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'Moby Dick' fala sobre o ódio de um homem à sua própria limitação

Leitor brasileiro que quiser comemorar bicentenário de Herman Melville tem ótima opções de traduções

Versão em HQ de 'Moby Dick', ilustrada por Christophe Chabouté

Versão em HQ de 'Moby Dick', ilustrada por Christophe Chabouté Divulgação

Camila Von Holdefer

O leitor brasileiro que quiser comemorar o bicentenário do nascimento de Herman Melville encontra ótimas edições de alguns contos do autor, além de “Benito Cereno”, “Billy Budd”, “Jaqueta Branca” e “Bartleby”, o escrivão que preferia não fazer. Mas é ao monumental “Moby Dick” que se costuma associar o nome de Melville. Em boa hora, a tradução de Irene Hirsch e Alexandre Barbosa de Souza, antes da Cosac Naify, volta pela Editora 34 com novos textos de apoio.

Outras perguntas podem ser dirigidas ao livro num mundo que afunda depressa no delírio. Quase duzentos anos depois da publicação de um romance centrado na navegação, alguns talvez achem que o maior perigo de cruzar o Cabo Horn é escorregar na borda da terra plana. Gente que acha que ambientalismo é coisa de vagabundo, que a emergência climática é invenção do marxismo cultural. Como falar da baleia quando o jumento parece ser, hoje, o animal dominante? Como chegamos aqui?

 

O livro é narrado por Ishmael, marinheiro que embarca no baleeiro Pequod. Ishmael é testemunha da obsessão do capitão Ahab por Moby Dick, o cachalote albino. Cheio de ódio, Ahab quer perseguir a baleia até “que ela solte um jato de sangue preto e boie com as barbatanas para cima”.

Mas o embate só acontece nas páginas finais. Até lá, Ishmael fala da vida no mar, da pesca baleeira, das características do cachalote. Trata-se da camada mais superficial do relato, uma vez que boa parte do livro —suas metáforas e sentidos— exige uma imersão demorada. É a típica narrativa de fôlego.

A ideia da água como elemento capaz de ocultar mistérios é onipresente. Os marinheiros que devaneiam no topo do mastro correm o risco de cair no mar, já que tomam “o místico oceano a seus pés pela imagem visível da alma infinita, azul e profunda, que penetra humanidade e natureza”.

Contagiado pelos avanços do século 19, Ishmael lembra que, por mais que a ciência se desenvolva, o mar continuará perigoso. Já então ele lamenta que o homem tenha perdido “aquele senso do pleno temor do mar que originalmente ao mar pertence”. O relato de Ishmael resgata essa “sutileza do mar”, lembrando das temíveis criaturas que deslizam abaixo da superfície, “traiçoeiramente ocultas sob os matizes mais encantadores do azul”. Há uma analogia com o que chama de alma humana, com tudo o que há nela de submerso.

Quando diz que o cachalote “nunca [pode] ser encontrado em águas pouco profundas”, Ishmael lhe confere a mesma complexidade. Para quase todos os marinheiros, a magnificência de Moby Dick é evidente. A Ahab, porém, a grandeza de Moby Dick incomoda.

Anos antes da viagem narrada por Ishmael, Moby Dick arrancou metade da perna de Ahab durante uma perseguição. Para o enlouquecido capitão, há “alguma coisa desconhecida, mas racional, por detrás dessa máscara irracional”.

 

Que coisa seria essa? Ele não sabe. O que Ahab não conhece ou não compreende passa a ser hostil, devendo ser eliminado. O ódio à própria limitação —que o capitão dominado pela húbris não tem a humildade de reconhecer— acaba por recair na baleia. Ahab “atribuíra a ela não apenas todos os seus infortúnios físicos, como também seus sofrimentos intelectuais e espirituais”. Assim, “toda a maldade, para Ahab, se tornava visível, personificada e passível de ser enfrentada em Moby Dick”.

Ishmael ecoa Ahab quando pensa ver em Moby Dick um espécime “de magnitude e perversidade incomuns”. O cachalote também emerge como um animal “sendento de sangue humano” e “criteriosamente maléfico”. Um marujo percebe “maldade decidida e calculada” no ataque das baleias aos navios —que, e isso ele não admite, são os primeiros a atacar. Afinal, diz ele, “o cachalote não tolera disparates”. E por que deveria?

Assim como é errado ver em “Moby Dick” um livro em defesa da preservação da vida animal e dos oceanos —o que seria tanto um anacronismo quanto um achatamento das nuances da narrativa, transformada em panfleto— é errado ver no livro um elogio inequívoco à crueldade.

Ishmael louva a bravura dos baleeiros, e descreve em detalhes como o cachalote é morto e desmembrado.

Arpões atravessam a carne, sangue escorre pelo convés. Não é agradável de ler. Mas é curioso encontrar no livro algumas respostas à hipocrisia do leitor. No mercado de carnes, diz Ishmael, é possível encontrar os “bípedes vivos de olhos vidrados nas longas filas de quadrúpedes mortos”. E “o canibal” —numa narrativa que dá mostras inquestionáveis de racismo, o termo é usado com frequência para designar aquele que não é europeu ou descendente de europeus— não é pior do que o “gourmand civilizado e esclarecido” que aceita subjugar os gansos para produzir o foie gras.

E é assim que Ishmael descreve a perseguição a uma baleia idosa: “Apesar de toda a sua idade, apesar da sua única barbatana e dos seus olhos cegos, ela devia morrer aquela morte horrível, assassinada para iluminar as núpcias alegres e outras festividades dos homens, e também para iluminar as igrejas solenes que pregavam que todos devem ser incondicionalmente inofensivos uns para os outros”.

A narrativa só oferece o ponto de vista dos marinheiros, embora Ishmael tente enxergar o cachalote de modo mais completo. E ainda assim é como se o leitor, sobretudo o do século 21, estivesse o tempo todo ao lado do submerso Moby Dick.

Ishmael não quer que seu relato seja lido como uma “hedionda e insuportável alegoria”. No entanto, “Moby Dick” sempre foi as duas coisas: uma narrativa de aventura e uma narrativa filosófica. Como nos lembra o prefácio de Albert Camus incluído na nova edição, “tanto a criança quanto o sábio encontram alimento” em Melville.

Lembro da orca (que Ishmael classifica equivocadamente entre as baleias) Tilikum, que, em cativeiro no SeaWorld, matou três pessoas. Vidas insubstituíveis, que deixam um vazio imenso. A tragédia começa com uma orca ainda bebê arrancada da mãe. A pobre barbatana caída que atesta a infelicidade de Tilikum é destaque no documentário “Blackfish”. No riso imbecilizado e imoral de quem paga para assistir aos animais dando piruetas em pequenos tanques está o alerta: dinheiro e educação são coisas distintas.

Como foi que chegamos aqui? Lou Reed já cantava em “Last Great American Whale”: a vida animal quase sempre é a menor das nossas preocupações.

Edições disponíveis de 'Moby Dick'

Editora 34
Tradução de Irene Hirsch e Alexandre Barbosa de Souza
648 páginas

Nova Fronteira
Tradução de Berenice Xavier
640 páginas

Pipoca & Nanquin (HQ)
Tradução de Pedro Bouça
Ilustrado por Christophe Chabouté
256 páginas

Landmark 
Tradução de Vera Sílvia Camargo Guarnieri (edição bilíngue)
527 páginas

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