Pluralidade no mundo da arte não reflete o status da crítica especializada

Instituições e organizações buscam maneiras de diversificar quadro de especialistas nas diferentes áreas da cultura

Leonardo Neiva
Los Angeles

Fábio Lafa passou a juventude escutando música de artistas negros. Primeiro, rap e pagode. “Como moleque preto, morador de bairro periférico, era o que se ouvia no rádio.” Aos 15 anos, foi apresentado ao R&B e ao soul por um tio, que o fazia ouvir discos dos anos 1970 e falava sobre a história dos gêneros.

Foram as sessões na casa do parente que despertaram sua vontade de conhecer mais sobre música. Além de passar tardes inteiras em lojas de discos, escutando CDs e lendo fichas técnicas, acompanhava críticas em jornais, revistas e programas de rádio.

Fascinado pelo assunto, Lafa tinha vontade de ser DJ e escrever sobre música, mas não se via discutindo o tema na mídia. “Sabia que não eram caras negros que estavam falando nos rádios, nos jornais. Quando jovem, não tinha nem conhecimento de que existia jornalista preto.”

Como disseram a ele que música não dava dinheiro, optou na faculdade por um curso de administração. Só mais tarde, já estabelecido financeiramente, procurou atuar na área de sua preferência.

O DJ Fábio Lafa - Marcus Leoni/Folhapress

Assim como Lafa, poucos jovens de grupos sub-representados sentem que podem escrever sobre arte na imprensa, explica a jornalista e crítica musical Elizabeth Méndez, de origem colombiana. Ela é fundadora do Critical Minded, instituição americana que investe em pessoas não brancas que buscam atuar na área.

De acordo com Méndez, a inclusão ainda é difícil porque a maior parte dos veículos tradicionais está fechada à pluralidade. Outro problema é a baixa remuneração. “Se você vem de uma família com dificuldades financeiras, a chance de optar por uma carreira como crítico é pequena”, afirma.

Em 2018, uma pesquisa da Universidade do Sul da Califórnia analisou 20 mil críticas de cinema. Quase dois terços foram escritos por homens brancos. Mulheres representaram 22%, enquanto pessoas de etnias não brancas (homens e mulheres), só 18%.

Pensando em aumentar a pluralidade em seu site, o Rotten Tomatoes, agregador de críticas de filmes e séries, lançou um projeto para dar mais diversidade à sua lista de críticos. De 2018 para 2019, adicionou 600 novos perfis ao seu rol —sendo 55% mulheres.

“Queremos que os críticos sejam um reflexo do nosso público global da forma mais próxima possível”, explica a gerente sênior do site, Jenny Jediny. 

No caso brasileiro, a falta de diversidade reflete a estrutura social do país e das próprias redações, segundo a jornalista Lulie Macedo, ex-editora e colaboradora da Folha. Apesar disso, para ela, hoje há um movimento pela inclusão de temas antes considerados pouco interessantes.

“Há dez ou 15 anos, emplacar uma pauta sobre hip-hop era difícil porque se acreditava que o leitor não ouvia esse tipo de coisa. O pensamento dos jornalistas acaba ficando distorcido porque estamos muito presos em nossa bolhas.”

Na Associação Paulista de Críticos de Artes, a APCA, apenas 21 dos 71 membros são mulheres. Um é negro. Apesar de contar com mais mulheres do que homens —elas são 69 de um total de 111 associados— , a Associação Brasileira de Críticos de Artes (ABCA), de artes visuais, também integra poucos negros, como revela uma análise de seu catálogo de associados.

O antropólogo e curador de arte independente Hélio Menezes destaca o maior número de exposições de artistas negros brasileiros nas últimas décadas, mas lembra que uma crítica diversa e com mais interesse na arte negra é essencial para que o avanço continue.

“Quem não é criticado não circula, quem não circula não aparece, quem não aparece não faz exposição. É um círculo vicioso.”

Foi em um cineclube na faculdade que Kênia Freitas, 34, nascida no Espírito Santo, passou a ter um olhar mais crítico sobre cinema. Por ser mulher e negra, porém, não se imaginava escrevendo críticas de maneira profissional.

“A grande maioria das críticas que lia eram feitas por homens. Pelos textos, dava pra saber que eram brancos, do eixo Rio-São Paulo. Não sentia que eu pertencia àquele mundo”, diz Freitas, que hoje desenvolve uma pesquisa de pós-doutorado sobre cinema e afrofuturismo na Unesp, escreve críticas para o site Multiplot! e integra o coletivo Elviras.

Formado somente por mulheres, o coletivo nasceu em uma reunião de críticas de cinema durante o Festival de Brasília de 2016, com o intuito de destacar o trabalho das profissionais da área.

“Acreditava-se que existiam poucas mulheres interessadas em trabalhar com crítica. Na verdade, são muitas. Como não há espaço na mídia tradicional, a maioria acaba escrevendo em blogs e sites”, 
afirma Cecília Barroso, uma das fundadoras do Elviras.

Entre as preocupações do grupo, de 109 integrantes, está incluir mais mulheres de etnias diversificadas e transexuais. Outra é achar o caminho para as grandes publicações.

Uma integrante do grupo, Ivonete Pinto, assumiu recentemente a presidência da Abraccine, a Associação Brasileira de Críticos de Cinema, que tem mais de quatro homens para cada mulher entre seus membros.

Segundo Ivonete, professora de cinema na Universidade Federal de Pelotas, a inclusão será uma das prioridades da nova gestão. Para além da discussão de gênero, no entanto, promover diversidade racial ainda é uma tarefa complexa.

“Na ficha de inscrição, não pedimos detalhamento de raça”, diz Ivonete. “O principal critério continua sendo a qualidade do texto, então queremos criar ações como oficinas de escrita e de capacitação voltadas para minorias.”

Fábio Lafa, hoje com 38 anos, tornou-se DJ, curador musical e escreve sobre música negra para o blog Frequência Modulada. “Quem lê meus textos e vê minha foto toma um susto. Não imaginam que seja um negro escrevendo.”

“Os holofotes da mídia precisam se voltar para as comunidades às quais a arte fala. Se a música trata de periferia, tem que ter gente periférica falando sobre ela. A indústria abriu espaço para os artistas negros, agora as narrativas sobre sua arte devem ser contadas por pessoas com vivências próximas das deles.”

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