Bruno Munari abriu espaço para público criar a própria forma de usar objetos

Obras do artista jogam com conceitos de função e inutilidade, o habitual e o acaso, o real e a fábula

Mara Gama
São Paulo

“Escrituras Ilegíveis de um Povo Desconhecido”, “Cadeira para Visitas Brevíssimas” e alguns “Livros Ilegíveis”, títulos que parecem microcontos, são pistas sobre as formas de experimentação mais características e a poética de Bruno Munari.

Em todos eles, está materializado o jogo entre a função e a inutilidade, o habitual e o acaso, o real e a fábula. Neste jogo, abre-se um espaço para que o público invente sua maneira de usar e perceber os objetos.

Algo da mesma natureza, em que pese sua indissociável utilidade, acontece com o “Abitacolo”, uma estrutura que é como uma estação de trabalho doméstica projetada em 1971.

Com superfícies para servir como mesas, prateleiras e nichos, ela é apenas a grade que permite múltiplas configurações, a base para a fantasia de uma nave ou de um castelo, para quartos de crianças.

O móvel sintetiza um conceito muito caro a Munari, que já foi considerado, ao lado da grande educadora Maria Montessori, um expoente da pedagogia italiana. Ambos enxergam a criança como autônoma criadora de seu espaço.

“Em Munari e Montessori existe um elemento comum, a necessidade de delegar à criança suas próprias experiências. A ela deve ser dada a liberdade e os instrumentos para que essa experiência seja realizada”, comenta o curador da exposição, o historiador da arte Alberto Salvadori.

Também para as crianças foram feitos à mão os primeiros livros ilegíveis, com diferentes materiais, nos anos 1950.

Munari defendia que o interesse pela leitura começava na primeira infância e que a criança deveria ser apresentada a estímulos sensoriais. Com histórias insinuadas, a intenção era estimular a elaboração de pensamentos, e não intimidar os futuros leitores.

Mais do que um artista, “Munari é um dos mais interessantes livres pensadores do século passado”, diz Salvadori.

Embora pertença a uma geração anterior a Umberto Eco e Italo Calvino, Munari viveu o mesmo ambiente 
intelectual dos dois. 

Em “Seis Propostas para o Próximo Milênio”, lembra Salvadori, Calvino sintetiza o pensamento de uma época como nenhum outro. “Mas o conceito de leveza de Calvino é o que Munari sempre pôs em prática.”

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