Livro traz aventuras no Brasil de Alice Pink Pank, cantora e absurdette da Gang 90

A gravação de um dos principais álbuns do rock brasileiro está enredada nas peripécias da holandesa no país

São Paulo

A gravação de um dos principais álbuns do rock brasileiro está enredada nas aventuras de uma jovem holandesa no país. O melhor caminho para conhecer o disco "Essa Tal de Gang 90 & Absurdettes" (1983) é colar na cantora e tecladista Alice Vermeulen, a Alice Pink Pank.

O livro que tem o mesmo nome do álbum, escrito pelo também holandês Jorn Konijn, tem lançamento nesta segunda (28), em São Paulo. Um bate-papo vai reunir o autor, Alice, May East, outra absurdette, e o guitarrista Miguel Barella, que tocou na Gang 90.

A frase "minha vida daria um livro" nunca passou pela cabeça da holandesa. "Fiquei completamente surpreendida. Nunca pensei que, 35 anos depois, um holandês fosse me procurar com tanto interesse por tudo que aconteceu", diz à Folha.

Incentivada por uma amiga brasileira que conheceu na Europa, ela veio ao Brasil em 1981. Na casa noturna Pauliceia Desvairada, de Nelson Motta, conheceu Júlio Barroso, que era DJ no local. Além de começarem um namoro, ele levou Alice para seu projeto de formar uma banda.

Poeta, jornalista e agitador cultural, Barroso tinha passado temporadas loucas em Nova York e estava empolgado com a cena new wave. Queria montar uma banda, mesmo sem saber cantar ou tocar.

"Ele tinha as ideias, tinha muita informação de música, uma coleção gigantesca de discos, sempre pesquisando", conta Alice. "Não tocava um instrumento, mas tinha as ideias e o talento de botar as pessoas juntas para aquele som que estava na cabeça dele."

O livro dedica muitas páginas a contar as peripécias de Barroso em Nova York, para entender as referências que fizeram o caldo musical da Gang 90. Músicos diferentes entravam e saíam da banda. "Isso era o Júlio. Ele chegava para uma pessoa que tocava guitarra e dizia ‘agora você vai tocar baixo’. Foi assim com a Claudinha Niemeyer", diz Alice.

Na gravação do álbum, que demoraria meses entre as composições das músicas, o núcleo fixo da Gang 90 era Barroso, o guitarrista Herman Torres e as vocalistas Alice, May East e Lonita Renaux, que era Denise Barroso, irmã de Júlio.

Entre os muitos amigos que eram recrutados estava Guilherme Arantes, parceiro de Barroso em "Perdidos na Selva", música que o grupo defendeu no festival MPB Shell 1981, na Globo.

A repercussão levou a Gang 90 a uma jornada por shows e participações na TV, contada no livro com doses fartas de sexo, drogas e rock and roll. Um dos diferenciais do volume é o olhar estrangeiro de Alice. Ela foi ao programa do Chacrinha sem ter a mínima noção de como era. Ao chegar lá, viu um clown velhinho jogando bacalhau na plateia.

"Fiquei completamente chocada. uma loucura absurda. Na Holanda eu não tinha experiência com TV, mas tinha certeza que não era assim", diz Alice, aos risos.

O choque cultural se espalha pelo livro, incluindo a difícil adaptação de Alice ao voltar para a Holanda, em 1985.

"Foi estranho chegar ao Brasil e ver que estava tudo bem chegar atrasado, cometer todas as loucuras. Achava legal aquelas pessoas jovens, cheias de energia e talento, que, de repente, faziam algo acontecer.

Na Holanda era bem diferente. Na volta, entrei num grupo que ficava tudo certinho, tudo no horário, mas não tinha aquela onda de criação, de energia, de entusiasmo. E o público holandês ficava ouvindo de braços cruzados. No Brasil as pessoas enlouqueciam, dançando e cantando junto."

Sua performance no palco do festival da Globo rendeu um convite para fotos na Playboy. Aceitou e achou muito esquisito posar nua, mas depois de alguns meses voltaria a fotografar para a revista, num editorial de "garotas do rock".

Quando o disco da Gang ficou pronto, Alice já estava de saída. Sua relação com Barroso havia terminado e ela se mudou para o Rio, indo morar com o novo namorado, Lobão. Com ele gravaria "Ronaldo Foi pra Guerra" (1984), outro disco essencial na consolidação do rock brasileiro na época.

Júlio Barroso morreu em junho de 1984, após cair da janela de seu apartamento. Nos anos seguintes, Taciana Barros, que tinha entrado na banda no lugar de Alice, levou em frente o grupo por mais dois discos, sem a mesma repercussão.

Alice diz que na época gostou mais do álbum que gravou com Lobão & Os Ronaldos, mas que sua opinião foi mudando nos anos seguintes.

"Achava que algumas músicas de ‘Essa Tal de Gang 90’ eram antiquadas. Mas hoje, em retrospectiva, comecei a gostar muito mais do disco. É o produto de uma época, reunião de pessoas com vários backgrounds que fizeram algo diferente. Hoje eu acho superbom."

Depois de se separar de Lobão, Alice voltou para a Holanda, mas por pouco tempo. Morou na Bulgária, casou-se com um músico húngaro, passou por nova separação e, depois de três anos na Grécia, encontrou na Holanda motivos para ficar de vez.

"Encontrei o maior amor da minha vida, com quem tive uma filhinha que hoje tem 22 anos. Nesses últimos tempos eu fui mãe, só tomava conta dela."

Depois de deixar o Brasil, Alice teve pouco contato com seus parceiros brasileiros. Trocou cartas com May East e muitos telefonemas com Lobão. Com a internet e o lançamento do livro, está se conectando de novo com sua aventura brasileira.
 

Essa Tal de Gang 90 & Absurdettes

  • Onde Lançamento na segunda (28), às 19h, na Livraria Tapera Taperá, av. São Luís, 187, 2º andar.
  • Preço R$ 40 (224 págs.)
  • Autor Jorn Konijn
  • Editora Cobogó
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