Descrição de chapéu Cinema

Scorsese volta à Máfia na superprodução 'O Irlandês', com De Niro e Al Pacino

Superprodução chega à Netflix em novembro, após estreia limitada nas salas de cinema

Francesca Angiolillo
Nova York

O plano-sequência atravessa corredores. Levado pela câmera subjetiva, o espectador percorre diferentes ambientes, embalado por uma canção do passado.

Pode ter saltado na memória dos fãs de Martin Scorsese o célebre “Copa shot”, a sequência de “Os Bons Companheiros” em que Henry Hill, personagem de Ray Liotta, conduz a namorada, Karen, vivida por Lorraine Bracco, pelas entranhas do clube Copacabana, em Nova York.

Aqui, contudo, o cenário passa longe do aspecto glamoroso do submundo que seduziu Hill, explorando as íntimas relações da Máfia com a vida política americana. 

Vemos cabelos brancos e enfermeiros. Estamos num asilo, e a câmera repousa em Robert De Niro, como Frank Sheeran, que, da sua cadeira de rodas, rememora, em flashbacks dentro de flashbacks, o seu passado a serviço da Cosa Nostra.

“O Irlandês” fez sua estreia no Festival de Nova York, em setembro, e foi aclamado pela crítica como obra-prima.

Estão no longa aspectos que fazem com que o espectador reconheça rápida e confortavelmente estar em território de Scorsese —o ritmo preciso, a narração, o humor que vem distender a violência.

A violência, essa, é tratada de forma seca —Sheeran, veremos, é um matador preciso, e sua contenção não está só no gestual econômico de De Niro. O retrato dos crimes não cai no excesso, nem de sanguinolência, nem de estetização.

De Niro, como personagem-título, contracena com Al Pacino no papel de Jimmy Hoffa, líder sindical —assim descreve o filme— tão famoso quanto Elvis nos anos 1950 e mais que os Beatles nos anos 1960.

O cerne do elenco se completa com Joe Pesci, num retorno às telas após a aposentadoria autoimposta em 2006. 

Ele é Russell Bufalino, “capo” da Máfia de Pensilvânia que contrata Sheeran —apelidado de Irlandês por suas origens— e o apresenta a Hoffa.

“Ouvi dizer que você pinta casas”, diz Hoffa a Sheeran em sua primeira conversa, ao telefone. A frase —em inglês, “I heard you paint houses”—, um eufemismo para “cometer assassinatos”, é a chave para que suas vidas se entreteçam. A trama trata de lealdade —e de matar para não morrer.

A expressão é também o título das memórias de Sheeran contadas por Charles Brandt e publicadas em 2004, ano seguinte à morte do Irlandês, aos 83. No livro, Sheeran diz ter assassinado Hoffa. O desaparecimento sem rastros do líder, em 1975, gerara muita especulação, mas nenhuma explicação plausível até então.

A adaptação é uma saga não só pelo arco temporal que cobre —um período de mais de 30 anos, narrado a partir de um epílogo distante outros 20 dos fatos— mas pelo que significou como produção. 

O projeto foi acalentado por uma década por Scorsese, ao longo da qual o orçamento foi subindo. Até que a Paramount, produtora original do filme, desistiu e o passou para as mãos da Netflix em 2017.

Terminou custando estimados US$ 175 milhões, grande parte dos quais consumidos em recursos de rejuvenescimento digital que permitiram que os protagonistas fossem vividos pelos mesmos atores ao longo de toda a história.

Havia muita expectativa sobre o que o aparato da Industrial Light & Magic de George Lucas seria capaz de fazer. 

Não espere De Niro, 76, como em “Taxi Driver”, também dirigido por Scorsese, em 1976; ou Pacino, 79, como o charmoso Michael Corleone em 1974, no “Poderoso Chefão 2”, de Francis Ford Coppola.

O efeito final é até mais interessante do que uma plástica perfeita; notamos por trás da pele lisa os traços e gestos de quem já viveu muito —como talvez se recorda alguém que, velho, repassa toda sua vida. 

“Como ator eu brinco que isso vai estender minha carreira por mais uns 20, 30 anos”, diz De Niro. É um dos poucos momentos em que se descontrai na entrevista concedida a sete jornalistas latino-americanos, incluindo esta repórter, reunidos em Nova York.

“De certo modo eles podem seguir em frente sem a gente... Mas conosco”, ri Pacino, acrescentando que pode ser um problema “para os herdeiros”, como já encetara De Niro, considerando que a tecnologia vai se aprimorar.

“Quem sabe aonde isso nos levará em 20 anos? Se podemos chegar a qualquer ponto, em termos tecnológicos, como lidar, como proteger os direitos [dos atores]?”

Ali, ao receberem a imprensa, os companheiros parecem continuar nos personagens. 

De Niro aperta os lábios, falando pouco, às vezes assentindo calado, como Sheeran; Pacino, histriônico, solta a voz rouca em alto volume, como seu Hoffa, um excêntrico manda-chuva comedor de sorvete e sem papas na língua.

Suas atuações, e a de Pesci, 76, foram reconhecidas como magistrais, o que certamente contribui para que as três horas e meia do filme não tenham um minuto maçante. 

É legítimo pensar que, para um time experiente, possa ter algum impacto saber que seu trabalho não vai ser prioritariamente visto nos cinemas.

“O Irlandês” terá uma estreia limitada em salas —no Brasil, a data é 14 de novembro— antes de ser exibido mundialmente pela Netflix, a partir de 27 do mesmo mês.

“Acho que você não está pensando em como vai ser apresentado, você parte do princípio de que é um filme”, pondera Pacino, para depois dizer que “queria pedir à Netflix que tentasse contentar as pessoas que vão ao cinema”.

Hesitando, diz que gosta de Netflix, que assiste, mas que, como ouviu “de um diretor de cinema muito conhecido”, o público hoje picota o que assiste no streaming. “É difícil, quando se pensa nos filmes que saíam em 35 mm, significava tanto para como o filme era absorvido ser em 35 mm e ser visto continuamente”, diz.

“É uma experiência artística diferente se você sabe que vai sentar num cinema e assistir ou se você sabe que vai parar, atender ao telefone...”

“Este filme foi feito para o cinema tradicional, que é algo da nossa geração”, completa De Niro, coprodutor do longa. 

“Quando se tem uma experiência coletiva no cinema, todo mundo sabe, é diferente”, continua. “Não gosto de ver um filme que fiz, a não ser com público. Você sente como as pessoas estão atentas. Pessoalmente, eu gosto disso.”

O Irlandês

  • Quando Estreia em circuito limitado de cinemas em 14/11 e, na Netflix, em 27/11
  • Elenco Robert De Niro, Al Pacino e Joe Pesci
  • Produção EUA, 2019
  • Direção Martin Scorsese

OS BONS COMPANHEIROS

Al Pacino e Robert De Niro
Fizeram ‘O Poderoso Chefão 2’ (1974), sem contracenarem. Isso só se daria, brevemente, em ‘Fogo contra Fogo’ (1995). Trabalharam juntos em ‘As Duas Faces da Lei’ (2008)

Al Pacino e Martin Scorsese
De Niro e Joe Pesci estão entre seus prediletos, mas Scorsese nunca dirigira Pacino, que, como os dois, ascendeu na carreira durante o auge dos filmes de gângster

A jornalista viajou a convite da Netflix

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