Ellus abre SPFW com desfile-manifesto e ativismo comportado sobre ecologia

Grife despertou de sono fashion e quis sair bem na foto com propaganda tipo 'reciclamos tantas latas'

S√£o Paulo

Demorou para a Ellus acordar do sono que a fez perder um bonde dominado por ela em quatro d√©cadas de vitrine. Enquanto o mundo adotava o ‚Äústreetstyle‚ÄĚ como norte criativo da moda, detonando t√™nis, jeans e roupa utilit√°ria com apelo est√©tico, a marca paulistana investia nos √ļltimos anos em couro, visual sexy e camisetinha roqueira para despertar a simpatia dos jovens. N√£o deu certo.

Por isso, a volta da marca √† S√£o Paulo Fashion Week, no desfile que abriu a semana de moda neste domingo (13), nas imedia√ß√Ķes do Farol Santander, na regi√£o central, √© antes de mais nada um pulo, atrasado, mas em tempo, para voltar aos trilhos.

Nada do que se viu na passarela de ladrilhos daquelas ruas ladeadas por arranha-c√©us do passado est√° fora do repert√≥rio que fez a grife virar sonho de consumo da juventude dos anos 1980. Havia cal√ßas cargo para todos os gostos, moletons estampados com logos em negrito, sneakers de borracha pesada e sarja para um ano inteiro de labuta.

Parcas, jaquetas corta-vento e blusas estampadas com imagens de ondas em preto e branco, tinta retr√ī que remete ao esporte do momento no pa√≠s ‚ÄĒo surfe‚ÄĒ embalam o pacote de roupa jovem proposto nessa nova fase da etiqueta.

Num esfor√ßo de se reapropriar da est√©tica pela qual ficou famosa e que hoje √© usada √† exaust√£o por grifes internacionais, a Ellus p√īs refer√™ncias a cole√ß√Ķes recentes da Calvin Klein imaginada pelo estilista belga Raf Simons e o ‚Äústreet‚ÄĚ industrial da Off-White do estilista americano Virgil Abloh.

 
 

√Č imposs√≠vel n√£o vincular o laranja usado em cintos, as colagens descoloridas, os coletes e as fitas soltas pelo torso √†s cole√ß√Ķes recentes das marcas que mudaram a cara do estilo ‚Äústreet‚ÄĚ no mundo.

Eram, porém, só flashes de déjà-vu no styling bem amarrado e nas peças bem construídas.

Os estilistas Thiago Marcon e Muriel Mingossi, sob a batuta da diretora criativa Adriana Bozon, foram espertos ao privilegiar a cartela de tons sóbrios, voltados à escala gris, cujas cores passeiam entre o branco e o preto mas com diversos matizes de cinza no meio de tudo.

Esse concreto que saltava das pe√ßas eram extens√Ķes do cimento decorado em que os modelos pisavam rodeados pelos quiosques e mesinhas de bar nas quais parte dos convidados assistia √† apresenta√ß√£o. A veia bo√™mia do centro combinava com o tom festivo pretendido pela marca ap√≥s dois anos longe dos holofotes.

N√£o soa estranho, ent√£o, que nesse retorno √†s origens ela atualizasse em seus panos os discursos que dominam a cria√ß√£o de moda e o ativismo da juventude ‚Äúmillennial‚ÄĚ. Numa manobra para uma boa foto, como j√° fazia nos tempos √°ureos pr√©-Instagram, p√īs placas nas m√£os dos modelos com dizeres que explicam o rec√©m-adotado ativismo ambiental da empresa.

Em vez de cr√≠ticas √† gest√£o ambiental brasileira ‚ÄĒplaus√≠vel de ser explorado devido √†s manifesta√ß√Ķes recentes nas mesmas ruas que a grife quis reproduzir‚ÄĒ, preferiu fazer propaganda do tipo ‚Äúajudamos a reciclar n√£o sei quantas latas‚ÄĚ, ‚Äúestamos com pol√≠tica de lixo zero‚ÄĚ etc. √Č louv√°vel que uma marca de jeanswear se proponha a mitigar danos ambientais, mas em 2014, na mesma SPFW, a grife fez um protesto contundente com placas que traziam cr√≠ticas √† infraestrutura do pa√≠s, em cole√ß√£o intitulada ‚ÄúAbaixo Este Brasil Atrasado‚ÄĚ.

A cole√ß√£o atual tem o nome de ‚ÄúEllus Do More‚ÄĚ (Ellus Fa√ßa Mais) e se concentra num ativismo asseado, com uma mensagem de esperan√ßa que serve mais como verniz respons√°vel do que como  solu√ß√£o pr√°tica. O texto da cole√ß√£o cita um projeto, a ser revelado no pr√≥ximo m√™s, que a marca quer lan√ßar em parceria com o refrigerante Guaran√° Antarctica ‚Äúem prol da Amaz√īnia‚ÄĚ. O ativismo tem de esperar.

Enquanto isso, a grife olha para problemas mais f√°ceis de lidar, como a necessidade de adaptar a sua costura √† roupa sem g√™nero, trazendo pe√ßas vers√°teis para homens e mulheres. A cantora n√£o-bin√°ria Majur foi contratada para embalar ao vivo o autoproclamado manifesto da marca.‚ÄúSampa‚ÄĚ, de Caetano Veloso, e ‚ÄúN√£o Existe Amor em SP‚ÄĚ, de Criolo, riscavam a ideia de homenagem e cr√≠tica √†s mazelas paulistanas, abra√ßos e pux√Ķes de orelha na mesma medida para uma cidade imperfeita.

Meia hora antes do desfile, carros da guarda municipal levaram a uma correria de moradores de rua no entorno da apresenta√ß√£o. √Č que, naquele miolo, √†s noites, carros passam distribuindo comida, e, ao que parece, a imagem de desesperan√ßa n√£o ornava com aquela bolha de beleza e altru√≠smo propagandeada pela moda.

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