Paulinho da Viola e Martinho da Vila se reúnem em mostra de Elifas Andreato

Artista plástico retrata música popular brasileira desde os anos 1970

Marina Consiglio
São Paulo

Graças ao meio-sorriso, melancólico e contemplativo, o marcante retrato que o artista plástico Elifas Andreato fez de Clementina de Jesus há 40 anos ganhou o apelido de "Mona Lisa brasileira" —e motivou a exposição "A Arte de Elifas Andreato na Música Brasileira", inaugurada na noite desta terça-feira (20), no Museu Afro Brasil, no parque Ibirapuera.

Para a vernissage da mostra, que apresenta um recorte da obra de Andreato, a instituição reuniu os sambistas Paulinho da Viola e Martinho da Vila, o próprio Andreato, o curador e diretor do Afro Brasil, Emanoel Araujo, o rapper Rappin' Hood e a jornalista Janaína Marquesini, uma das autoras da biografia de Clementina de Jesus, "Quelé, A Voz Da Cor", para um bate-papo aberto ao público. Tudo isso pontuado por apresentações da cantora Anna Setton e de integrantes do bloco Ilú Obá de Min.

Obra de Elifas de Andrade
Retrato de Clementina de Jesus que motivou a exposição "A Arte de Elifas Andreato na Música Popular Brasileira" - Fernando Sant'Ana

Com o auditório Ruth de Souza lotado, parte do público assistiu à conversa por meio de um telão montado no espaço expositivo. No roteiro, seriam três os tópicos principais: primeiramente, a Rainha Quelé. Mais adiante, um pouco sobre a relação de Andreato com Martinho da Vila e a de Andreato com Paulinho da Viola.

"A Clementina fez muito bem para o Brasil, mas o Brasil não fez muito bem para Clementina", disse Martinho da Vila. "Todos os sambistas pioneiros, eles morreram duros, sem nenhum centavo. E a Clementina morreu favelada, vivendo com um salário que o Brizola deu pra ela", desabafa. "Eu não posso reclamar disso, o Paulinho da Viola também não, mas Cartola, Nelson Cavaquinho… Quando eu gravei o 'Batuque na Cozinha', que você [Andreato] fez a capa, eu pensei 'tenho que dar esse primeiro disco pro João da Baiana'. Eu tive que entregar para ele no Retiro dos Artistas. Foi uma coisa triste". Quando dizia que "isso não é coisa para se falar em um evento como esses", foi interrompido por palmas e gritos de "é sim!" da plateia.

Em um momento mais descontraído, Paulinho da Viola relembrou que, antes de "Rosa de Ouro", esteve com Clementina em "Menestrel", em 1964. 

"O Hermínio [Bello de Carvalho], ele tinha criado uma noite no Teatro Jovem do Rio, um evento que reunia um músico e um artista. E foi numa dessas noites que a Clementina se apresentou, antes do 'Rosa de Ouro'. Eu acompanhei a Clementina ao lado do Elton [Medeiros]", conta. "E eu percebi que as pessoas ficavam vidradas. A reação das pessoas, aqueles aplausos que demoravam… eu não podia imaginar que existisse isso". 

Sobre a famosa ilustração de Clementina, Andreato diz que considera esse retrato um acontecimento espiritual na minha vida. "E eu sou um homem não muito crente", diz.

Paulinho da Viola e Martinho da Vila posam juntos no evento de abertura da exposição de Elifas Andreato no Museu Afro Brasil
Paulinho da Viola e Martinho da Vila posam juntos na abertura da exposição de Elifas Andreato no Museu Afro Brasil - Divulgação

Ele, que calcula ter feito, atualmente, cerca de 450 capas, diz que, para ele, que fez "muitos retratos, esse acabou significando um reconhecimento de uma capacidade que eu não sabia que eu tinha". "Quando acontece, essas coisas saem de uma maneira que no dia seguinte você não acredita que tenha feito aquilo", reflete. É a primeira vez que seu original é exposto ao público. 

Grande ilustrador da música popular brasileira desde os anos 1970, Andreato é antigo parceiro dos dois sambistas que participaram da conversa desta terça-feira. Não sabe de cabeça o número exato, mas diz que deve ter feito "umas 12" artes para Paulinho da Viola. Para Martinho da Vila, o número quase triplica: foram 32. 

Das obras selecionadas para a mostra no museu Afro Brasil, chama a atenção um estudo em aquarela de um retrato de Martinho, inédito até para o sambista. "O Elifas fala que a gente não sabe o que quer, mas ele às vezes mandava três desenhos ótimos —e o que você está dizendo?", ri o carioca. "Mas hoje eu descobri aqui que teve um que ele fez para o 'Maravilha de Cenário' [álbum de 1975], que não me mandou. Eu não conhecia aquele desenho e vim conhecer aqui, agora, no museu".

Andreato, que continua a produzir a pleno vapor, também falou um pouco sobre a os novos artistas.

"Os [músicos] mais jovens, ou aqueles que não podem pagar e que às vezes acham que a minha assinatura vai os ajudar a ser pelo menos escutado ou visto, isso exige de mim um empenho redobrado nesses dias de hoje. E eu tenho feito o possível para me superar, porque para ajudá-los o esforço é muito maior. O resto [que atrapalha], eu não preciso falar, estão nos jornais, nos noticiários..."

Para finalizar, Anna Setton e o Ilú Obá de Min puxaram o público em cortejo até o espaço expositivo, onde estavam as obras assinadas por Andreato.

A Arte de Elifas Andreato na Música Brasileira
Museu Afro Brasil - Parque Ibirapuera, portão 10
Ter. a dom., das 10h às 17h
até 5/10
Grátis

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