Descrição de chapéu Artes Cênicas

Produtor remonta peça que gerou suspeita de fraude e usa nome da mãe em edital

Impossibilitado de solicitar financiamento público, Carlos Alberto Belline usou nome da mãe para inscrição em edital

Manuela Tecchio
São Paulo

Quase 20 anos após ser indiciado por fraude, falsidade ideológica e captação irregular de recursos públicos durante a produção de uma série de peças teatrais, o ator e produtor Carlos Alberto Belline, conhecido no meio como Beto Bellini, volta ao cartaz com um dos espetáculos que estiveram envolvidos na polêmica —“Um Passeio no Bosque”, de Lee Blessing.

Desta vez, a peça recebeu verbas da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, captada pelo ProAC, principal programa paulista de fomento à cultura.

Segundo a secretaria, atualmente Belline responde por quatro projetos solicitados ao programa. Um deles, que financiou a peça “Pequena Mentira Enfeitada”, teve a prestação de contas reprovada e foi encaminhado à Procuradoria-Geral do Estado, a PGE, para a cobrança da dívida. Outro não chegou a ser liberado para captação. Um terceiro, que já foi realizado, ainda está com o uso dos recursos em análise. Apenas um dos projetos está em dia com a instituição. 

Impedido de solicitar financiamento junto à secretaria, Belline realiza a nova montagem de “Um Passeio no Bosque” com o dinheiro de um projeto aprovado no nome da mãe, Clementina José Belline, que, segundo ele, é sua “principal proponente”. Não consta na proposta nenhuma menção a Carlos Alberto Belline. 

Segundo a secretaria estadual, o projeto foi inicialmente reprovado, dada a ausência de portfólio da proponente (a mãe de Belline) na área cultural e a falta de detalhamento em seu currículo. O orçamento inadequado e a incerteza de que Clementina participaria do projeto também pesaram na primeira decisão da comissão estadual responsável por analisar a proposta.

A solicitação foi aprovada após readequação orçamentária e apresentação de novos documentos. Em entrevista, Belline disse que sua mãe sempre esteve envolvida em seus projetos. “Ela tem 80 [anos], conhece mais de teatro do que eu e você juntos e sempre esteve presente nas minhas criações, ensaiou meus atores e me ajudou com tragédia grega e técnicas de estilo literário.”

Belline não especifica, entretanto, qual o papel dela na produção da peça em cartaz. Também não aponta quem é o responsável por cuidar da parte administrativa e orçamentária do espetáculo. 

Quando a montagem original estreou no início dos anos 2000, Christina Streva e Patrícia Gordo, sócias na antiga Streva Gordo Produções, o acusaram de ter falsificado assinaturas e de abrir conta bancária no nome da empresa para aprovar, sem o conhecimento das duas, uma série de projetos de financiamento junto à RioArte —fundo municipal do Rio de Janeiro que já foi extinto. Ao todo, as aprovações para captações somavam R$ 478 mil, em valores da época, conforme a Folha noticiou.

Uma declaração semelhante foi dada por Dionísio Neto, autor de “Perpétua”, peça que foi a principal responsável pela suspeita das fraudes.

Na época, Neto disse que montou o espetáculo com seu próprio dinheiro, sem patrocínio. Em seguida, enviou uma carta à RioArte, negando sua participação no financiamento da peça. Confrontado por Neto e por Samantha Monteiro, sua coprodutora, Belline teria dito que não arrecadou todos os R$ 176 mil aprovados para “Perpétua” e que acabou usando o dinheiro na peça “Um Passeio no Bosque”.

Mas “Um Passeio no Bosque” já havia sido montada no Rio, com verbas de outro projeto de responsabilidade da Streva Gordo, que antes se chamava “Na Bagunça do Teu Coração”. O troca-troca de nomes chamou a atenção da RioArte, que passou a apurar o caso.

Sônia Dantas, secretária-executiva da RioArte na ocasião, disse à Folha que sua antecessora no cargo, Loana Maia, estranhou um documento que pedia a mudança do nome do projeto “Os Príncipes” para “Perpétua”, porque as estruturas dos dois espetáculos apresentava divergências.

Na época, a Polícia Civil do Rio de Janeiro teve dificuldades para intimar Belline a depor, bem como a reportagem da Folha para conseguir entrevista. Hoje, Belline diz que uma mudança de endereço e uma severa depressão o impediram de contar sua versão da história naquele momento. Ele diz que chegou a prestar depoimento e que, dada a falta de provas, a denúncia nem sequer virou inquérito. 

A polícia não conseguiu localizar o caso até a data de publicação deste texto. Não é possível dizer, portanto, se Belline de fato depôs ou se houve abertura de inquérito nos anos 2000. O mesmo problema ocorre em relação às investigações internas da RioArte, já que o órgão não existe mais. 

Sobre a polêmica antiga, Belline afirma que cometeu erros administrativos e até mesmo fiscais, mas diz que nunca teve má índole. O produtor ainda escreveu em seu perfil no Facebook que vai divulgar sua declaração do imposto de renda para comprovar que não enriqueceu com os projetos.

Um Passeio no Bosque

  • Quando Sex. e sáb., às 21h; dom., às 18h. Até 22/12
  • Onde Espaço Elevador, r. Treze de Maio, 222, Bela Vista
  • Preço R$ 40
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