Descrição de chapéu Livros É Coisa Fina

Seriam as feministas seres de outro mundo?

Em 'Colégio de Freiras', assim que Vânia se torna feminista começa a falar em discos voadores e sua aparência fica igual à de um ET

Colégio de Freiras

  • Preço R$ 39,90 (118 págs.)
  • Autor Raimundo Carrero
  • Editora Iluminuras

Boa parte do material encontrado a respeito da obra “Colégio de Freiras”, do premiado escritor Raimundo Carrero, vai lhe deixar com muita vontade de ler a história de Vânia, uma jovem que, por perder a virgindade, é condenada pelo pai a viver em uma Colônia Penal (uma prisão-convento) no Recife.

Com escrita precisa, o livro é recheado de bons personagens, cenas cinematográficas, metáforas engenhosas, piadas de costume inesquecíveis… mas também de uma sensação de que as narrativas apresentadas, por melhores que sejam, não se aprofundam.

Anuncia-se um romance tórrido entre garotas lascivas e solitárias. Mas isso não acontece. Apresenta-se uma garota “luxenta” (no café da manhã ela só toma champanhe) que provavelmente vai causar no prostíbulo pé-rapado ao qual acaba de chegar. Mas isso não acontece. Em algum momento achamos que Vânia, tocada pelo movimento feminista, vai incendiar a cidade. Mas isso não acontece.

O escritor Raimundo Carrero - Sérgio Figueiredo/Folhapress

Quer dizer, na verdade, tudo isso está lá. Prometido, pensado, en passant, como que resumido para um grande romance ou filme premiado. Daí você me diz: “É porque é uma novela, e elas são assim mesmo, mais curtas”. Bom, contos são ainda menores, porém, muitas vezes (os que lembramos), nos arrebatam com tamanha profundidade que parecem gigantes.

Uma garota ir parar em um presídio com padres apenas porque transou; a mesma garota ir parar em um prostíbulo com freiras apenas porque transou —e não foi pouco—; ainda essa Vânia dormindo no chão de um circo-templo com rezas e diversões sexuais. Histórias que renderiam isoladamente, entretanto, embrenhadas assim, deixam a sensação de superficialidade e incompletude.

A mãe de Vânia compra uma minissaia para a filha depois de a jovem apanhar muito do pai apenas por ter se referido à tal peça curtíssima. Uma bela passagem. Essa mesma mulher ensina a filha a fazer sexo anal para não perder a virgindade da vagina. Outro parágrafo memorável. A obra é inteira ornamentada pelo talento do autor para elaborar metáforas, diálogos e situações. Contudo, a miscelânea não funciona.

Carrero tentou dar conta de coisas demais em pouco espaço. É Milena (feia, apaixonada, lésbica, puta, assassina, fã de cinema americano e de música francesa) que narra a história de Vânia (linda, abusada, maltratada, pecadora, puta, feminista, maluca, ET), que, por sua vez, narra a história de outras moças e idosos e santos e doidos.

Episódios totalmente deslocados de militâncias variadas soam chatos e forçados. Poesia contra o mal, combate às dores do mundo, ETs defendendo mocinhas ultrajadas, profetas que aparecem do nada (vindo de outras obras do autor) compõem outros lances mais fracos da novela.

Vânia relata um caso de abuso que sofreu na infância (o faz-tudo da casa acabou passando dos limites enquanto lhe dava banho), mas, aos seus olhos, esse foi apenas um momento de grande liberdade, de extrema beleza, de vida contra toda a repressão e caretice. Se a proposta do livro é também homenagear mulheres e suas lutas, não caberia um desfecho mais pesado para o estuprador do que simplesmente a garota receber um desenho fofo feito por ele?

Acredito que rapazes podem militar por direitos femininos. Acredito que narradoras podem ser escritas pela mão de um homem. Contudo, assim que Vânia se torna feminista começa a falar em discos voadores e sua aparência fica igual à de uma extraterrestre. O que o autor quis dar a entender com isso? Seriam as feministas, que ele aparentemente quer tanto homenagear, seres de outro mundo? Prefiro ser deste mundo e ganhar respeito aqui mesmo.

O livro tem personagens excelentes (como doutor. Vesúvio, o pai nojento, machista e agressivo que futucava as micoses do pé com tamanho prazer que chegava a ter orgasmos) e outros bem engraçados (como o padre apelidado de Piroquinha, uma espécie de homem santo com micropenia). Tem ainda trechos belíssimos e cinematográficos, como o da narradora Milena ao observar o corpo perfeito de Vânia enquanto ela dorme nua e passagens sombrias, como a das mães pelos corredores do internato perguntando por seus bebês que foram parar “na roda” (esquema de venda de recém-nascidos).

Entretanto, a mistura disso tudo resulta em uma obra que arma uma infinidade de jogadas memoráveis, mas nem sequer chuta para o gol (já que um homem resolveu falar da dor feminina, acho que posso me dar o direito de fazer uma metáfora futebolística).

Se por um lado há o mérito de um gostinho de quero mais, por outro fica a sensação de que tantas boas histórias morreram na praia. O livro é vendido como novela… Engraçado pensar nas nomenclaturas: na televisão, as novelas são justamente aquele formato que foi ficando chato porque passou a aprofundar de menos e durar demais. Já esta, literária, merecia mais páginas exatamente para que o drama (qualquer um dos tantos apresentados) se desenvolvesse. Talento, experiência e facilidade com as palavras o escritor tem de sobra.

Tati Bernardi
Tati Bernardi

Escritora e roteirista de cinema e televisão, é autora de “Depois a Louca Sou Eu”. Na seção É Coisa Fina, escreve sobre livros de até 200 páginas.

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