Juntos para turnê, 'Amigos' fizeram do sertanejo a música mais ouvida do Brasil

'Levamos a música para a boca das pessoas das grandes cidades', diz Luciano, dupla de Zezé Di Camargo

Lucas Brêda
São Paulo

Cabelos compridos, jaquetas de couro, calças justíssimas, guitarras elétricas e pirotecnia. No começo dos anos 1990, a música caipira acompanhava o brasileiro e deixava a fazenda seduzida pelas luzes das capitais.

“A nossa cabeça era fazer uma música sertaneja também para as pessoas da cidade”, teoriza Xororó, da dupla com Chitãozinho. “Tínhamos a pretensão de que, sim, poderíamos cantar para públicos grandes. Mas, para isso, tínhamos que modernizar.”

Detalhes dos cantores Zezé de Camargo e Luciano, Chitãozinho e Xororó e Leandro e Leonardo
De cima para baixo, silhuetas capilares das duplas Leandro & Leonardo, Chitãozinho & Xororó e Zezé di Camargo & Luciano - Carolina Daffara/Folha Press

Hoje, ao lado do funk, o sertanejo é o gênero musical mais consumido do Brasil. A disseminação do estilo, que começou nos anos 1920, aconteceu em paralelo à urbanização do país e se deve principalmente a três duplas —Zezé Di Camargo & Luciano, Chitãozinho & Xororó e Leandro & Leonardo.

Neste sábado, eles —com exceção de Leandro, morto em 1998— dão início à turnê “A História Continua”, marcando os 20 anos do fim do programa “Amigos”, da TV Globo.

Segundo Gustavo Alonso, historiador e autor do livro “Cowboys do Asfalto”, o sertanejo era “música de circo” até meados dos anos 1970. As plateias, lembra Xororó, não passavam de mil pessoas. “Era só para quem gostava dessa coisa do interior, da origem.”

A trajetória de Chitãozinho & Xororó foi determinante para toda essa abertura estética do sertanejo. Ainda adolescentes, eles assumiram a influência do rock e da Jovem Guarda, somadas às rancheiras e boleros mexicanos e à guarânia paraguaia, já presentes na música caipira.

“Nos anos 1980, eles entram de cabeça nisso”, diz Alonso. Chitãozinho & Xororó já haviam atingido um sucesso inesperado com as 200 mil cópias vendidas de “60 Dias Apaixonado”, lançado em 1979. Três anos depois, “Fio de Cabelo” vendeu mais de 1 milhão de cópias, e levou o sertanejo às FMs e às principais emissoras de TV.

“A partir dali, você vai ver uma música chamada sertaneja que o paulistano gosta, não é só a música do campo”, diz Xororó.

A dupla paranaense foi pioneira em encampar a ideia de modernização, concomitante com a urbanização do próprio país. Em 1940, quase 70% da população brasileira vivia no campo. Em 1991, 74% já viviam nas cidades.

No primeiro Rock in Rio, em 1985, Chitãozinho & Xororó ficaram encantados com a apresentação da banda britânica Yes. “Tiramos ideias do show deles”, conta Xororó. “Saíamos no meio do palco, com aquela fumaça indo de baixo para cima. Foi uma revolução, chamava a atenção.”

A dupla começou a usar instrumentos elétricos e a investir a maior parte dos cachês em equipamentos. Eram eles mesmos que bancavam a estrutura e o transporte.

Nos anos 1960, o sertanejo era restrito ao interior de São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e o norte do Paraná. Em 1987, as gravadoras calculavam que 10 em cada 12 músicas tocadas nas rádios AM eram sertanejas.

Quando Leandro e Leonardo lançaram “Entre Tapas e Beijos”, há 30 anos, eles “conseguiram detonar essa fagulha de sucesso nacional”, segundo Alonso. Com bateria eletrônica e guitarras estridentes, parecia mais uma música country —ou brega. Para Luciano, da dupla com Zezé Di Camargo, era um “romântico suingue”.

E não era coincidência. A dupla trabalhou com Otávio Basso, produtor de Amado Batista, para incrementar aspectos da música romântica. Em 1991, “Pense em Mim” só não tocou mais que “É o Amor”.

“Eles também começam a incorporar a ideia de modernidade no visual”, analisa Alonso. “Claro, podemos falar que é uma modernidade meio brega. Mas é como esses setores da sociedade interpretaram esse momento de urbanização. Eles tocam guitarras, aparecem de terno. Não tem chapéu de palha, esse papo de apelar às raízes, à origem rural. Era o contrário —quero ser moderno, ter um carro, fazenda com haras.”

No primeiro disco de Zezé Di Camargo & Luciano, em 1991, o cenário já era favorável. “O primeiro programa que eu fiz, já de cara, foi o da Xuxa”, recorda Luciano.

Nos anos 1990, os temas românticos também foram radicalizados. Além de mais sofridas, as músicas tratavam de relacionamentos de uma maneira mais universal, em oposição às narrativas de costumes e da vida do campo.

“Além da estrutura melódica, que mudou, acho que trouxemos uma modernidade na fala”, diz Luciano. “O linguajar de ‘É o Amor’ é atemporal. Levamos a música para a boca das pessoas das grandes cidades.”

Ao chegar às capitais, o sertanejo ameaçou a hegemonia histórica da MPB. E a resistência foi equivalente ao sucesso das duplas.

“Tudo que era popular e romântico era brega”, reflete Xororó. “O tratamento que dávamos para a nossa música era o mesmo de Julio Iglesias e de Roberto Carlos. Incomodava? Sim, mas sentíamos que o povo estava apaixonado pelo que fazíamos.”

Quando subirem ao palco para a nova turnê, os tais “Amigos” do sertanejo vão encontrar um contexto bem diferente. Depois deles, o gênero passou a dominar a indústria. Todos os cinco são astros, incrustados demais na cultura nacional para serem ignorados. E sua influência continua palpável.

O ideal de modernidade acompanha o sertanejo universitário. Luan Santana investiu milhões numa “estrutura cyberpunk” —incluindo uma espécie de esqueleto que se movimenta e uma concha de vidro— para seu novo DVD.

 
Tal qual Leandro & Leonardo com Amado Batista, Munhoz & Mariano não tiveram nenhum pudor em misturar sertanejo e arrocha em “Camaro Amarelo”.

Nos últimos anos, também com a ascensão do “feminejo”, a sofrência virou subgênero.

“Música sertaneja é romantismo”, define Luciano. “A Marília Mendonça com a sofrência, esses boleros, ela canta o que eu cantei. Vai ouvir ‘Pão de Mel’, diz se não está lá?”


Três hits essenciais dos ‘Amigos’

‘Fio de Cabelo’ (1982) Até o começo dos anos 1980, poucos artistas tinham um disco com vendas superiores a 1 milhão de cópias (Roberto Carlos e Nelson Gonçalves entre eles). Esta guarânia de Chitãozinho & Xororó impulsionou o primeiro álbum de sertanejo (‘Amante Amada’) que passou a marca

‘Entre Tapas e Beijos’ (1989) Para a música sertaneja mais bem-sucedida da década (vendeu 1,8 milhão), Leandro & Leonardo se aproximaram do country e da música romântica. Tachada de brega, a faixa antecipou o boom do gênero na década seguinte

‘É o Amor’ (1991) Com a indústria mais receptiva, Zezé Di Camargo & Luciano estrearam com um sucesso instantâneo. Este clássico vendeu 750 mil cópias em seis meses e 1 milhão em menos de um ano, além de levar a dupla às rádios e à TV

Erramos: o texto foi alterado

Uma versão anterior deste texto informava erroneamente que "Entre Tapas e Beijos" vendeu R$ 1,8 milhão, e não 1,8 milhão de cópias. 

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