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Míriam Leitão brinca com viagens ao passado e ao futuro em novo livro infantil

Em época de lama e conflitos por terra, história traz o rio Doce limpo e o povo krenak

Bruno Molinero
São Paulo

​Você pode ser mais da turma do Caetano e achar que ele é um dos deuses mais lindos. Ou preferir o Gil e considerá-lo um rei. Não importa —no novo livro infantil da jornalista Miriam Leitão, o tempo é as duas coisas.

“As Aventuras do Tempo”, que sai agora pela Rocco, esconde o tique-taque do relógio em cada linha. Ele está na personagem principal, Mel, por exemplo, que pede para a avó contar histórias de quando ela era criança e vê o tempo aparecer em brincadeiras de antigamente e em uma época sem internet ou celular.

Ele está também no surgimento da história, quase autobiográfica ao se desenrolar na região do rio Doce, em Minas Gerais. “Foi onde passei a minha infância”, diz Míriam Leitão. “Quando a neta da minha irmã falou que nunca tinha visto a avó criança, achei aquela frase tão maravilhosa que comecei a escrever o livro.”

O tempo ataca também na região da aventura. Na obra, o rio Doce está limpo e muito distante do lamaçal de mineração que destruiu a área em 2015. Lá, os krenak lutam por suas terras, mas sem a pressão de um governo que não demarcará novas terras indígenas, nas palavras do presidente. Vida e literatura formam outros tempos.

“Quis falar disso no livro, mas sem entrar na má notícia. Procuro sempre levar uma mensagem de maneira divertida para a criança. Não quero que lembre uma lição da escola”, explica a autora.

Em seus outros títulos infantis, Leitão já tratou de temas como ecologia, educação, adoção e racismo. “O livro precisa sempre ter um objetivo.”

Na nova história, depois de Mel ouvir a avó, a menina decide explorar a região do rio Doce, onde acaba quase se afogando e precisa ser salva por um jovem índio. Com o rapaz, ela passa a entender melhor a disputa entre os krenak e os fazendeiros por aquelas terras e vai brincar na mata que se tornaria, tempos depois, o Parque Estadual do Rio Doce.

A jornalista Miriam Leitão no lançamento do seu livro 'A Verdade É Teimosa', em 2017
A jornalista Miriam Leitão no lançamento do seu livro 'A Verdade É Teimosa', em 2017 - Bruno Poletti/Folhapress

“É assim que as histórias sobrevivem por gerações, sendo contadas de pais para filhos. Para os meus netos, eu transformei todas em livros”, conta. 

E é então que ele ataca de novo: jornalista, colunista, comentarista de economia e de política da Globo, como Míriam Leitão consegue tempo para escrever livros para crianças em tempos tão conturbados do país?

A autora ri. “Às vezes a ideia surge no meio de uma confusão”, diz. “Então começo a escrever o início daquele livro infantil para não perder a ideia e logo mudo de arquivo para terminar uma coluna sobre o Copom, por exemplo.”

Para ela, suas criações para crianças funcionam como uma máquina do tempo que a transporta não apenas para a infância, mas para um momento mais idílico ou até onírico do dia a dia. Como um oásis em que o tique-taque do relógio não seja tão incisivo.

“É a hora que tenho de respiro da rotina, uma válvula de escape, uma brincadeira”, conta. Ou um tempo sem as pressões do tempo.

As Aventuras do Tempo

  • Quando Lançamento no Sempre um Papo, neste sábado (23), às 15h
  • Onde Museu dos Brinquedos (av. Afonso Pena, 2.564, Belo Horizonte)
  • Preço R$ 49,90 (40 págs.)
  • Autor Míriam Leitão
  • Editora Rocco
  • Ilustradora Marcella Tamayo

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