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Livros

Racismo descrito por Toni Morrison é tão brutal quanto a guerra

Seus livros dependem de um leitor atento e disposto a captar as sutilezas e as armadilhas

A escritora Toni Morrison foi a primeira mulher negra a ganhar o Nobel de Literatura, Damon Winter/The New York Times

Camila Von Holdefer

Sei que há tantos tipos de livros quanto há de leitores e de leituras. No entanto, me pergunto quem fica incólume a um romance de Toni Morrison.

Morrison morreu nesta segunda depois de uma breve internação. Tinha 88 anos. O excelente “O Olho Mais Azul”, publicado em 1970, marca o início de uma carreira que legou à literatura americana alguns de seus livros mais importantes. Suas personagens inesquecíveis são mulheres negras que abrem caminho da melhor forma que podem.

As mulheres de Morrison têm personalidades e trajetórias distintas, mas suas vidas estão imersas na mesma e lamentável história —a própria escravidão ou suas consequências sempre presentes.

Em entrevista à Paris Review, Morrison conta que certa vez escreveu 50 páginas que achou muito impressionantes. Quando voltou a elas depois de uma pausa, no entanto, não gostou do que estava ali.

Quando a repórter pergunta a razão, Morrison responde que aquelas páginas eram muito pomposas.

Eis o que é mais fascinante nos livros de Morrison. Sua escrita nunca é livre de desafios, nunca é fácil, mas jamais é pomposa. É intrincada,  brutal, alusiva, incansável. Mas jamais é pomposa.

Sua prosa é maleável, característica que denuncia o nível do domínio técnico de um autor. Morrison usa o estilo indireto livre como poucos, sustentando uma terceira pessoa que escorrega com fluidez de uma subjetividade para outra.

Seus livros dependem de um leitor atento e disposto a captar as sutilezas e as armadilhas. Muita coisa depende do não dito. Na mesma entrevista —que data de 1993, ano em que ela recebeu o Nobel de literatura—, Morrison deixou claro que o que importa em sua escrita é o que está entre as palavras.

Publicado em 1997, “Amada”, seu livro mais conhecido, é o primeiro volume de uma trilogia formada por “Jazz”, de 1992, e “Paraíso”, de 1997.

Ganhador do Pulitzer, “Amada” apresenta Sethe, uma mulher “com olhos e vontade de ferro” que concentra seus esforços “não em evitar a dor, mas em passar por ela o mais rapidamente possível”. 

Grávida, foge de uma fazenda ironicamente chamada de Sweet Home, ou doce lar. No mundo de Sethe, “homens e mulheres eram removidos de um lado para o outro como peças num jogo de damas”. Os homens que aquelas mulheres amaram, como elas mesmas, tinham sido “enforcados, emprestados, comprados, recomprados, hipotecados, presenteados, roubados e capturados”.

Sethe não é a única personagem de “Amada” a merecer um olhar atento. Junto à filha e à sogra —e a tantas criações de outros romances da autora, como Pecola, Claudia, Gigi, Pallas—, Sethe compõe a incrível galeria de mulheres de Morrison, personagens que não raro extraem força e beleza de onde só parece haver dor.

Seu último livro, publicado há quatro anos, é “Voltar para Casa”. Num certo sentido —no estilo econômico e direto—, mostra uma Morrison ainda mais implacável.

Marca registrada de Morrison, a narrativa alterna vários pontos de vista. Um veterano da Guerra da Coreia sai do torpor quando é avisado sobre o estado de saúde da irmã Ycidra, ou Ci. Longe de casa, os irmãos precisam, juntos, encontrar o caminho de volta.

A violência latente descrita por Morrison não é menos brutal que aquela da Coreia. A escravidão ainda recente nos Estados Unidos respalda um racismo indisfarçado. Como alerta um personagem, “o costume é tão verdadeiro como a lei e pode ser tão perigoso quanto ela”.

Se o irmão precisa expiar a culpa que carrega, Ci precisa encontrar a própria força. Para isso, contam com a ajuda das mulheres de sua cidade natal, que curam, cuidam e aconselham —uma rede que também é frequente nos livros de Morrison. A década de 1930, por exemplo, foi “o período que a gente rica chamava de Depressão e elas chamavam de vida”.

Como Djamila Ribeiro resumiu tão bem em coluna recente neste jornal ao falar de “Voltar para Casa”, o que se vê em Morrison é “o desejo por liberdade e transcendência em um mundo que impõe barreiras quase intransponíveis de acesso à humanidade”.

Há um ensaio de 1988 de Barbara Christian chamado “The Race for Theory”, complexo e talvez controverso. Christian afirma que sua leitura de autoras negras, Morrison entre elas, pressupõe a necessidade de aprender com aquele livro. Cada livro, diz, incentiva a ler de um modo diferente. Para a autora, ter inteligência é ter uma sensibilidade afinada para identificar esses modos.

Na entrevista à Paris Review, Morrison diz que, quando criança, não desejava ser uma escritora, mas uma leitora. E que escreveu o primeiro livro quando sentiu que aquilo que desejava ler não existia.

Quando uma linguagem ainda não existe, escreve Barbara Christian no ensaio, precisamos moldá-la. A 
linguagem poética —a linguagem da literatura— não é puro sonho, diz ela, mas pode estabelecer as fundações de uma mudança futura.

Quero acreditar, com ou sem ingenuidade, que a leitura de Toni Morrison pode ajudar na mudança necessária. Mais do que nunca, não há relevância para a crítica se ela não puder contar com nomes como Toni Morrison.

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