Descrição de chapéu Obituário valda nogueira (1985 - 2019)

Fotógrafa Valda Nogueira conseguia demonstrar a delicadeza do cotidiano

Formada pelo projeto Escola de Fotógrafos Populares, na Maré, artista morreu no Rio de Janeiro, nesta quinta (3)

Djamila Ribeiro

É sempre doloroso dizer adeus, ainda mais quando é de forma tão precoce e repentina, quando ainda se tinha muito para oferecer. Uma história inspiradora foi interrompida hoje por um brutal fim.

Valda Nogueira, fotógrafa e artista visual, morreu atropelada no Rio de Janeiro na madrugada de quinta-feira (3).

Sempre apontando uma fresta de luz, conseguia demonstrar a delicadeza do cotidiano, possuía uma obra densa e comprometida. Mesmo diante de uma realidade tão dura, sua arte não nos deixava brutalizar.

Em seu site, era possível enxergar tanto a força de registros de luta, quanto a colheita de flores, como no trabalho “Tempo de Flor”, no qual fez registro da colheita de flores sempre-viva em comunidades tradicionais rurais.

Formada pelo projeto Escola de Fotógrafos Populares, na Maré, Nogueira começou a fotografar aos 19 anos. Aos 34, ela estava ampliando sua formação na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde cursava artes visuais.

Em paralelo, atuava no Coletivo Farpa, na plataforma Women Photograph e nos projetos Diversify.Photo e MFON Women. O trabalho de Nogueira refletia sua ligação com a ancestralidade e com o comprometimento social. Com um vasto currículo, seus trabalhos já haviam sido publicados em veículos de grande circulação como Folha, The Washington Post e The New York Times.

Profissionais da área, como a fotógrafa Marcela Bonfim, lamentaram a perda. “Enxergar uma mulher negra, fotógrafa, no Rio de Janeiro e na Maré —onde fui ver seu trabalho— alimentou o imaginário de esperanças; como é bom ter uma presença negra tão relevante, num campo tão embranquecido. Valda me trouxe, além de tudo, a coragem de submeter nossas questões em espaços ainda limitados para nós, fez a diferença. Quantas portas Valda nos abriu. É triste dizer isso agora, não tínhamos em mente esse caminho, que até parece um sonho ruim. Seu legado nos fortalecerá”, diz.

Representantes do Coletivo Farpa a descreveram como uma pessoa bonita e, neste momento, irão celebrar a vida e a obra dela como um modo de homenageá-la. “Não dá para entender e assimilar ainda o que aconteceu, mas Valda conseguiu eternizar a beleza do seu trabalho, faremos dele uma celebração de sua pessoa talentosa, afetuosa e que nos marcou profundamente”, disse Christian Braga, amigo e fotógrafo do Coletivo Farpa.

Amanhã, dia 5 de outubro, às 15h, Valda participaria de uma roda de conversa que marcaria o encerramento da exposição “Através do Olhar”, no Sesc Madureira, no Rio de Janeiro. O evento será mantido e foi transformado em uma homenagem póstuma à fotógrafa, que deixa saudades e um grande legado.

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