Descrição de chapéu

Batucada do samba cabia na mão de João Gilberto

O polegar era o surdo e os dedos, o tamborim nos arranjos que levavam a voz ao primeiro plano

O baiano João Gilberto gravou em 1958 dois compactos, 'Chega de Saudade' e 'Desafinado', que já traziam todos os ingredientes da bossa nova - Arquivo/Reprodução
Walter Garcia

“Bossa” significava “talento” ou “lábia” desde o tempo de Noel Rosa, nos anos 1930. O termo permaneceu nas ruas do Rio de Janeiro, por caminhos difíceis de precisar, até que Tom Jobim e Newton Mendonça compuseram “Desafinado”.

Lançada por João Gilberto em fevereiro de 1959, em um disco 78 rpm, a canção ampliava o sentido de “bossa”: “Se você insiste em classificar/ Meu comportamento de antimusical/ Eu mesmo mentindo devo argumentar/ Que isto é bossa nova, isto é muito natural”.

No mês seguinte, é lançado o primeiro LP de João Gilberto, "Chega de Saudade". No texto da contracapa, Tom Jobim apresenta o artista como “um baiano ‘bossa nova’ de vinte e sete anos”.

Trocando em miúdos: na força de sua jovem maturidade, João somava a riqueza cultural da Bahia (aprendida em Juazeiro mas, sobretudo, com a obra de Dorival Caymmi), o contato com a vida popular carioca (“bossa”) e a promessa de modernidade (“nova”).

Se o apelo publicitário é evidente, a sonoridade das 12 faixas confere sustância à fórmula. Inicia-se um projeto estético que João desdobraria ao longo das décadas seguintes.

A canção popular, via de regra, é construída por melodia, letra, acompanhamento harmônico e pulsação rítmica. Esses elementos se articulam de várias maneiras. Por exemplo, a junção de melodia e letra é realizada pelo canto, que ainda traz as intenções do intérprete.

Na bossa nova de João Gilberto, a voz dispensava grandes efeitos dramáticos ou virtuosísticos. Dando continuidade à lírica moderna de Carlos Drummond de Andrade, João expressava com naturalidade a observação dos sentimentos, como se estivesse em uma conversa íntima, fazendo com que a emoção reverberasse depurada à luz da racionalidade.

Uma vez que essa atitude requer pouca intensidade, o seu canto ficava próximo dos instrumentos mas, ainda assim, ocupava o primeiro plano. A bossa nova é solista e dificulta manifestações coletivas, como as que estão associadas a diversas vertentes do samba.

Contudo, Tom e Mendonça iniciaram “Samba de uma nota só”, gravada por João Gilberto em 1960, com “Eis aqui este sambinha...”. E Baden Powell notou, em entrevista a Zuza Homem de Mello, que a mão direita de João concentrava a batucada de samba: o polegar estilizava um surdo; os dedos indicador, médio e anelar fraseavam como um tamborim.

Em 1990, entretanto, o próprio João Gilberto afirmaria à pesquisadora Edinha Diniz: “Mas isso, essa bossa, é outra coisa: é samba e não é samba”. Em termos bastante simples, o paradoxo se dá porque o seu polegar, via de regra, ficava próximo da marcação do contrabaixo que já havia tanto no samba-canção quanto no jazz (no estilo walking bass, mas com só uma nota por tempo). E os outros dedos tocavam ou variavam uma figura composta de três ataques por compasso, a famosa base que “é uma só”.

Ela foi criada por João a partir do tamborim ou da caixa sem estar precisamente em nenhum dos dois. Quando apenas a base era tocada, a bossa nova se afastava do samba, quando era variada, se aproximava: “É samba e não é”.

Música que respondeu a contradições da nossa sociedade segundo a percepção de uma parcela da classe média, a bossa nova se tornou um dos emblemas do Brasil no mundo.

Os limites desse processo recebem uma crítica aguda em "Gota D’Água {Preta}", direção de Jé Oliveira para o texto de Paulo Pontes e Chico Buarque, atualmente em cartaz.

Nesse espetáculo teatral, DJ Tano toca um sample de “How Insensitive (Insensatez)”, de Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Norman Gimbel, para anunciar a entrada de Creonte (Rodrigo Mercadante).

O empresário ostenta a sofisticação da bossa, junto a quadros de Romero Britto, para guardar distância em relação aos moradores da Vila do Meio-Dia e marcar a intenção de extirpar as raízes do sambista Jasão (Jé Oliveira), fincadas na pobreza e na identidade negra.

No dia seguinte ao da morte de João Gilberto, a Unesco fez um minuto de silêncio em sua reunião, considerando a “perda para o patrimônio cultural” e o impacto do artista “na história da música”. João projetou uma forma brasileira de interpretar composições dos EUA, do México, da Itália, da França.

A sua diluição como música de elevador, espera telefônica, consultório ou aeroporto não diz muita coisa além do enorme sucesso como produto de exportação. Guardadas as devidas proporções, ouvir bossa nova assim é o mesmo que conhecer obras da Galeria Uffizi ou do Museu d’Orsay por meio de reproduções em ímãs de geladeira.

Walter Garcia, músico e professor do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, é autor de 'Bim Bom: a Contradição sem Conflitos de João Gilberto' (Paz e Terra, 1999) e organizador de 'João Gilberto' (Cosac Naify, 2012) 

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