Ellus abre SPFW com desfile-manifesto e ativismo comportado sobre ecologia

Grife despertou de sono fashion e quis sair bem na foto com propaganda tipo 'reciclamos tantas latas'

Pedro Diniz
São Paulo

Demorou para a Ellus acordar do sono que a fez perder um bonde dominado por ela em quatro décadas de vitrine. Enquanto o mundo adotava o “streetstyle” como norte criativo da moda, detonando tênis, jeans e roupa utilitária com apelo estético, a marca paulistana investia nos últimos anos em couro, visual sexy e camisetinha roqueira para despertar a simpatia dos jovens. Não deu certo.

Por isso, a volta da marca à São Paulo Fashion Week, no desfile que abriu a semana de moda neste domingo (13), nas imediações do Farol Santander, na região central, é antes de mais nada um pulo, atrasado, mas em tempo, para voltar aos trilhos.

Nada do que se viu na passarela de ladrilhos daquelas ruas ladeadas por arranha-céus do passado está fora do repertório que fez a grife virar sonho de consumo da juventude dos anos 1980. Havia calças cargo para todos os gostos, moletons estampados com logos em negrito, sneakers de borracha pesada e sarja para um ano inteiro de labuta.

Parcas, jaquetas corta-vento e blusas estampadas com imagens de ondas em preto e branco, tinta retrô que remete ao esporte do momento no país —o surfe— embalam o pacote de roupa jovem proposto nessa nova fase da etiqueta.

Num esforço de se reapropriar da estética pela qual ficou famosa e que hoje é usada à exaustão por grifes internacionais, a Ellus pôs referências a coleções recentes da Calvin Klein imaginada pelo estilista belga Raf Simons e o “street” industrial da Off-White do estilista americano Virgil Abloh.

 
 

É impossível não vincular o laranja usado em cintos, as colagens descoloridas, os coletes e as fitas soltas pelo torso às coleções recentes das marcas que mudaram a cara do estilo “street” no mundo.

Eram, porém, só flashes de déjà-vu no styling bem amarrado e nas peças bem construídas.

Os estilistas Thiago Marcon e Muriel Mingossi, sob a batuta da diretora criativa Adriana Bozon, foram espertos ao privilegiar a cartela de tons sóbrios, voltados à escala gris, cujas cores passeiam entre o branco e o preto mas com diversos matizes de cinza no meio de tudo.

Esse concreto que saltava das peças eram extensões do cimento decorado em que os modelos pisavam rodeados pelos quiosques e mesinhas de bar nas quais parte dos convidados assistia à apresentação. A veia boêmia do centro combinava com o tom festivo pretendido pela marca após dois anos longe dos holofotes.

Não soa estranho, então, que nesse retorno às origens ela atualizasse em seus panos os discursos que dominam a criação de moda e o ativismo da juventude “millennial”. Numa manobra para uma boa foto, como já fazia nos tempos áureos pré-Instagram, pôs placas nas mãos dos modelos com dizeres que explicam o recém-adotado ativismo ambiental da empresa.

Em vez de críticas à gestão ambiental brasileira —plausível de ser explorado devido às manifestações recentes nas mesmas ruas que a grife quis reproduzir—, preferiu fazer propaganda do tipo “ajudamos a reciclar não sei quantas latas”, “estamos com política de lixo zero” etc. É louvável que uma marca de jeanswear se proponha a mitigar danos ambientais, mas em 2014, na mesma SPFW, a grife fez um protesto contundente com placas que traziam críticas à infraestrutura do país, em coleção intitulada “Abaixo Este Brasil Atrasado”.

A coleção atual tem o nome de “Ellus Do More” (Ellus Faça Mais) e se concentra num ativismo asseado, com uma mensagem de esperança que serve mais como verniz responsável do que como  solução prática. O texto da coleção cita um projeto, a ser revelado no próximo mês, que a marca quer lançar em parceria com o refrigerante Guaraná Antarctica “em prol da Amazônia”. O ativismo tem de esperar.

Enquanto isso, a grife olha para problemas mais fáceis de lidar, como a necessidade de adaptar a sua costura à roupa sem gênero, trazendo peças versáteis para homens e mulheres. A cantora não-binária Majur foi contratada para embalar ao vivo o autoproclamado manifesto da marca.“Sampa”, de Caetano Veloso, e “Não Existe Amor em SP”, de Criolo, riscavam a ideia de homenagem e crítica às mazelas paulistanas, abraços e puxões de orelha na mesma medida para uma cidade imperfeita.

Meia hora antes do desfile, carros da guarda municipal levaram a uma correria de moradores de rua no entorno da apresentação. É que, naquele miolo, às noites, carros passam distribuindo comida, e, ao que parece, a imagem de desesperança não ornava com aquela bolha de beleza e altruísmo propagandeada pela moda.

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