Diretor do Museu de Arte do Rio deixa posto com críticas à prefeitura

Evandro Salles disse, em anúncio, que museu passa por 'profunda crise financeira e política'

Nicola Pamplona
Rio de Janeiro

Com críticas à Prefeitura do Rio e o que chamou de "profundo desmantelamento de aparatos culturais e artísticos", o diretor cultural do Museu de Arte do Rio, o MAR, Evandro Salles, anunciou neste sábado (2) que está deixando o cargo, três anos após a sua indicação.

Inaugurado pelo então prefeito Eduardo Paes em 2013, como parte do processo de revitalização da zona portuária do Rio, o MAR vem enfrentando dificuldades financeiras e é alvo de disputa entre o prefeito Marcelo Crivella e a Fundação Roberto Marinho, parceira de Paes na construção do museu.

O Museu de Arte do Rio (Mar)
O Museu de Arte do Rio (Mar) - Divulgação

"Deixo o posto em meio à uma profunda crise financeira e política vivida pela instituição, devido às dificuldades insuperáveis do poder público em entender o papel cultural, educacional e socioeconômico do museu para a cidade e o país e atender às suas necessidades básicas de manutenção", afirmou Salles, em nota divulgada nas redes sociais.

"Nesse momento de profundo desmantelamento dos aparatos culturais e artísticos brasileiros, é fundamental e urgente que possamos discutir a significação da arte e da cultura e, dentro desse universo, o papel de um museu de arte e cultura visual para uma cidade, uma sociedade, um país."

Em julho, Crivella instaurou sindicância para analisar contratações sem licitação da Fundação Roberto Marinho durante a gestão Paes. São ao menos 15 contratos, que renderam R$ 103,7 milhões à entidade. O maior deles é justamente para a construção do MAR. 

Esse contrato já havia sido considerado irregular por auditoria do município durante a gestão do próprio Eduardo Paes. Na época, a fundação afirmou à Folha que todos os contratos "estão em perfeita conformidade com a legislação aplicável".

O último balanço publicado na área de transparência do site do museu mostra déficit de R$ 62 mil em 2017, quando o museu teve receitas operacionais de R$ 58,020 milhões de despesas.

A maior parte da receita  —R$ 49,1 milhões— vem de subvenções governamentais. Em entrevista à Folha no mês passado, o prefeito Marcelo Crivella afirmou que a situação dos museus do Rio estava equacionada, mas voltou a criticar a parceria com a Fundação Roberto Marinho, que chamou de "mimo que o antigo prefeito fez para a Globo".

"A Cidade das Artes teve 400 mil visitantes, coisa que nunca teve no passado. Está um colosso, não tem um salário atrasado. O Museu do Amanhã e o MAR, projetos da Fundação Roberto Marinho, é a mesma coisa."

Na nota divulgada neste sábado, Salles defende a gestão do museu pelo esforço "em construir um espaço de reconhecimento da pluralidade sociocultural brasileira, de reafirmação das culturas populares tradicionais formativas do país, das manifestações artísticas transversais que atravessam os diversos sistemas produtivos da arte contemporânea e de reafirmação da arte como instrumento de consciência e transformação".

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