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Cinema

Tarantino renuncia a qualquer verdade possível de seu filme

A falsificação de fatos hoje é um fenômeno difundido, ajuda a eleger presidentes e tudo mais

Inácio Araujo

Era uma Vez em... Hollywood

  • Quando Estreia nesta quinta (15)
  • Classificação 16 anos
  • Elenco Leonardo DiCaprio, Brad Pitt, Margot Robbie
  • Produção EUA, 2019
  • Direção Quentin Tarantino

A força e a fraqueza de Quentin Tarantino decorrem em grande medida de que, para ele, o mundo começa no cinema e termina no cinema. 

Não pode haver quadro mais favorável que o de “Era Uma Vez em... Hollywood”. Tarantino está dentro do cinema, numa Hollywood já antiga —os anos 1960, de caubóis, hippies, cinemas de rua, novas estrelas. Não é preciso falar da força evocativa do título.

Quer dizer, existe algo além do nostálgico capaz de despertar a inspiração de um cineasta cinéfilo. Os personagens centrais são mais do que bem apanhados. Leonardo DiCaprio faz Rick Dalton, ex-caubói de uma famosa série que tem como amigo seu dublê e faz-tudo Cliff Booth (Brad Pitt).

Dalton está num momento de crise na carreira. Depois do fim do seriado, foi condenado a fazer segundos papéis, aparecendo como vilão. Resta a ele a casa em Los Angeles, que é o melhor sinal de alguém que está fincado na indústria do cinema —casa, aliás, em que se descobre vizinho de Roman Polanski

Sua melhor chance, no entanto, é atuar em faroestes italianos, o que rejeita por entender que é falso o que fazem os europeus. Os problemas do caubói rebatem no amigo, mas Booth não parece nem partilhar as angústias de Dalton, que, chegando à meia-idade, sofre com o fantasma da decadência.

Talvez a melhor cena do filme seja aquela em que Dalton contracena com uma menina de oito anos. É o momento em que confronta mais agudamente sua decadência. A cena mais divertida é, de longe, aquela em que Cliff enfrenta no braço um lutador de caratê.

Tarantino filma bem e com vontade. Provoca no espectador o prazer de entrar nos bastidores da indústria de imagens e trabalha com habilidade temas relevantes dessa atividade —a pressão contínua, o temor da decadência e o prazer de estar sem maiores compromissos na cidade do cinema.

Mas como tirar daí uma trama? Eis onde o filme engasga e onde se justifica o apelo do diretor que precedia a exibição do filme para a imprensa: por favor, não conte elementos que possam revelar o final, para não tirar o prazer de descoberta da história.

Digamos então, só, que, à falta do que dizer, Tarantino se dedica a “reescrever” histórias, à maneira do que fez em “Bastardos Inglórios”.

A falsificação de fatos hoje é um fenômeno difundido, ajuda a eleger presidentes e tudo mais. Isso não isenta o cinema; ao contrário, aumenta sua responsabilidade, como matriz do universo das imagens em movimento.

Ao renegar a verdade, Tarantino renuncia a qualquer verdade possível de seu filme. Resta o que sempre houve —um grande talento e uma grande sensibilidade para as imagens.

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