Descrição de chapéu

Livro fragmentário de Adriana Lisboa questiona ideia de pertencimento

Nova obra da escritora, 'Todos os Santos' tem personagens desenraizados, fora de lugar e dos eixos

Alvaro Costa e Silva

Todos os Santos

  • Preço R$ 49,90 (152 págs.)
  • Autor Adriana Lisboa
  • Editora Alfaguara

"Todos os Santos” é um livro em movimento. Vanessa e André —os protagonistas do romance recém-lançado de Adriana Lisboa— vivem na Nova Zelândia, pesquisando aves migratórias. Mais especificamente uma espécie rara, o fuselo, ou “kuaka”, em seu nome maori. O animal empreende o voo ininterrupto mais longo já registrado, sem parar para dormir, se alimentar ou descansar, esforço físico sem paralelo em qualquer outro vertebrado —nove dias do Alasca à Oceania.

Narrado de forma fragmentária, ora lembrando uma carta que passa a limpo todos os afetos, ora um longo depoimento íntimo em primeira pessoa, ora uma improvável playlist na qual convivem Bob Dylan
Capital Inicial, David Bowie e o palhaço Carequinha, o relato elege a linha da fronteira entre passado e presente, indo de um lugar para outro, voltando e partindo.

Da mesma maneira fugidia e irrequieta age o casal de personagens, se encontrando e se desencontrando, primeiro no Brasil, depois pelo mundo.

A escritora Adriana Lisboa - Julie Harris

Ligados desde a infância por uma perda dolorosa e algo misteriosa —a morte de Mauro, irmão mais novo de Vanessa e colega de escola de André, que sofre um choque e morre afogado numa piscina— eles se comportam como as aves de migração que um dia irão estudar.

“Mas talvez tudo não passasse mesmo daquela diáspora que já cogitei, nós três em rota de fuga, tropeçando em nossos próprios passos enquanto fugíamos”.

O terceiro vértice do triângulo é Isabel, irmã de André, uma presença enigmática que também surge e desaparece.

Como em suas obras anteriores de maior fôlego —  “Hanói” (2013), “Azul Corvo” (2010), “Sinfonia em Branco” (2001)— Adriana Lisboa (ela própria uma nômade: nascida em 1970 no Rio de Janeiro, já viveu na França, no México, na Nova Zelândia, no Japão e nos Estados Unidos) constrói personagens
desenraizados, deslocados, fora de lugar e dos eixos.

O estranhamento se traduz numa linguagem rarefeita, hard, elíptica, bem longe de certa natureza delicada com a qual se costuma comparar a escrita feminina.

Num livro tão volátil como “Todos os Santos”, a ideia de pátria ou pertencimento a um país tende a sumir no tempo, na distância e na paisagem de territórios estranhos.

Mas ela insiste e se faz presente na geografia da memória de um Rio que passou e não volta mais (vale registrar que “Todos os Santos” é o nome do subúrbio carioca onde morou Lima Barreto) e nos desdobramentos políticos dos quais as personagens são testemunhas durante infância e juventude —a ditadura militar, a redemocratização e as dúvidas do momento atual.

A determinada altura, mais para o fim da “carta”, a narradora reflexiona: 

“Escuto umas pessoas com desejos de extrema direita no Brasil, manifestando saudade dos militares, querendo um país autoritário, sei lá eu, mas esse deve ser só uma esquizofrenia pontual, não vai colar. A gente conhece a história bem e sabe que ela não vai andar para trás. Mas que dá um certo medo, dá.” 

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