Descrição de chapéu Moda

Quarto dia de SPFW tem inspiração em 'Game of Thrones' e resposta a Damares

Glória Coelho abriu desfiles desta quinta (17) com apelo pop e João Pimenta sugeriu imagens de lésbicas poderosas

Pedro Diniz
São Paulo

No universo de possibilidades dos discursos identitários aplicados à moda, como os que tocam em questões de gênero, origem e orientação sexual, às vezes é preciso falar com todas as letras e usar todos os tecidos para veicular uma ideia.

No quarto dia de desfiles da São Paulo Fashion Week, dois estilistas que fundiram elementos dos guarda-roupas masculino e feminino bem antes de surgir o termo “sem gênero”  versaram sobre o cruzamento e os abismos da feminilidade e da masculinidade.

Glória Coelho abriu os desfiles desta quinta-feira (17) viajando longe para uma terra de dragões, deusas e seres fantásticos inspirados na série “Game of Thrones” e no livro “Necromance e a Conquista do Planeta dos Dragões”, do autor mineiro Ricardo Gontijo Valle, de apenas dez anos.

O apelo pop era só desculpa —ainda que bem executada em ilustrações, texturas de pele animal aplicada em vestidos e proporções amplas—para atualizar sua reconhecível tesoura de alfaiataria.

Os astros que sempre encantaram a designer surgiram nas propostas metalizadas e nos volumes da moda espacial, mas foram embaralhados em peças que bebem da fonte do smoking masculino e dos cortes “de homem”, soltos no corpo e de braços descobertos, prontos para um combate interestelar ou para uma  Westeros da vida real.

As clientes de Coelho, segundo ela mesma, são “mulheres especiais”, muitas delas mais velhas, que gostam de um visual clássico e sem as firulas do ideal doce da tal feminilidade que a moda reproduziu ao longo do século 20.

Elas guardam alguma semelhança com as de João Pimenta, estilista que subiu o tom contra o preconceito de gênero ao criar roupas pensando em lésbicas, ou melhor dizendo, em “sapatonas”, como se canta a música “Felizmente Sigo Sapatona”, da cantora GA31, que soava pela sala de desfiles montada no Pavilhão das Culturas Brasileiras.

Reconhecido pela clientela masculina que curte saias, aplicações pela roupa e um visual menos engessado nos padrões machistas difundidos na costura, Pimenta soltou a voz contra o cerceamento de liberdades, com destaque óbvio para a liberdade de se vestir.

O bloco inicial de roupas foi uma espécie de resposta a declarações da ministra Damares Alves, que defende uma “nova era, na qual meninos vestem azul, e meninas vestem rosa”.

Assim que a trilha começou, Pimenta sugeriu, por meio de GA31, que a ministra “aceite, supere, entenda, que essa é a nova era”. E logo entraram modelos trajadas em terninhos desconstruídos, azuis-menino e cinza-unissex.

Como se contasse o périplo de aceitação e preconceito dessas mulheres jogadas à margem, mesmo dentro da comunidade LGBT, o estilista vai abrindo fendas, pontas soltas e arreando peças para libertá-las de convenções.

Libertadas das cartilhas de conduta, as “sapatonas” de Pimenta exibiram peças de couro justas, doudounes de náilon transformados em armaduras e itens fetichistas de metal.

Capas longas do tipo bruxa, —ela, mais uma vez retratada nesta SPFW, só que no contexto de perseguição milenar a que foram submetidas algumas mulheres—, receberam a inscrição Lilith nas costas, uma referência àquela que muitos consideram a primeira feminista da mitologia.

Cortada dos textos bíblicos, acredita-se que ela tenha sido a primeira mulher de Adão, expulsa do Éden por não querer se rebaixar à hegemonia do homem. Execrada pela história, teria sido chamada de o demônio da noite que antecede tempestades.

Esse personagem obscuro da mitologia simboliza não apenas a aura mística em voga nesta temporada, mas também a ideia de perseguição, que resvalou nas passarelas.

Nesse contexto, a Amapô, de Carô Gold e Pitty Tagliani, foi buscar no sertão do Cariri, no Ceará, a base de sua coleção que homenageia o artesão de couro mais internacionalizado do país, mestre Espedito Seleiro.

Ele, que completa 80 anos neste mês e destila em seu trabalho a cultura do povo nordestino, é uma peça-chave na concepção que a grife faz de um Brasil que não valoriza suas raízes e, não raramente, reatrata a imagem do nordestino com viés exótico e preconceito.

As estilistas aplicam o repertorio estético coloridíssimo de Seleiro em jaquetas, calças e pochetes que poderiam ser usadas por qualquer moderno do Baixo Augusta ou quem curte dançar forró sem medo de julgamentos --pares lésbicos, gays e heterossexuais dançaram juntos na passarela.

Nessa época em que pairam palavras dúbias e atitudes obscurantistas contra a liberdade disfarçadas de defesa da moral, um papo reto e uma imagem incisiva às vezes pode ser a única saída para quem ainda resiste à caretice.

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