Descrição de chapéu Artes Cênicas

Aos 83, Tarcísio Meira interpreta no teatro um artista no fim de carreira

Ator, que estreia 'O Camareiro' no dia 25, reflete sobre seu legado e a morte dos que vieram antes

Bruno Cavalcanti
São Paulo

“Pare este trem!”, grita Sir ao perceber que acaba de perder o último da estação naquela que se tornou a cena mais emblemática de “O Fiel Camareiro”, filme de Peter Yates lançado em 1983. O trecho foi decisivo para que Tarcísio Meira aceitasse a empreitada de viver, nos palcos, o personagem imortalizado por Albert Finney no cinema.

“Ali entendi tudo. Todas as nuances do personagem, tudo que o envolve. Todas as questões que carrega estão ali”, diz o ator que, em 2015, encerrou um hiato de 20 anos sem pisar nos palcos ao aceitar convite do ator Kiko 

Mascarenhas e do diretor Ulysses Cruz para interpretar o protagonista da peça “O Camareiro”, do dramaturgo sul-africano Ronald Harwood.

“Vinte anos? Tem tudo isso mesmo?”, pergunta Tarcísio, que na peça vive um ator de idade avançada e que, doente, tem dificuldades de se locomover e lembrar as falas daquela que deseja ser sua última peça, “Rei Lear”, de William Shakespeare. Por isso, recebe a ajuda de um fiel camareiro.

“Eu não sabia se daria conta”, diz, com a voz mansa e pausada e um sorriso no canto dos lábios que dá a entender que pode haver mais modéstia do que insegurança na fala. 

“No fim, deu certo, mas pensei que seria muito difícil viver uma história que também é um pouco a minha, sabe? Lidar com questões tão próximas, como o fim da carreira”, diz o ator de 83 anos, que há mais de 60 coleciona personagens emblemáticos na televisão e no cinema.

A proximidade do fim da carreira construída ao longo de seis décadas, contudo, se daria mais pelas limitações impostas pela idade do que por vontade própria, afirma. “O [ator e diretor] Ziembinski dizia que é preciso manter a bola lá em cima, não se pode deixar cair. Se você formalizar, deixar a coisa frívola, não funciona mais. E é por isso que não penso em parar, porque não vou deixar a bola cair.”

Desde que se recuperou de uma infecção pulmonar que o afastou das gravações da novela “Orgulho e Paixão”, da Globo, em julho do ano passado, e o deixou sob cuidados médicos até poucos meses atrás, o ator engatou uma rotina pesada para voltar aos palcos. Após comprar os direitos do antigo colega de cena, Kiko Mascarenhas, e assumir a produção, Tarcísio tem se dividido entre ensaios e supervisão das etapas que antecedem a estreia, marcada para o próximo dia 25.

Desde a concepção dos cartazes e programas até a agenda de ensaios, tudo precisa passar pelo crivo do ator, que durante a entrevista não deixou de observar a montagem do cenário. “É muito diferente. Está muito bonito, mas muito diferente”, repetia. 

“Teatro se faz em conjunto, eu confio nas pessoas que estão comigo, mas gosto de ter esse cuidado com o que o público vai receber”, afirma.

Como produtor, Tarcísio assume postura crítica diante das mudanças da Lei Rouanet sinalizadas por Bolsonaro. 

“Querem acabar com ela sem entender o que ela faz e já fez pelo Brasil, e isso é muito cruel. Um povo sem cultura não tem identidade. E eu não sei como o teatro vai sobreviver sem a lei Rouanet, é praticamente impossível.”

Em sua primeira temporada, em 2015, “O Camareiro” captou R$ 930 mil via renúncia fiscal, e teve duas temporadas de 24 apresentações cada no Rio de Janeiro e em São Paulo. Para a nova temporada, que vai até 15 de dezembro, o próprio Tarcísio decidiu bancar os custos de produção.

“Eu queria fazer, estar em cena de novo, não queria esperar mais, foi um processo natural”. Por seu crivo passou a seleção do novo elenco. Substituindo o idealizador Kiko Mascarenhas, entrou Cássio Scapin, encabeçando um time de atores formado por Lara Córdula, Angela Barros, Marcos Azevedo e Sylvio Zilber, além de Karen Coelho, que participou da primeira montagem. 

Além de São Paulo e Rio de Janeiro, a montagem circulou por outras cidades. “Foi muito pouco”, afirma Tarcísio. “Essa peça precisa ser mais vista. Precisamos fazer mais praças. Eu gosto disso, sinto falta do palco, não quero parar agora. A minha geração tem essa fome de palco, esse desejo da comunicação imediata que a TV não dá. A TV dá uma outra comunicação, muito importante também, mas não como o teatro.”

Dizendo que não acredita em idade ou que tenha medo da morte, Tarcísio afirma que achou uma geração da qual quer voltar a fazer parte. 

No Prêmio Shell, em 2016, encontrei Antunes Filho e percebi que não conhecia mais ninguém. Achei que aquela não era minha turma. Depois entendi que ali estavam todos os meus colegas, mais jovens, mas com a mesma fome de palco que eu. Não penso em parar também por isso, por tê-los ao meu lado.”

Entre os projetos que pretende tocar está um que cultiva há mais de 20 anos ao lado da mulher, Glória Menezes. A dupla quer sair em turnê com um espetáculo confessional, contando histórias de ambos, inspirados em um caso vivido há 23 anos, durante a estreiada comédia “E Continua... Tudo Bem”, de Bernard Slade.

Com um problema técnico antes da cortina se abrir, a dupla entrou em cena para entreter o público até que o problema estivesse solucionado. Resolveram contar histórias que tinham vivido. Aquilo nunca saiu da memória do ator.

“Glória e eu temos muita vontade de fazer, e talvez façamos. É o desejo da realização.”

Tarcísio diz que hoje se vê ocupando o lugar das pessoas que um dia estiveram à sua frente e que já se foram.  “Agora quem está na frente sou eu. É um pouco triste, mas é a vida e não há o que se fazer. O fim é inevitável.”

Ele emenda citando o seu personagem, que reflete sobre o ofício do ator, esse sujeito que “não deixa nada palpável, que é insondável”, que não deixa obras concretas como uma escultura ou uma pintura. 

“O trabalho do ator depende da sensibilidade dos outros. Você vive na memória enquanto existe memória. E enquanto se lembrarem dos personagens que fiz, não vou morrer.”

O Camareiro

  • Quando Sex. e sáb., às 21h, dom., às 18h. Estreia em 25/10. Até 15/12
  • Onde Teatro Faap, r. Alagoas, 903
  • Preço de R$ 100 a R$ 120
  • Classificação 12 anos

Tarcísio nos palcos

‘O Soldado Tanaka’ (1959)  
Peça do dramaturgo alemão Georg Kaiser montada no Brasil sob a direção de Sérgio Cardoso. Foi o primeiro grande sucesso do ator

‘Toda Donzela Tem um Pai que É uma Fera’ (1964) 
Comédia vaudeville de Gláucio Gil, foi o primeiro trabalho a dar o reconhecimento a Tarcísio como um ator cômico

‘Tudo Bem no Ano que Vem’ (1976) 
Maior sucesso de sua carreira teatral, dividido com a mulher, Glória Menezes. Na peça de Bernard Slade, sob a direção de Flávio Rangel, um casal de amantes se encontra todos os anos no mesmo lugar

‘E Continua... Tudo Bem’ (1996) 
Continuação do sucesso ‘Tudo Bem no Ano que Vem’, assinada pelo mesmo autor. Dividida também com Glória Menezes, foi dirigida por Marco Nanini

‘O Camareiro’
Dirigida por Ulysses Cruz, rendeu a Tarcísio um Prêmio Shell após hiato de 20 anos longe dos palcos

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.