Quem é Dino D'Santiago, o novo queridinho de Madonna em Lisboa

Grande influência por trás do disco 'Madame X', músico renova a sonoridade de Cabo Verde com roupagem dançante

O músico Dino D'Santiago Mike Ghost/Divulgação

Maurício Meireles
Paraty (RJ)

Dino D’Santiago nasceu numa família que acreditava em Deus. No bairro pobre do Algarve onde cresceram, ele e seus irmãos começaram a cantar na igreja —por isso, diz, nutriram paixão pela harmonia antes do ritmo.

Nos anos 1990, o rap começou a crescer em Portugal. Ele ainda se lembra quando conheceu os Racionais MC’s. “Pela primeira vez a voz do povo atravessou o Atlântico. E nós reconhecíamos esse grito”, conta, lembrando que a vila de pescadores onde viveu não tinha luz ou água encanada. Na Quarteira, as casas chiques ladeiam os casebres.

Deixou a música sacra pelos convites que recebeu dos rappers, que queriam alguém para cantar os refrões. E ele foi.

Hoje o momento é outro. Já vivendo em Lisboa, certo dia cantava “Petit Pays”, de Cesária Évora —a canção que fala de uma terra seca, mas cheia de amor, e da saudade dela— numa apresentação. Ali, recebeu outro convite de uma amiga para conhecer uma pessoa que, dizia ela, gostaria dele.

Quando viu, estava sentado no chão de uma festa com uma americana loira que se mudara para a capital portuguesa —era Madonna

Ele cantou “Sodade”, de Cesária, de quem ela é fã. A cantora lhe perguntou de sua vida. “Ela diz então: ‘Dá-me um abraço, graças a ti encontrei um motivo forte para ficar na cidade’”, conta D’Santiago.

Ele, que começou ali a apresentar a sonoridade lusófona à diva pop, se tornou o guia musical de Madonna na capital portuguesa. Dali a um tempo, a Vogue italiana publicaria uma foto da cantora no colo dele, numa noite do Tejo Bar, famoso por reunir músicos em Alfama, um dos bairros boêmios de Lisboa.

Em entrevistas, Madonna tem agradecido pela colaboração no novo disco. “Ele me apresentou a tudo”, já disse ela, que pôs uma música dele num dos vídeos de divulgação do álbum. Além das referências musicais, foi D’Santiago que treinou com ela a parte em português de “Faz Gostoso”, cantada com Anitta.

Ele conta que, na turnê do disco, Madonna tenta reproduzir no palco um ambiente caseiro que remete às 
festas em que a levou. “É bonito ver algo que tu sonhaste. Tens algo único na cidade de Lisboa. Ela está a fazer uma tour intimista, vai levar para a estrada 14 batucadeiras.”

D’Santiago se refere à Orquestra Batukadeiras, que ele apresentou a ela e está no disco “Madame X”. No ano passado, Madonna compartilhou no Instagram um vídeo em que participava de uma prece com as mulheres do grupo —elas cantavam “Maria, mãe de Jesus/ Maria, nossa mãe”.

“Foi tudo muito bonito. É uma mulher muito nobre. Catapultou minha vida para um outro registro, fez as pessoas olharem para a minha obra.”

É verdade que ter Madonna falando bem de você por aí não é nada mau, mas D’Santiago tem estrada independente disso. Começou a decolar com a banda portuguesa Expensive Soul, na qual ficou 11 anos.

“Comecei a ouvir Marvin Gaye, Sam Cooke, Herbie Hancock. Foi a minha faculdade”, diz ele, que ainda passou pela banda Nu Soul Family.

O encontro com a musicalidade de Cabo Verde, que entre outras encantou Madonna, é a história do encontro de uma identidade. É o país de seu pai e de sua mãe, um pedreiro e uma cozinheira. Ele viajou para lá pela primeira vez há 30 anos e detestou.

“Foi traumatizante. Fui para o interior, íamos de burro para a igreja na montanha, não havia água potável, não havia luz. Fiquei 20 anos sem voltar.”

Só quando voltou com o pai, depois desse tempo, fez uma viagem sentimental às origens da família.

“Dormi com meu pai na mesma cama, porque era uma casa muito pobre. Sem querer ele me abraçou. Tive uma sensação estranha, mas aquele colo me fez bem. A criação crioula é dura, os pais não dizem ‘eu te amo’, querem que você seja forte.”

Na infância, via a rua pela janela, os moleques brincando, e se sentia mal por não ter autorização para sair. “Ficávamos trancados para não nos misturarmos na rua. Sonhava com aquilo. Grande parte desses amigos foi presa ou morreu. Fomos salvos pela prisão amorosa de nossos pais.”

Não sonhava ser músico, porque queria estudar história da arte e dar aulas. “Na puberdade, o mangá tinha muita influência, desenhava mulheres nuas e expunha minha necessidade de crescer. Passei isso para as músicas, esse lado revolucionário de quem não entendia a Igreja Católica.”

A viagem à terra de seus pais mudou sua músicas e seu nome —acrescentou o D’Santiago, referência à ilha do país. Quando foi compor, surgiu uma escrita sem revolta, com humor. Começou a trilhar um caminho diferente e incluiu o crioulo de Cabo Verde nas letras. “Sinto algo do crioulo no português de Minas Gerais.”

Isso sem falar nos ritmos que, em “Mundu Nôbu”, seu álbum recém-lançado, aparecem com uma roupagem sob medida para as pistas de dança, revestidos de uma estética urbana. D’Santiago já apareceu vestido com uma camisa que diz “funaná é o novo funk” —além dele aparecem o batuku e a kizomba, este de Angola, entre outros ritmos.

“O funaná se acelerou igual ao funk brasileiro. No começo era em 90 BPM, agora está em 160 BPM. Fazemos só com grogue, nossa aguardente”, ri.

Uma das músicas de maior sucesso do disco é “Como Seria”, com o refrão que mistura português, crioulo e inglês —“dou-te muito mais de mim/ des manera k’um ta xinti/ like Beyoncé and Jay-Z”. O segundo verso quer dizer “da forma como eu sinto”.

Quando saiu do palco para cantar “Nôs Funaná” no meio de uma pequena multidão que assistia a ele no Caminhão da EDP, na programação paralela da última Flip, o público pulava como se já fosse íntimo daquela música. Chegou a entoar o refrão de “Deixo a Vida Me Levar”, de Zeca Pagodinho.

As músicas são dançantes, mas também políticas. D’Santiago criou “Raboita Sta. Catarina” numa visita a Cabo Verde durante as festas em homenagem à santa. Ao mesmo tempo em que celebravam, o vulcão da ilha do Fogo cuspia lava —o músico imaginou Catarina em fúria, porque o povo rebolava enquanto a
política aproveitava para lhe empurrar leis goela abaixo.

“Nôs Crença” canta contra a escravidão mental. Foi imaginada durante uma viagem de duas horas entre Viana e Luanda, em Angola. “Tem os resquícios da guerra. Encontras pessoas mortas no chão e ninguém toca nelas, porque tem medo de ser considerado culpado. Senti muita submissão.”

Ele demonstra uma sensibilidade lírica formada no hip-hop. “É um movimento a se espalhar. São os novos revolucionários. Enquanto a indústria não aceitar esse fenômeno, vou ter que concordar com o Criolo quando ele diz que é um gigante que ninguém quer ver, mas quando amanhece o jardim está amassado.”

O muso da rainha

A origem 
Claudino de Jesus Borges Pereira, o Dino D’Santiago, tem 36 anos e nasceu na Quarteira, na região do Algarve, em Portugal

Os primórdios
Começou a cantar a convite de amigos rappers. Em 2004, se apresentava com a banda Expensive Soul. Depois, fez parte da Nu Soul Family

A obra
Seu primeiro disco solo foi ‘Eu e os Meus’, de 2008. Em 2013, lançou ‘Eva’,com influência da música de Cabo Verde. No fim do ano passado, veio ‘Mundo Nôbu’

A diva
Após conhecer Madonna em Lisboa, se tornou uma espécie de guia musical da cantora na capital portuguesa

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