com chances de solo para vários deles, sem grande desnível, mas com destaque para Costa e Jamir. Esta já havia chamado atenção em "Auto do Reino do Sol", o musical bem-sucedido de 2017 que é uma influência evidente sobre "As Cangaceiras".

No elenco masculino, dois destaques são Marco França, como Taturano, e Milton Filho, que faz Promessinha, um espelho cômico da Vesga, ambos conseguindo ir além de seus papéis algo farsescos.

O que prometia algum estranhamento em "As Cangaceiras", como a aparente ligação com o teatro nacional-popular de décadas atrás, de um Brasil idealizado, se revela não só mais inteligente como mais sarcástico, demolidor.

Erramos: o texto foi alterado

O nome da atriz Amanda Acosta foi grafado de forma incorreta. O texto foi corrigido.

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