Há dez anos, briga de Kanye West e Taylor Swift abalava mundo pop

Rapper tirou o microfone da mão da cantora no VMA de 2009; episódio ajudou a pautar discussões sobre racismo e machismo

Manoella Smith Isabella Menon
São Paulo

Na noite de 13 de setembro de 2009, uma premiação marcou a carreira de dois artistas da música. Mas, mais do que isso, ajudou a pautar discussões sobre racismo e machismo, e sobre como a luta contra um não pode calar a luta contra o outro, em especial no mundo da cultura pop. 

Taylor Swift chegava como uma debutante para sua primeira performance no VMA, premiação da MTV que consagra os melhores clipes do ano. Aos 19 anos, ela apareceu no tapete vermelho em uma carruagem estilo Cinderela, usando um vestido cintilante.

Já conhecida como estrela country, ela dava seus primeiros passos rumo a um som mais pop. Naquela noite, porém, teria outra surpresa além de receber o prêmio de melhor vídeo feminino com “You Belong with Me” —sobre uma nerd apaixonada pelo bonitão da escola.

Enquanto a cantora agradecia o troféu, o rapper Kanye West invadiu o palco, tirou o microfone de suas mãos e disse: “Estou feliz por você e vou deixar você terminar, mas Beyoncé tinha um dos melhores vídeos de toda a história”. E repetiu: “Um dos melhores vídeos da história”.

Ali estavam dois embates carregados de simbolismo —um músico negro se queixando de uma cantora branca ter sido premiada no lugar de uma outra artista negra, e um homem que interrompia o discurso de uma mulher. Esses dois duelos pautariam os grandes debates do mundo pop na década seguinte.

Ao subir ao palco, Kanye reclamava de a premiação ter  ignorado o clipe de “Single Ladies” —em que Beyoncé e bailarinas dançam de collant preto. 

Instantes mais tarde, Beyoncé venceria o prêmio mais importante da noite, o de melhor clipe do ano. Ao receber o troféu, chamou Taylor Swift para terminar o seu discurso interrompido.

Kanye já era reincidente em protestos do tipo. Mas sempre que invadia ao palco, era para defender a si próprio, e nunca outro artista.  “Nunca achei que ele pudesse fazer isso por outra pessoa, como Beyoncé”, diz o americano Jim Cantiello, que trabalhava como repórter na MTV e fazia a cobertura ao vivo do evento.

No dia seguinte, lembra, os principais noticiários da manhã nos Estados Unidos só falavam do assunto. “Meus pais ligaram para perguntar quem era essa tal de Taylor Swift”, diz “Ela virou uma superstar.”

O rapper se desculpou por toda a confusão, mas isso não o poupou das críticas —até Barack Obama, então presidente, o chamou de babaca.  

Existe um termo para o que Kanye fez. É “manterrupting”. A expressão foi popularizada em 2015 num texto do jornal New York Times que trazia uma pesquisa da Universidade Yale sobre como as senadoras americanas se pronunciavam menos até do que colegas homens de posições inferiores.

A ex-VJ e cineasta Marina Person diz que a posição de Kanye foi arrogante, mas opina que ela acabou produzindo efeito no universo pop.“Gerou uma bola de neve nessas questões identitárias junto da nova onda do feminismo.”

Didi Wagner, apresentadora de TV que também foi VJ, disse que acredita que esse momento tenha lançado um alerta sobre a representatividade negra. "Junto com esse episódio do Kanye West com a Taylor Swift, a gente viu o surgimento de mais ativistas negros se posicionando."  

Bruno Ribeiro, que pesquisa na Unicamp questões raciais na cultura, afirma que o episódio ajudou a reforçar os estigmas da mulher branca frágil e do homem negro agressor.  “Começaram a usar esse evento para justificar  estereótipos.”

Depois da polêmica, Kanye disse que aquilo não se tratava dele e nem mesmo de Taylor. “Há muitas pessoas na América que sentem que não têm uma plataforma para expressar o racismo velado.”

Ele tem argumentos fortes. Desde que o VMA surgiu, em 1984, a premiação coroou 28 artistas brancos na categoria de melhor clipe do ano, e só oito estatuetas foram para negros. Os prêmios principais são decididos por voto popular e as categorias técnicas são escolhidas por um júri. 

A atitude do músico, de alguma forma, antecipou as grandes discussões nas premiações do cinema. Em 2016, as redes sociais foram sacudidas pela campanha do #OscarsSoWhite, que criticava a ausência de negros entre atores indicados. A Academia, no ano seguinte, se redimiu. E hoje é tomada por queixas sobre a incipiente participação feminina entre diretoras. 

O Grammy, outro prêmio frequentemente acusado de racismo, até tentou. No ano passado teve Jay-Z com o maior número de indicações, mas quem levou o maior prêmio da noite foi Bruno Mars. 

Em 2010, Taylor escreveu a música “Innocent” e apresentou no VMA. Na letra, diz que perdoou Kanye. A performance começou até com um replay da invasão do ano anterior.

Ao longo da carreira, ela surfou em cima do episódio de 2009. A cada fim de namoro ou briga com alguma celebridade, surgia uma música. Passou a lançar uma espécie de caça ao tesouro para os fãs descobrirem de quem estava falando. A fórmula deu certo. Hoje ela supera Beyoncé como a cantora mais bem paga do mundo, segundo a Forbes.

Kanye foi mais pontual ao rememorar o caso. Em 2016, quando a história parecia passado remoto, lançou “Famous”. Na letra da música, diz: ‘‘Eu sinto que eu e a Taylor ainda vamos transar. Por quê? Eu tornei aquela vadia famosa”.

Jim Cantiello, o ex-repórter da MTV, lembra que Kanye quase não sentou na primeira fileira naquela noite de dez anos atrás. Iria ficar na oitava fileira, mas os produtores viram que havia muitas mulheres na frente e decidiram trazê-lo para perto do palco. 

Se estivesse no fundo, algo teria mudado? “Talvez ele tivesse tropeçado no caminho ao palco por ter bebido uísque ou talvez tivesse dado tempo de Taylor terminar o discurso… É algo que jamais saberemos.”
 

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